Sábado, Julho 11, 2009

O tradutor de silêncios


(ESCRE)VER-ME

nunca escrevi

sou
apenas o tradutor de silêncios

a vida
tatuou-me nos olhos
janelas
em que me transcrevo e apago

sou
um soldado
que se apaixona
pelo inimigo que vai matar

Mia Couto, in Raiz de orvalho, Caminho, 1999
Foto: Isabel Solano

Domingo, Junho 21, 2009

Movimento aparente

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14.06.2009

Isabel Solano, in Sem nós na garganta, inédito, 2009.
Fotos: Isabel Solano

Ao terceiro dia

video

Manuel Alegre, in Livro do português errante, Publicações Dom Quixote, 2001
Fotografia e voz: Isabel Solano

Quinta-feira, Junho 11, 2009

Vês um peixe


LEITOR, VÊS UM PEIXE?

Chegas à beira do tanque,
mergulhas e sem equívoco
revês o peixe que passa
com a onda possível a espraiar-se.
Pões o joelho gasto na deslocada
pedra antiga. Diverso azul
que te perturba lembrado
da visão pueril! Se ajoelhas
no meio da vida inteira
vês sinuosamente percorrer
o azul a soma das nossas vidas
onde te encerras.

Fiama Hasse Pais Brandão, in Obra Breve, Assírio & Alvim, 2006.
Foto: Isabel Solano

Sexta-feira, Maio 01, 2009

Ainda a ponte


Se um dia secarem as palavras
do rio que só nós soubemos navegar
se acordarmos sós e despidos
das quimeras que já não podemos segurar
restará ainda a velha ponte
hirta e fria, abandonada,
sobre um leito desfeito, vazio,
e alguns versos soltos pelas margens
como as folhas de outono

de nós nada mais se ouvirá

15/04/2009

Isabel Solano, in Sem nós na garganta, inédito, 2009.
Foto: Isabel Solano

Sábado, Abril 25, 2009

Abril de cinza


escrevo-te das costas de um tempo amordaçado
quando ainda era pecado simplesmente sentir
e por isso a rosa se exilou do próprio cheiro

digo-te que hoje vejo abril em tons de cinza
que há um cravo a murchar de dor em cada mão

seca-se-me a voz, seca a caneta com que escrevo
e amachuco a folha que o vento já arrasta pelo chão

3/1/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.
Foto: Isabel Solano

Segunda-feira, Abril 13, 2009

Dos infiéis defuntos

A Ruy Belo

Este país já nem sequer existe
a primavera mente mansa e morna
o tempo corre em ritmo decadente
o vento sopra forte e apaga os traços
dos passos que deixamos pelo caminho

Este país extinguiu-se mudo para o mundo
e nem o mar que um dia tanto amou
chorou o instante em que ele se finou

29/03/2009

Isabel Solano, in Esquecimento global, inédito, 2009.
Foto: Isabel Solano

Quinta-feira, Abril 09, 2009

Momento


HORÁRIO DO FIM

morre-se nada
quando chega a vez

é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos

morre-se tudo
quando não é o justo momento

e não é nunca
esse momento

Mia Couto, in Raiz de orvalho, Caminho, 1999
Foto: Isabel Solano

Terça-feira, Abril 07, 2009

A matéria simples


Os brilhos que na noite vêm
são dos olhos dos que sonham,
viagens pelos mares de outras águas.
São os que não gostam de se elevarem
no ar sobre os antigos oceanos
e amam os pequenos riachos
e o fundo invisível dos poços.

Fiama Hasse Pais Brandão, in Obra Breve, Assírio & Alvim, 2006.
Foto: Isabel Solano

Quarta-feira, Março 25, 2009

A raiz a terra a razão


ARTE POÉTICA

Ser a raiz das coisas
dentro na terra mergulhar
não por ser raiz
- prosápia dos tiranos -
mas curiosa
primordial volúpia
de conhecer
o que não se pode e é;
armar entre os trâmites da terra
- seca, fera e estéril -
uma sementeira próspera,
escolher um a um os grãos
que hão-de guiar os olhos,
vigias da alma
mais que olhos,
felizes arquivadas folhas
de servir
aos dedos impacientes
- mesmo deus tem dentro um deus profundo -
com que o poeta traça
o seu destino cego,
quando os dedos penetram,
rasgam, dentro da terra
enterram, e se enterram
talvez sonhando das coisas ser
a raiz,
a última razão.

António Mega Ferreira, in O tempo que nos cabe, Assírio & Alvim, 2005.
Foto: Isabel Solano

Segunda-feira, Março 23, 2009

Que porém


Gratificar o sol
com algumas excepções:
a ave que porém não cai
o grilo que porém não canta.

António Mega Ferreira, in "Génesis: anotações", O tempo que nos cabe, Assírio & Alvim, 2005.
Foto: Isabel Solano

Sexta-feira, Março 20, 2009

O vento um verbo o verso


METÁFORAS

As metáforas devoram as metáforas
mas nunca ninguém dirá
aqui
ou
ali.
Porque o teu reino é no adverso e no inverso
e só aí
o vento o verbo um verso.

Manuel Alegre, in Livro do português errante, Dom Quixote, 2001.
Foto: Isabel Solano

Domingo, Março 15, 2009

Sarauí


Entre rigorosos véus de areia
as mães afagam com olhos de água
os filhos que embalam em doce canto
e amarga sede inconformada

29/01/2009

Isabel Solano, in Esquecimento global, inédito, 2009.
Foto: Isabel Solano

Pela competitividade


Esses senhores e senhoras
que tão bem parecem saber
aquilo que ao povo convém,
que assinam leis, tratados,
debitam discursos inflamados
entre S. Bento e Belém,
agora amuam e ralham
porque não temos maneiras
- "Pobres, mal agradecidos!" -
se humildemente gememos
que a vida está uma canseira,
que já não há quem aguente.

Lá do alto, empertigados,
nos salões que nós pagamos,
dizem-nos que o nosso mal
é não sabermos competir
pelo progresso da nação;
que temos até muito mais
do que aquilo que merecemos.
E têm alguma razão.
Abra-se, pois, a grande competição:
nós dum lado, eles do outro,
veremos quem tem razão.

