Terça-feira, Julho 08, 2008

Morada de silêncio


a escrita é a minha primeira morada de silêncio
a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras
extensas praias vazias onde o mar nunca chegou
deserto onde os dedos murmuram o último crime
escrever-te continuamente... areia e mais areia
construindo no sangue altíssimas paredes de nada

esta paixão pelos objectos que guardaste
esta pele-memória exalando não sei que desastre
a língua de limos

espalhávamos sementes de cicuta pelo nevoeiro dos sonhos
as manhãs chegavam como um gemido estelar
e eu perseguia teu rasto de esperma à beira-mar

outros corpos de salsugem atravessam o silêncio
desta morada erguida na precária saliva do crepúsculo

Al Berto, in "Salsugem", O Medo, 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2005.
Foto: Isabel Solano

Da função das árvores


Para que servem as árvores
tão altas, frondosas
pelos passeios, em canteiros
no meu bairro
se as crianças que cá vivem
já não as sabem trepar?

3/07/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.

Foto: Isabel Solano

Na sombra


No cais da sombra
não voava uma gaivota
não atracavam barcos
não cheirava a maresia
e era noite mesmo de dia

Março de 2007

Luísa Veríssimo, in A Ponta Mentos, inédito, 2007

Foto: Isabel Solano

Segunda-feira, Julho 07, 2008

Descomportamento linguístico


Não quero saber como as coisas se comportam.
Quero inventar comportamento para as coisas.
Li uma vez que a tarefa mais lídima da poesia é a
de equivocar o sentido das palavras
Não havendo nenhum descomportamento nisso
senão que alguma experiência lingüística.
Noto que às vezes sou desvirtuado a pássaros, que
sou desvirtuado em árvores, que sou desvirtuado
para pedras.
Mas que essa mudança de comportamento gental
para animal vegetal ou pedral
É apenas um descomportamento semântico.
Se eu digo que grota é uma palavra apropriada para
ventar nas pedras,
Apenas faço o desvio da finalidade da grota que
não é a de ventar nas pedras.
Se digo que os passarinhos faziam paisagens na
minha infância,
É apenas um desvio das tarefas dos passarinhos que
não é a de fazer paisagens.
Mas isso é apenas um descomportamento lingüístico que
não ofende a natureza dos passarinhos nem das grotas.
Mudo apenas os verbos e às vezes nem mudo.
Mudo os substantivos e às vezes nem mudo.
Se digo ainda que é mais feliz quem descobre o que não
presta do que quem descobre ouro -
Penso que ainda assim não serei atingido pela bobagem.
Apenas eu não tenho polimentos de ancião.

Manoel de Barros, in Ensaios Fotográficos, Editora Record, Rio de Janeiro, 2005
Foto: Isabel Solano

Morno


Tenho calor nas palavras
torpor preguiça
quente de verão
mornas noites
deitadas em redes
palmeiras na praia
abano leques
de saudade
voam areias
algumas

em vão

7/07/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.

Foto: Isabel Solano

Estados


Estava-se num estado
de estar assim
alegre e triste
a pensar que o mundo
é belo e existe
e dele não se pode
para sempre disfrutar

Estava-se num estado
de alegre estar o adeus
sempre a espreitar
num estado de sonho bom
e de não querer
nunca acordar

Março de 2007

Luísa Veríssimo, in A Ponta Mentos, inédito, 2007

Foto: Isabel Solano

Domingo, Julho 06, 2008

Memória de voo


LEMBRANÇA ALADA

Em alguma vida fui ave.

Guardo memória
de paisagens espraiadas
e de escarpas em voo rasante.

E sinto em meus pés
o consolo de um pouso soberano
na mais alta copa da floresta.

Liga-me à terra
uma nuvem e seu desleixo de brancura.

Vivo a golpes
com coração de asa
e tombo como um relâmpago
faminto de terra.

Mia Couto, in Idades Cidades Divindades, Caminho, 2007
Foto: Isabel Solano

Evanescência


Regresso a pouco e pouco
à calma dos meus dias
sob a sombra do jacarandá

cai uma chuva morna de lilás
sobre um café já frio
e em completa anestesia
distraio-se-me o olhar
em ver passar evanescências

outras cores o tempo a gente

3/06/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.