13/11/2007

Isabel Solano, in Outras cantigas, inédito, 2007.
Foto: Isabel Solano

Formigas formigas formigas formigas



NEM SEMPRE AOS POETAS APETECEM AS ESTRELAS

Apetece-me não sei porquê uma história de formigas
De formigas assexuadas negras nítidas e rápidas
Com olhos fantásticos colhendo miríades de imagens
E inúteis os olhos das formigas
Desenhadas como um oito ou como um sinal de infinito
Muitas corteses atarefadas prejudiciais
Clericais sociais subtílissimas pequenas
Formigando no chão
No chão onde florescem os cardos e as cores
No chão onde assenta a carne ansiosa das mulheres
E os joelhos dos homens
No chão onde ecoa a voz repugnante dos pregadores
E a voz das juras e dos negócios
No chão onde cai o suor dos aflitos
E o suor dos amorosos
E o suor dos operários
E o suor dos gordos
No chão onde andam os pés e estalam os escarros
No chão das guerras e das famílias correctas
E dos vasadouros e dos jardins
E do pus verde dos mendigos
E das chagas rendosas e das rendas custosas
E das doidas furiosas
E das rosas
E das airosas e das feias e dos bispos e dos triunfadores
E dos cretinos e das virgens
E dos remédios e dos males
E das vertigens e dos abismos
E das cismas
E dos sismos
E dos vermes do ventre e das sonecas
E dos ludíbrios e dos hábeis
E da força dos garantidos
E das sementes

Apetece-me não sei porquê uma história de formigas
A grande invasão das formigas multiplicando-se
Cobrindo a face da terra e a dos homens e das mulheres
Entrando-lhes pelos narizes para roerem os olhos por dentro
E fazendo bulir as coisas mortas e as vivas
Com o espantoso treme-luz irisado e magnífico
Dos seus reflexos negros e a substituírem todas as cores

Na grande montanha uma mulher enorme
Nua e infame
Tem as pernas escachadas sob as pregas do ventre
E sob as pregas do ventre seu sexo negro
É o grande formigueiro do mundo

Vive?

As formigas esvaziaram-na da enxúndia e substituíram-na
Só lhe deixaram a pele por fora para ainda haver branco visível
E como pêlos ampliados excitados e crescentes
Cobriram e desceram o vale
Enroscaram-se nas árvores
Desinquietaram a placidez das pedras
Forraram as aldeias e as cidades
Os animais e os homens

Que é do ciúme e das angústias?
Que é do amor e das palavras?
Que é das carícias e dos dentes?
Que é das renúncias e dos crimes?
Que é das tentações
Das promessas
Dos desejos
Dos apetites
Das fúrias?
Que é de todas as músicas?

O sol inútil cobre um mar negrejante onde os reflexos são como os olhos das moscas
E um silêncio tremendo finge de paz no mundo
Uma paz de silêncio com formigas

Formigas
Formigas
Formigas
Formigas

António Pedro, in Jorge de Sena, Líricas Portuguesas, vol. I, Edições 70, Lisboa, 1984
Foto: Isabel Solano

Sábado, Março 14, 2009

Não me falem do Outono!


OUTONO

Partiram no Outono e nunca mais voltaram
nem vão voltar
os que amei e me deixaram
a dor que sempre me há-de acompanhar
até o Outono me vir também buscar.

Não me falem, portanto, do Outono
nem das folhas caídas pelo chão,
triste imagem do abandono
que à noite me rouba o sono
e agrava a solidão.

Quero ter antes, para sempre, o Verão.

Torquato da Luz, in Por Amor e Outros Poemas, Papiro Editora, Porto, 2008
Foto: Isabel Solano

Domingo, Março 08, 2009

Incauta


ÚLTIMO DE "TRÊS POEMAS PARA CECÍLIA MEIRELES"

Feliz corria. E incauta.
E o vento sua trança destrançava
enquanto um som de flauta
flutuava.

Quantos anos passaram para que
seu cabelo de ouro e espiga
se cobrisse de neve? Se
alguém o souber que diga.

Ou não diga. Para quê dizê-lo?
Se há algum cabelo ao vento
já não é o seu cabelo;

é o de outra menina incauta
que não sabe que cada esquecimento
tem escondido um som de flauta.

Sidónio Muralha, in Jorge de Sena, Líricas Portuguesas, vol. I, Edições 70, Lisboa, 1984
Foto: Isabel Solano

Sexta-feira, Março 06, 2009

Tempo


Sei de um recanto
na margem da ribeira
onde à tarde me sento
e fico só olhando
o lento passar do tempo
ao som dos pássaros
e da água corrente

12/11/2007

Isabel Solano, in Errância, inédito, 2007.
Foto: Isabel Solano

Porosidade etérea


MÁQUINA DO MUNDO

O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto, é a matéria.

Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.

António Gedeão, in Jorge de Sena, Líricas Portuguesas, vol. I, Edições 70, Lisboa, 1984
Foto: Isabel Solano

Quarta-feira, Fevereiro 25, 2009

A praga


À despedida, como se aquele encontro fosse o deles,
soltaram-se insectos das bocas e as vozes somente diziam
alguns rumores de ráfia amachucada entre os dedos.

11/11/2007

Rui de Morais, in Do Riso da Insónia, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

O luar que traz?


LUAR

O luar
Pousa
Branco
No pássaro
Negro
Da noite.

Traz
Aos Homens
Vontade
De procurar
No feno
Exaltações
De cor
Nos corpos nus
Das Ceifeiras
Que Neles
Se acenderam
De dia.

Joaquim Carvalho, in "Em busca de ti", Recuperar a claridade, Pangeia Editores, 2008.
Foto: Isabel Solano

Terça-feira, Fevereiro 24, 2009

A carreira 10


Parto hoje à tarde na carreira 10
está decidido. Sem olhar para trás
sem me despedir sequer da minha rua

Parto hoje à tarde na caligrafia firme
do recado que deixo na porta do quarto
à espera de dizer-te o que já sabes

Vou procurar-me.
Talvez um dia
volte para jantar.

9/11/2007

Rui de Morais, in Caminhante, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

As coisas vêm vão e são tão vãs


MAS QUE SEI EU

Mas que sei eu das folhas no outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?

Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono

Nenhum súbito súbdito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra folha

qualquer. Mas eu que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha

Ruy Belo, in "Monte Abraaão", Todos os Poemas - 2, 2ª ed., Assírio & Alvim, 2004.
Foto: Isabel Solano

Segunda-feira, Fevereiro 09, 2009

Crateras na noite


Queres o beijo da lua
enquanto na terra bebes o mar
em vagas de esperança
deitadas sobre as dunas
de areias finas à luz crua
e fria do teu olhar.

Ergues o tronco
como quem quer ser de novo,
fitas um horizonte qualquer
que julgas perceber,
mas não te vês descalço,
a areia entranhada
entre os dedos dos pés,
colada em ti.

Lá em cima a lua ri-se
e as gargalhadas redondas
abrem crateras na noite.

9/11/2007

Bárbara Pais, in In Vida Veritas, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

O coração à solta


MADRUGADA

Cola os ouvidos ao silêncio, quando os pássaros
voltearem na casa abandonada.
Só então conhecerás o rumor dos passos
que precedem a madrugada.

Toda a vida é um quadro em que os tons claros
dão por vezes lugar aos mais escuros.
Mas não é raro
florescerem manhãs por trás de velhos muros.

Deixa portanto à solta o coração
e acolhe a luz que espreita além da escuridão.

Torquato da Luz, in Ofício Diário, Papiro Editora, Porto, 2007
Foto: Isabel Solano

Domingo, Fevereiro 08, 2009

Errância


No quente de um café à beira-mar,
um homem naufragava em si, perdido
em sonhos embalados pelas ondas,
ouvindo em eco sons de búzios ocos.

Pela areia húmida, havia passos sem sentido,
deambulações sem tempo conhecido
de alguns vagos vultos indiferentes.

Ali mesmo, num já frio café à beira-mar,
eu queria ter o olhar errante daquele homem
e beber dele o desejo ardente de sonhar.

7/11/2007

Isabel Solano, in Errância, inédito, 2007.
Foto: Isabel Solano

Sigamos o cherne

Come dive with me
SIGAMOS O CHERNE

Sigamos o cherne, minha Amiga!
Desçamos ao fundo do desejo
Atrás de muito mais que a fantasia
E aceitemos, até, do cherne um beijo,
Senão já com amor, com alegria...
Em cada um de nós circula o cherne,
Quase sempre mentido e olvidado.
Em água silenciosa de passado
Circula o cherne: traído
Peixe recalcado...

Sigamos, pois, o cherne, antes que venha,
Já morto, boiar ao lume de água,
Nos olhos rasos de água,
Quando, mentido o cherne a vida inteira,
Não somos mais que solidão e mágoa...

Alexadre O'Neill, in Jorge de Sena, Líricas Portuguesas, vol. I, Edições 70, 1983
Foto: Isabel Solano

Sábado, Fevereiro 07, 2009

Nós


Quando um dia nos sentarmos à mesma mesa
poisaremos enfim os olhos longe da tristeza
que sente a montanha por não ver o mar

6/2/2009

Luísa Veríssimo, in Nós, inédito, 2009
Foto: Isabel Solano

Imagens


Tantas praias, tantos mares vislumbrados
num tempo de paixão, terna loucura!
Restaram desse olhar imagens baças
atadas à saudade que ainda dura.

São tempos de silêncio amordaçado
estes, que agora temos, de amargura.

5/11/2007

Luísa Veríssimo, in A Ponta Mentos, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Desistir


Deixar um verso a meio,
como a manhã -
se desiste.

Francisco José Viegas, in O Puro e o Impuro, Quasi, 2003
Foto: Isabel Solano

Sexta-feira, Fevereiro 06, 2009

A diferença entre o poeta e a cigarra


O POETA E A CIGARRA

O mundo sabe
que, para ser belo,
necessita ser escrito.

Carente,
o Universo,
nos pede confirmação
do nosso incondicional amor.

A diferença
entre o poeta e a cigarra
é apenas a sinceridade.

Mia Couto, in Idades Cidades Divindades, Caminho, 2007
Foto: Isabel Solano

Segunda-feira, Fevereiro 02, 2009

O poeta que pensa?


O poeta que pensa no poema?
Que sobre o mundo muda o arco do futuro
como um vasto universo inverso ao tempo

Gastão Cruz, in Crateras, Assírio & Alvim, 2000
Fotografia: Isabel Solano

Porto seguro


Para cada poeta existe um porto seguro

Em cada poema há um barco
em cada verso uma amarra solta
e as palavras são outras tantas viagens
fazendo-se ao mar em sons que sulcam
as águas e sorvem a aragem húmida
Outras voam em rimas circulares
chiam ventam imitam tempestades
até choverem asas de gaivota
sobre a página repleta
de bicos abertos de aves

Enchem-se as nuvens de cinza
mas a luz ainda respira
pois para cada poeta existe um porto seguro
onde as nuvens se dissolvem
onde a fúria das ondas é musical
onde se embalam corações cansados
se gritam todos os sonhos afinal

Para cada poeta existe um porto seguro

30/1/2008

Bárbara Pais, in Impressionismos, inédito, 2008
Fotografia: Isabel Solano

Domingo, Fevereiro 01, 2009

Vazio


POEMA VAZIO




...






21/11/2007

Rui de Morais, in Do Riso da Insónia, inédito, 2007

Sábado, Janeiro 31, 2009

Reflexo

A boat to heaven
REFLEXO

Como um lago o poema
não repete reflecte

Gastão Cruz, in Crateras, Assírio & Alvim, 2000
Foto: Isabel Solano

Implosão


À falta de poesia
fez-se implodir um poeta
sobre uma folha vazia

20/11/2007

Rui de Morais, in Do Riso da Insónia, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Para além das grades

Emprisoned
Parece haver de novo grades nas janelas
e poucos - tão poucos! -
que queiram ver para além delas.