Foto: Isabel Solano

Vício


trinco-te as palavras
como a este massapão
de recheio guloso
meu vício é amargoso
porém
nunca morro de indigestão

Fevereiro/2007

Rui de Morais, in Do Riso da Insónia, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Quarta-feira, Julho 02, 2008

Diz-me que ainda há versos por escrever


UM DIZER AINDA PURO

imagino que sobre nós virá um céu
de espuma e que, de sol em sol,
uma nova língua nos fará dizer
o que a poeira da nossa boca adiada
soterrou já para lá da mão possível
onde cinzentos abandonamos a flor.

dizes: põe nos meus os teus dedos
e passemos os séculos sem rosto,
apaguemos de nossas casas o barulho
do tempo que ardeu sem luz.
sim, cria comigo esse silêncio
que nos faz nus e em nós acende
o lume das árvores de fruto.

diz-me que há ainda versos por escrever,
que sobra no mundo um dizer ainda puro.

Vasco Gato, in Um Mover de Mão, Assírio e Alvim, 2000.
Foto: Isabel Solano

Na desgramática


Cansado da tristura dos dias
entrou no invisível das palavras
e esqueceu as gramáticas

foi então que todas as normas voaram
em bando para lá dos montes
só ficaram ele e a sombra dos sons
só ficaram todas as sonoridades possíveis
quando a água dos riachos
escorre pelas fragas
e alguém segura o vento
com o dedo a fazer chiu

para cá dos montes
ele não quis saber
de nocturnas asas
e nem gravou memórias
no instante

2/07/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.

Foto: Isabel Solano

Assim


Se perguntam como vou
nem sei se saberia saber dizer
que vou assim
como sei ir
sem pressas cada vez menos
sem pressas de chegar
a lugar algum
que saiba saber dizer
assim cada vez menos com um fim
sem pensar
somente a ver
com todos os sentidos
e a gostar
a gostar

Março de 2007

Bárbara Pais, in In Vida Veritas, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Terça-feira, Junho 24, 2008

Paralelo de encontro


elas encontram-se afinal as paralelas
no (in)finito de mãos dadas
riem-se
na imagem
esquecidas delas

24/06/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.

Foto: Isabel Solano

Domingo, Junho 22, 2008

A preto e branco


os negros surgem à flor do papel

passo a passo
entro pela cal ferida das casas e desvendo
portas entreabertas cortinas de riscado objectos polidos pelo uso
chitas
nódoas seculares risos cinzas resíduos de comida ossos
mantos de pó penumbra mornas onde se encolhem os gatos
arcos de alvenaria gavetas sem fundo trepadeiras recantos de urina
ninhos que a curiosidade das crianças largou ao esquecimento

os brancos recortam-se intensos

a aldeia assemelha-se a uma mandala de líquidos cinzentos
um pouco de amarelo arde no centro da fotografia

por detrás dos cinzentos aguados

ouço guinchos de animais recolhendo às tocas
quando a noite cresce
à medida que o revelador actua
o estrangeiro atravessa o crepúsculo
e pára surpreendido pela luz do flash

depois
basta meter a folha de papel no fixador e esperar

Al Berto, in "Trabalhos do olhar", O Medo, 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2005.
Foto: Isabel Solano

Sábado, Junho 21, 2008

Desarrumação


Hoje sei
que nenhum canto se encontra arrumado
e que certos sentimentos são papéis amarrotados fáceis de alisar
outros são pergaminhos inquebráveis que não sei decifrar
atravessados todos eles por sinais contrários que me distraem

Ana Viana, in Mundo Entretecido, Edições Colibri, 1997
Foto: Isabel Solano

Domingo, Junho 15, 2008

Guardar rebanhos


o meu é um mar de cheiro a terra
e dunas de amoras vermelhas
povoadas dos guizos dos rebanhos
que nunca soube guardar

9/06/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.

Foto: Isabel Solano

Vontade


um dia soltou-se da prisão que escolhera
onde vivera anos por sua própria vontade
iludido, crendo que alguém lha impusera
e sem saber como amava a liberdade

um sopro bastou para abrir a porta
que sempre tinha conhecido tão intransponível

Fevereiro/2007

Rui de Morais, in Caminhante, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Rilkeana


I-C

Quem
concede
os anjos?