6/12/2008

Luísa Veríssimo, in Mais Poemas, inédito, 2008
Fotografia: Isabel Solano

Sexta-feira, Janeiro 30, 2009

Tempo


Tece a teia
a tecedeira
atenta
a cada fio
que cruza
tem nos dedos
toda a vida
que à alma
se recusa

1/12/2008

Luísa Veríssimo, in Mais Poemas, inédito, 2008
Fotografia: Isabel Solano

Domingo, Janeiro 25, 2009

Apenas folhas caídas

Leaves me confused

São apenas folhas caídas
em mil cores que o vento sopra
tantas outras despedidas
de verdes que outrora foram

São apenas folhas caídas
no empedrado das ruas
ou na terra humedecida
por entre árvores nuas

São apenas folhas caídas
por outras que irão nascer
e entregam-se coloridas
que pouco importa morrer

30/11/2008

Luísa Veríssimo, in Mais Poemas, inédito, 2008
Fotografia: Isabel Solano

Este país que o mar não quer


MORTE AO MEIO-DIA

No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra os vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

que cobre os campos neste meu país de sul?
A gente é previdente cala-se e mais nada
A boca é para comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe,
atenta à gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz do dia
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer

Ruy Belo, in "Boca bilingue", Todos os Poemas - 1, 2ª ed., Assírio & Alvim, 2004.
Foto: Isabel Solano

Segunda-feira, Janeiro 19, 2009

Doce de laranja


VI

até a chuva
vem beijá-las
as laranjas
depois corre
goteja
das cascas
lágrimas
tontas
doces

03/01/2009

Isabel Solano, in "Em tons de laranja", Até ao lugar onde - 30 poemas e 1 mapa, inédito, 2009.

Foto: Isabel Solano

Domingo, Janeiro 18, 2009

Dissimulação


V

à noite o laranjal
perfuma até as estrelas

a lua torna-se redonda
alisa a pele
aquece a cor

a lua tenta-me
ladina
dissimulada
laranja

03/01/2009

Isabel Solano, in "Em tons de laranja", Até ao lugar onde - 30 poemas e 1 mapa, inédito, 2009.

Foto: Isabel Solano

Sábado, Janeiro 17, 2009

Quem se deixaria tentar pela maçã?


IV

aqui não há peixes
nem búzios

há alguns pássaros
pedras

aqui não há mar
nem correntes

há céu e nuvens
brisas

no laranjal
quem se deixaria tentar
pela maçã?

e já o sol se vai pondo

03/01/2009

Isabel Solano, in "Em tons de laranja", Até ao lugar onde - 30 poemas e 1 mapa, inédito, 2009.

Foto: Isabel Solano

Sexta-feira, Janeiro 16, 2009

Tenho ainda as laranjas


III

Acordo a manhã no laranjal
sabendo que ainda não é hoje
que vou partir

Percebo ao longe duas silhuetas
minúsculos vultos negros
em contraluz
de gente que também é
mas vive à procura

Eu tenho ainda laranjas
ar
e a vista de mar
que não se esgota

03/01/2009

Isabel Solano, in "Em tons de laranja", Até ao lugar onde - 30 poemas e 1 mapa, inédito, 2009.

Foto: Isabel Solano

Domingo, Janeiro 11, 2009

Aguarelo de laranjas a manhã


II

Espremo um gomo entre a língua e o palato.
Como se pintasse frescos na cúpula,
aguarelo a manhã pelo pensamento incolor.
Misturo mais azul, abro o brilho,
contrasto as cores que já vejo.

Posso viver só de laranjas
e do ar que respiro,
com vista para o mar,
aqui, onde escolhi ficar.

03/01/2009

Isabel Solano, in "Em tons de laranja", Até ao lugar onde - 30 poemas e 1 mapa, inédito, 2009.

Foto: Isabel Solano

Sexta-feira, Janeiro 09, 2009

Perco-me entre as laranjas


I

Podia regressar hoje ao outro mar
e passar o laranjal,
perdido o rumo incerto das palavras.
Mas quero ficar entre as copas redondas,
alinhadas em verdes e amarelos,
unindo meticulosamente os gomos.

Podia chamar o verbo, ganhar tempo
para encontrar o mapa
escondido pelas copas.
Mas vou verter o sumo dos frutos,
doce, sobre os pés cansados,
alimentando assim o projecto de andar.

Podia até dizer-te.
Se a língua desatasse na boca
algum fogo.
Mas perco-me entre as laranjas.

03/01/2009

Isabel Solano, in "Em tons de laranja", Até ao lugar onde - 30 poemas e 1 mapa, inédito, 2009.

Foto: Isabel Solano

Domingo, Janeiro 04, 2009

Como o beijo


Como este beijo,
é vasto e profundo
o oceano.

E alheio ao mundo.

01/11/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.

Foto: Isabel Solano

Nas entrelinhas


vale o que vale
a escrita

dita quase só
nas entrelinhas
de um pensamento

22/12/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.

Foto: Isabel Solano

Segunda-feira, Novembro 10, 2008

Com o rumor

Like a rumor
Com o rumor da vida, mar adentro,
desperto universos de espanto
em cada murmúrio de búzio.

24/03/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.

Foto: Isabel Solano

Domingo, Novembro 09, 2008

O amor? Nem flor nem fruto

Voluptuous nature
MINUTO

O amor? Seria o fruto
trincado até mais não ser?
(Mas para lá do prazer
a Vida estava de luto...)

Fui plantar o coração
no infinito: uma flor...
(Mas para lá do fervor
a Vida gritou que não!)

O amor? Nem flor nem fruto.
(Tudo quanto em nós vibrara
parecia pronto a ceder...)

Foi apenas um minuto:
a fome intensa, tão rara!,
de ser criança, ou morrer...

David Mourão-Ferreira, in Jorge de Sena, Líricas Portuguesas, II Volume, Edições 70, 1983.
Foto: Isabel Solano

Luar na serra


Mais quente que a luz do dia
o luar já desaperta
o breve vestido de lã
que Novembro deu à serra
hoje cedo pela manhã.

Enquanto a noite avança,
vadia, em fogo brando,
o amor inebriando.

1/11/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.

Foto: Isabel Solano

Na minha boca


Vou-me encontrando por aí
nas bocas dos poetas
que leio em voz alta
para dizer à boca cheia
que sinto esses sabores
das palavras dos versos
das bocas dos poetas
na minha boca.

20/03/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.

Foto: Wise Wolf

Domingo, Setembro 28, 2008

Perfume
























E à noite, as mãos cansadas
ainda vieram deixar-me pelo corpo
esse perfume docemente intenso
que tem a madeira recém-cortada.

28/09/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.

Foto: Isabel Solano

Utopia


UTOPIA

Um querer viver tudo e não poder,
por tanto tempo em nada transformado
se ter assim escapado pelo passado.
Quanta promessa de amanhã fazer...

Como a semente, ao ser lançada ao chão,
Dar a vida pela vida, até à morte,
Florescer só quando chega a noite
do tempo que fez ser jovem em vão.

Desejo inútil de mais caminho haver!
Se o mundo ainda está por conhecer,
é absurdo partir quase à chegada.

Resta a certeza, agora já tardia,
de tanto desejo ser utopia.
De tudo querer viver ser viver nada.

Bárbara Pais, in Bárbara Pais, Isabel Solano, Luísa Veríssimo e Rui de Morais: Poemas Sem Data, inédito, s/d
Fotografia: Isabel Solano

Gotas e candeias puras


FONTE/II

No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.

Herberto Helder, in Miguel Veiga, Os Poemas da Minha Vida, 2ª ed., Público, 2005.
Foto: Isabel Solano

Sexta-feira, Setembro 26, 2008

Ó mar salgado!


MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernado Pessoa, in Mensagem, Oficina do Livro, 2006.
Foto: Isabel Solano

Quarta-feira, Setembro 10, 2008

Acordar


desnudo palavras ainda no ouvido.
dum tempo longe, quando julgava
conhecer-lhes o sentido.
acordaram-me o relógio
(aos gritos) (em sussurros).
desfeitos os muros da memória,
fizeram-me embater em mim,
de ímpeto brusco. mas nem assim
eu conheci o fim da história.

13/3/2008

Bárbara Pais, in Não Sei Falar de Mim, inédito, 2008
Fotografia: Isabel Solano

Pontos na estrada


Rodavam em sentidos opostos
nas faixas da auto-estrada
desconhecendo-se os rostos

sul-norte norte-sul

num instante se cruzaram
seguindo depois do encontro
ao desencontro de nada

sul-norte norte-sul

há encontros-desencontros
em cada ponto da rodagem
estendida a linha faz-se a estrada

sul-norte norte-sul

Rui de Morais, in Do Novo Velho Caminho, inédito, 2008
Foto: Isabel Solano

De moradas


BREVE ENCONTRO

Este é o amor das palavras demoradas
Moradas habitadas
Nelas mora
Em memória e demora
O nosso breve encontro com a vida

Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das Coisas, Caminho, 2004
Foto: Isabel Solano

Sábado, Agosto 30, 2008

Ardem maçãs na tarde


TARDE

Ardem maçãs na tarde aberta
sobre o pomar do teu passado

Conta quem foste Recomeça
com outros frutos o relato

Sejam romãs É uma festa
ir decifrar-te bago a bago

Conta em que tronco as tuas pernas
viram primeiro a luz de um rapto

Ou projectaram ser a hera
tocando frutos lá no alto

Conta quem foste Nunca 'squeças
que só em frutos te translado

David Mourão-Ferreira, in "Órfico ofício", Obra Poética, 5ª ed., Editorial Presença, 2006
Foto: Isabel Solano

Sexta-feira, Agosto 08, 2008

Os seus gestos ordenados e frios


Eu contarei a beleza das estátuas -
Seus gestos imóveis ordenados e frios -
E falarei do rosto dos navios

Sem que ninguém desvende outros segredos
Que nos meus braços correm como rios
E enchem de sangue a ponta dos meus dedos.

Sophia de Mello Breyner Andresen, No Tempo Dividido, 4ª ed., Caminho, 2005.
Foto: Isabel Solano

Quarta-feira, Agosto 06, 2008

Espelhos e cravos


Anda por aí um outono de espelhos
- pressinto-o sem para ele olhar -
onde não cabe o vermelho dos cravos
que jamais deixarei de semear.

05/08/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.

Foto: Isabel Solano

O prisioneiro


Começou de madrugada a obra
na mesma noite sonhada,
tijolo após tijolo,
colados pela argamassa
ligada pelas próprias mãos.
Subiu paredes de suor,
venceu cansaços,
ignorou abraços
de quem por ali passava
e o queria consolar.
Forjou barras inquebráveis,
grossas como os punhos
que nunca fraquejaram,
subiu um telhado simples,
que servisse apenas a função
de rematar a construção.
A obra ficou terminada;
finalmente chegara a Hora,
não perdeu tempo a olhar.
Empurrou a porta pesada,
entrou, deu duas voltas à chave,
retirou-a da ranhura,
foi à janela pequena
e lançou-a pelas grades
com a força que restava.
Um corvo que ali passava
apanhou a chave no ar,
foi-se embora, levando-a céu afora.
O homem deitou-se no chão
e descansou então para sempre
sobre a liberdade conquistada.

Março/2007

Rui de Morais, in Caminhante, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

As palavras

Terça-feira, Agosto 05, 2008

Erosão


trago-me inteira até à margem

recebo em beijos
a erosão que as águas fazem

05/08/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.

Foto: Isabel Solano

Um fogo equivocado


Um dia acendeu-se um fogo equivocado
e foi assim que eu ouvi contar o caso:

Fim de tarde junto à estrada florestal.
A caruma pensa que uma ponta de cigarro
que vê chegar junto a si, lançada de um carro,
está ainda em brasa quente, incandescente.
E esta, por sua vez, ainda tonta da queda,
mais tonta do que já era, vê no olho da caruma
o lume que já perdera sem saber.

Assim, tanto engano em área tão pequena
só podia dar em coisa bem funesta.
Ali mesmo logo se ateou um fogo equivocado
que fez arder boa parte da floresta.

Março/2007

Rui de Morais, in Do Riso da Insónia, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Tantas noites em flor de Primavera


Mais do que tudo, odeio
Tantas noites em flor da Primavera,
Transbordantes de apelos e de espera,
Mas donde nunca nada veio.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Poesia, 3ª ed., Caminho, 2007.
Foto: Isabel Solano

Sexta-feira, Agosto 01, 2008

Incêndio atrás das noites


(A CARTA DA PAIXÃO)
Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade
é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os seus recessos negros
onde se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se: O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, essa lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.

Herberto Helder, in Photomaton & Vox, Assírio & Alvim, 1995.
Foto: Isabel Solano

Sábado, Julho 26, 2008

Em cheiro de hortelã


No cheiro a hortelã em que nos deitamos
há um outro mar nascendo da terra

Envolve-nos de verdes orvalhos folhas
minúsculas hastes erguidas ao céu

Nesta manhã que se funde no sol
não existem rostos intranquilos
não existem sombras apesar da luz

Existem apenas corpos sobre a terra
bebendo vida em cores ainda por inventar

22/07/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.

Foto: Isabel Solano

Segunda-feira, Julho 21, 2008

O caso da maçã e da serpente

ADÃO E EVA

Olhámo-nos um dia,
E cada um de nós sonhou que achara
O par que a alma e a cara lhe pedia.

– E cada um de nós sonhou que o achara...

E entre nós dois
Se deu, depois, o caso da maçã e da serpente,
... Se deu, e se dará continuamente:

Na palma da tua mão,
Me ofertaste, e eu mordi, o fruto do pecado.

– Meu nome é Adão...

E em que furor sagrado
Os nossos corpos nus e desejosos
Como serpentes brancas se enroscaram,
Tentando ser um só!

Ó beijos angustiados e raivosos
Que as nossas pobres bocas se atiraram,
Sobre um leito de terra, cinza e pó!

Ó abraços que os braços apertaram,
Dedos que se misturaram!

Ó ânsia que sofreste, ó ânsia que sofri,
Sede que nada mata, ânsia sem fim!
– Tu de entrar em mim,
Eu de entrar em ti.

Assim toda te deste,
E assim todo me dei:

Sobre o teu longo corpo agonizante,
Meu inferno celeste,
Cem vezes morri, prostrado...
Cem vezes ressuscitei
Para uma dor mais vibrante
E um prazer mais torturado.

E enquanto as nossas bocas se esmagavam,
E as doces curvas do teu corpo se ajustavam
Às linhas fortes do meu,
Os nossos olhos muito perto, imensos,
No desespero desse abraço mudo,
Confessaram-se tudo!
... Enquanto nós pairávamos, suspensos
Entre a terra e o céu.

Assim as almas se entregaram,
Como os corpos se tinham entregado,
Assim duas metades se amoldaram
Ante as barbas, que tremeram,
Do velho Pai desprezado!

E assim Eva e Adão se conheceram:

Tu conheceste a força dos meus pulsos,
A miséria do meu ser,
Os recantos da minha humanidade,
A grandeza do meu amor cruel,
Os veios de oiro que o meu barro trouxe...

Eu, os teus nervos convulsos,
O teu poder,
A tua fragilidade
Os sinais da tua pele,
O gosto do teu sangue doce...

Depois...

Depois o quê, amor? Depois, mais nada,
– Que Jeová não sabe perdoar!

O Arcanjo entre nós dois abrira a longa espada...

Continuamos a ser dois,
E nunca nos pudemos penetrar!


José Régio, in Poemas de Deus e do Diabo, 2ª ed., Quasi, 2005.
Foto: Isabel Solano

Domingo, Julho 20, 2008

Sei que não vou por aí!


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

José Régio, in Poemas de Deus e do Diabo, 2ª ed., Quasi, 2005.
Foto: Isabel Solano

Nas teclas do vento


algumas plantas têm mãos de pianista
tocam as teclas do vento
sem partitura, de cor,
dando-se ares de artista

20/07/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.

Foto: Isabel Solano

Os dias imprecisos


Estava um ar tão transparente,
que foram precisos óculos
para desfocar o mundo
e eu tornar a ver os dias
imprecisos, como sempre.

Março/2007

Rui de Morais, in Do Riso da Insónia, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Terça-feira, Julho 08, 2008

Morada de silêncio


a escrita é a minha primeira morada de silêncio
a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras
extensas praias vazias onde o mar nunca chegou
deserto onde os dedos murmuram o último crime
escrever-te continuamente... areia e mais areia
construindo no sangue altíssimas paredes de nada

esta paixão pelos objectos que guardaste
esta pele-memória exalando não sei que desastre
a língua de limos

espalhávamos sementes de cicuta pelo nevoeiro dos sonhos
as manhãs chegavam como um gemido estelar
e eu perseguia teu rasto de esperma à beira-mar

outros corpos de salsugem atravessam o silêncio
desta morada erguida na precária saliva do crepúsculo

Al Berto, in "Salsugem", O Medo, 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2005.
Foto: Isabel Solano

Da função das árvores


Para que servem as árvores
tão altas, frondosas
pelos passeios, em canteiros
no meu bairro
se as crianças que cá vivem
já não as sabem trepar?

3/07/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.

Foto: Isabel Solano

Na sombra


No cais da sombra
não voava uma gaivota
não atracavam barcos
não cheirava a maresia
e era noite mesmo de dia

Março de 2007

Luísa Veríssimo, in A Ponta Mentos, inédito, 2007

Foto: Isabel Solano

Segunda-feira, Julho 07, 2008

Descomportamento linguístico


Não quero saber como as coisas se comportam.
Quero inventar comportamento para as coisas.
Li uma vez que a tarefa mais lídima da poesia é a
de equivocar o sentido das palavras
Não havendo nenhum descomportamento nisso
senão que alguma experiência lingüística.
Noto que às vezes sou desvirtuado a pássaros, que
sou desvirtuado em árvores, que sou desvirtuado
para pedras.
Mas que essa mudança de comportamento gental
para animal vegetal ou pedral
É apenas um descomportamento semântico.
Se eu digo que grota é uma palavra apropriada para
ventar nas pedras,
Apenas faço o desvio da finalidade da grota que
não é a de ventar nas pedras.
Se digo que os passarinhos faziam paisagens na
minha infância,
É apenas um desvio das tarefas dos passarinhos que
não é a de fazer paisagens.
Mas isso é apenas um descomportamento lingüístico que
não ofende a natureza dos passarinhos nem das grotas.
Mudo apenas os verbos e às vezes nem mudo.
Mudo os substantivos e às vezes nem mudo.
Se digo ainda que é mais feliz quem descobre o que não
presta do que quem descobre ouro -
Penso que ainda assim não serei atingido pela bobagem.
Apenas eu não tenho polimentos de ancião.

Manoel de Barros, in Ensaios Fotográficos, Editora Record, Rio de Janeiro, 2005
Foto: Isabel Solano

Morno


Tenho calor nas palavras
torpor preguiça
quente de verão
mornas noites
deitadas em redes
palmeiras na praia
abano leques
de saudade
voam areias
algumas

em vão

7/07/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.

Foto: Isabel Solano

Estados


Estava-se num estado
de estar assim
alegre e triste
a pensar que o mundo
é belo e existe
e dele não se pode
para sempre disfrutar

Estava-se num estado
de alegre estar o adeus
sempre a espreitar
num estado de sonho bom
e de não querer
nunca acordar

Março de 2007

Luísa Veríssimo, in A Ponta Mentos, inédito, 2007

Foto: Isabel Solano

Domingo, Julho 06, 2008

Memória de voo


LEMBRANÇA ALADA

Em alguma vida fui ave.

Guardo memória
de paisagens espraiadas
e de escarpas em voo rasante.

E sinto em meus pés
o consolo de um pouso soberano
na mais alta copa da floresta.

Liga-me à terra
uma nuvem e seu desleixo de brancura.

Vivo a golpes
com coração de asa
e tombo como um relâmpago
faminto de terra.

Mia Couto, in Idades Cidades Divindades, Caminho, 2007
Foto: Isabel Solano

Evanescência


Regresso a pouco e pouco
à calma dos meus dias
sob a sombra do jacarandá

cai uma chuva morna de lilás
sobre um café já frio
e em completa anestesia
distraio-se-me o olhar
em ver passar evanescências

outras cores o tempo a gente

3/06/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.

Foto: Isabel Solano

Vício


trinco-te as palavras
como a este massapão
de recheio guloso
meu vício é amargoso
porém
nunca morro de indigestão

Fevereiro/2007

Rui de Morais, in Do Riso da Insónia, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Quarta-feira, Julho 02, 2008

Diz-me que ainda há versos por escrever


UM DIZER AINDA PURO

imagino que sobre nós virá um céu
de espuma e que, de sol em sol,
uma nova língua nos fará dizer
o que a poeira da nossa boca adiada
soterrou já para lá da mão possível
onde cinzentos abandonamos a flor.

dizes: põe nos meus os teus dedos
e passemos os séculos sem rosto,
apaguemos de nossas casas o barulho
do tempo que ardeu sem luz.
sim, cria comigo esse silêncio
que nos faz nus e em nós acende
o lume das árvores de fruto.

diz-me que há ainda versos por escrever,
que sobra no mundo um dizer ainda puro.

Vasco Gato, in Um Mover de Mão, Assírio e Alvim, 2000.
Foto: Isabel Solano

Na desgramática


Cansado da tristura dos dias
entrou no invisível das palavras
e esqueceu as gramáticas

foi então que todas as normas voaram
em bando para lá dos montes
só ficaram ele e a sombra dos sons
só ficaram todas as sonoridades possíveis
quando a água dos riachos
escorre pelas fragas
e alguém segura o vento
com o dedo a fazer chiu

para cá dos montes
ele não quis saber
de nocturnas asas
e nem gravou memórias
no instante

2/07/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.

Foto: Isabel Solano

Assim


Se perguntam como vou
nem sei se saberia saber dizer
que vou assim
como sei ir
sem pressas cada vez menos
sem pressas de chegar
a lugar algum
que saiba saber dizer
assim cada vez menos com um fim
sem pensar
somente a ver
com todos os sentidos
e a gostar
a gostar

Março de 2007

Bárbara Pais, in In Vida Veritas, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Terça-feira, Junho 24, 2008

Paralelo de encontro


elas encontram-se afinal as paralelas
no (in)finito de mãos dadas
riem-se
na imagem
esquecidas delas

24/06/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.

Foto: Isabel Solano

Domingo, Junho 22, 2008

A preto e branco


os negros surgem à flor do papel

passo a passo
entro pela cal ferida das casas e desvendo
portas entreabertas cortinas de riscado objectos polidos pelo uso
chitas
nódoas seculares risos cinzas resíduos de comida ossos
mantos de pó penumbra mornas onde se encolhem os gatos
arcos de alvenaria gavetas sem fundo trepadeiras recantos de urina
ninhos que a curiosidade das crianças largou ao esquecimento

os brancos recortam-se intensos

a aldeia assemelha-se a uma mandala de líquidos cinzentos
um pouco de amarelo arde no centro da fotografia

por detrás dos cinzentos aguados

ouço guinchos de animais recolhendo às tocas
quando a noite cresce
à medida que o revelador actua
o estrangeiro atravessa o crepúsculo
e pára surpreendido pela luz do flash

depois
basta meter a folha de papel no fixador e esperar

Al Berto, in "Trabalhos do olhar", O Medo, 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2005.
Foto: Isabel Solano

Sábado, Junho 21, 2008

Desarrumação


Hoje sei
que nenhum canto se encontra arrumado
e que certos sentimentos são papéis amarrotados fáceis de alisar
outros são pergaminhos inquebráveis que não sei decifrar
atravessados todos eles por sinais contrários que me distraem

Ana Viana, in Mundo Entretecido, Edições Colibri, 1997
Foto: Isabel Solano

Domingo, Junho 15, 2008

Guardar rebanhos


o meu é um mar de cheiro a terra
e dunas de amoras vermelhas
povoadas dos guizos dos rebanhos
que nunca soube guardar

9/06/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.

Foto: Isabel Solano

Vontade


um dia soltou-se da prisão que escolhera
onde vivera anos por sua própria vontade
iludido, crendo que alguém lha impusera
e sem saber como amava a liberdade

um sopro bastou para abrir a porta
que sempre tinha conhecido tão intransponível

Fevereiro/2007

Rui de Morais, in Caminhante, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Rilkeana


I-C

Quem
concede
os anjos?

As nuvens
imitam
mas é inútil

O coração
não repercute
no alado lado

Que grito
penetra
a noite
de
nenhum
desejo?

Ana Hatherly, in "Variações elegíacas", Rilkeana, Assírio e Alvim, 1999.
Foto: Isabel Solano

Sábado, Junho 14, 2008

Vou levar-te o mar


BÚZIO

sei que nunca viste o oceano,
que nunca olhaste a onda sobre a onda,
que nunca fizeste castelos para o mar ser forte.

mas sei que já viste o coração das coisas,
que já tocaste a ferida nos nossos braços,
que já escreveste para sempre o nome da terra.

por isso te digo que vou levar-te o mar
na concha das minhas mãos, azulíssimo,
para que nele descubras o meu nome
entre os seixos os búzios os rostos que já tive.

Vasco Gato, in Um Mover de Mão, Assírio e Alvim, 2000.
Foto: Isabel Solano

Português (não) suave


O camionista de «piquet»
emocionado
mãos em braços grossos
musculados sobre as ancas
pose triunfal
lançou o olho tímido
ao microfone da TV
e a voz em solavancos
desculpou-se indecisa
das duas ou três frases
de português suave
que o repórter diligente
logo parafraseou com cuidado
"implícita a satisfação no qu'o D.E.L. e..."
mas nem terminou
por baixo do olho miúdo
agora faiscante
do camionista de «piquet»
em português não suave
soltou-se no mesmo instante
o punho grosso
"sastifação é no cu da tua mãe, ó cabrão!"
e foi certeiro
as câmaras picaram
e lá estava o repórter de serviço
atordoadamente esticado no chão

11/06/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.

Foto: Isabel Solano

Ensaboando palavras


Sopram-se as palavras
como bolhas de sabão
delicadas;
soltam-se ao brilho da luz,
às mil cores
de reflexos matizados.
É então que,
depois de um breve rodopio,
estalam uma a uma
ante o pestanejar descrente
de quem vê perdida
tanta graça, num instante.

Sopram-se outras ainda,
devagar, com arte redobrada;
segue-as o olhar,
numa vã tentativa
de lhes prolongar a vida.
Mas não.
Estalam todas.
Morrem as palavras
para que vivam as memórias.

Guarda-se a água de sabão;
amanhã será mais dia
de ensaboar palavras.

Fevereiro de 2007

Luísa Veríssimo, in A Ponta Mentos, inédito, 2007

Foto: Isabel Solano

Sexta-feira, Junho 13, 2008

Escrevo-te


escrevo-te a sentir tudo isto
e num instante de maior lucidez poderia ser o rio
as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos nos sais de prata
da fotografia
poderia erguer-me como o castanheiro dos contos sussurrados junto
ao fogo
e deambular trémulo com as aves
ou acompanhar a sulfúrica borboleta revelando-se na saliva dos lábios
poderia imitar aquele pastor
ou confundir-me com o sonho de cidade que a pouco e pouco morde a
sua imobilidade

habito neste país de água por engano
são-me necessárias imagens radiografias de ossos
rostos desfocados
mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
repara
nada mais possuo
a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de
romã
repara
como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar

Al Berto, in "Trabalhos do olhar", O Medo, 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2005.
Foto: Isabel Solano

Quarta-feira, Junho 11, 2008

Em cascata


Fechas os olhos
para veres que rios
correm sob as pálpebras
e vês que cascatas
constelando
o céu da tua cama?
Que astros
com elas se despenham?

10/06/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.

Foto: Isabel Solano

Prazo


ouvi um poema
escrito nas minhas costas
não quis ver quem o dizia
só quis saber que o sentia
sem querer sentir que sabia

provei as palavras
doces
envenenada a razão
engoli tudo de um trago
com a sofreguidão
de quem tem um prazo
a cumprir, sem atrasos
o tempo a fugir

reclinei-me na poltrona
velha
ainda lá estou
à espera que a noite venha

Fevereiro/2007

Rui de Morais, in Caminhante, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Rasteja uma luz negra






















Escuto as palavras que amontoas na intermitência do sentir
as que traduzem o silêncio e os gestos da sobrevivência
e onde rasteja uma luz negra
a mesma que um dia te absorveu a pele e te cristalizou o
sangue

observo esses cristais-palavras a dissolver-se na neve
a manter-se espelho
ou a lapidar-se em eco

e não sei o que fazer com a espuma que me fica
entre os dedos

Ana Viana, in Memórias do Desapego, Indícios de Oiro, 2007
Foto: Isabel Solano

Terça-feira, Junho 10, 2008

Nomear arrumar desordenar o mundo


escrevo barco e uma quilha fende o vastíssimo mar
e as árvores crescem dos espaços enevoados
entre olhar e olhar movem-se
animais presos à terra com suas plumagens de ferro
e de orvalho de ouro quando a lua se eclipsa
comunicando-lhes o cio e a nómada alegria de viver

penso outono ou inverno
e o lume resinoso dos pinhais escorre sobre o rosto
sobre o corpo em tímidos gestos
eis o tempo
do capricórnio reduzido ao esconderijo tatuado
na asa mineral da ave em pleno voo e digo nuvens
relâmpago erva águas
homem
movimento do susto oceanos sal exaustos corpos
transumantes paixões digo
e surge irrompe escorre ergue-se move-se vive
morre
mas não julguem ser trabalho simples nomear
arrumar e desordenar o mundo

para que não se apague esta trémula escrita
preciso do sonho e do pesadelo
da proximidade vertiginosa dos espelhos e
de pernoitar no fundo de mim com as mãos sujas
pelo árduo trabalho de construir os gestos exactos
da alegria que por descuido deus abandonou ao cansaço
no fim do sétimo dia

Al Berto, in "Alguns poemas da Rua do Forte", O Medo, 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2005.
Foto: Isabel Solano

Vou pertencer você para uma árvore.


Deus disse: Vou ajeitar a você um dom:
Vou pertencer você para uma árvore.
E pertenceu-me.
Escuto o perfume dos rios.
Sei que a voz das águas tem sotaque azul.
Sei botar cílio nos silêncios.
Para encontrar o azul eu uso pássaros.
Só não desejo cair em sensatez.
Não quero a boa razão das coisas.
Quero o feitiço das palavras.

Manoel de Barros, in O Encantador de Palavras, Quasi, 2000
Foto: Isabel Solano