As nuvens
imitam
mas é inútil

O coração
não repercute
no alado lado

Que grito
penetra
a noite
de
nenhum
desejo?

Ana Hatherly, in "Variações elegíacas", Rilkeana, Assírio e Alvim, 1999.
Foto: Isabel Solano

Sábado, Junho 14, 2008

Vou levar-te o mar


BÚZIO

sei que nunca viste o oceano,
que nunca olhaste a onda sobre a onda,
que nunca fizeste castelos para o mar ser forte.

mas sei que já viste o coração das coisas,
que já tocaste a ferida nos nossos braços,
que já escreveste para sempre o nome da terra.

por isso te digo que vou levar-te o mar
na concha das minhas mãos, azulíssimo,
para que nele descubras o meu nome
entre os seixos os búzios os rostos que já tive.

Vasco Gato, in Um Mover de Mão, Assírio e Alvim, 2000.
Foto: Isabel Solano

Português (não) suave


O camionista de «piquet»
emocionado
mãos em braços grossos
musculados sobre as ancas
pose triunfal
lançou o olho tímido
ao microfone da TV
e a voz em solavancos
desculpou-se indecisa
das duas ou três frases
de português suave
que o repórter diligente
logo parafraseou com cuidado
"implícita a satisfação no qu'o D.E.L. e..."
mas nem terminou
por baixo do olho miúdo
agora faiscante
do camionista de «piquet»
em português não suave
soltou-se no mesmo instante
o punho grosso
"sastifação é no cu da tua mãe, ó cabrão!"
e foi certeiro
as câmaras picaram
e lá estava o repórter de serviço
atordoadamente esticado no chão

11/06/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.

Foto: Isabel Solano

Ensaboando palavras


Sopram-se as palavras
como bolhas de sabão
delicadas;
soltam-se ao brilho da luz,
às mil cores
de reflexos matizados.
É então que,
depois de um breve rodopio,
estalam uma a uma
ante o pestanejar descrente
de quem vê perdida
tanta graça, num instante.

Sopram-se outras ainda,
devagar, com arte redobrada;
segue-as o olhar,
numa vã tentativa
de lhes prolongar a vida.
Mas não.
Estalam todas.
Morrem as palavras
para que vivam as memórias.

Guarda-se a água de sabão;
amanhã será mais dia
de ensaboar palavras.

Fevereiro de 2007

Luísa Veríssimo, in A Ponta Mentos, inédito, 2007

Foto: Isabel Solano

Sexta-feira, Junho 13, 2008

Escrevo-te


escrevo-te a sentir tudo isto
e num instante de maior lucidez poderia ser o rio
as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos nos sais de prata
da fotografia
poderia erguer-me como o castanheiro dos contos sussurrados junto
ao fogo
e deambular trémulo com as aves
ou acompanhar a sulfúrica borboleta revelando-se na saliva dos lábios
poderia imitar aquele pastor
ou confundir-me com o sonho de cidade que a pouco e pouco morde a
sua imobilidade

habito neste país de água por engano
são-me necessárias imagens radiografias de ossos
rostos desfocados
mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
repara
nada mais possuo
a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de
romã
repara
como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar

Al Berto, in "Trabalhos do olhar", O Medo, 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2005.
Foto: Isabel Solano

Quarta-feira, Junho 11, 2008

Em cascata


Fechas os olhos
para veres que rios
correm sob as pálpebras
e vês que cascatas
constelando
o céu da tua cama?
Que astros
com elas se despenham?

10/06/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.

Foto: Isabel Solano

Prazo


ouvi um poema
escrito nas minhas costas
não quis ver quem o dizia
só quis saber que o sentia
sem querer sentir que sabia

provei as palavras
doces
envenenada a razão
engoli tudo de um trago
com a sofreguidão
de quem tem um prazo
a cumprir, sem atrasos
o tempo a fugir

reclinei-me na poltrona
velha
ainda lá estou
à espera que a noite venha

Fevereiro/2007

Rui de Morais, in Caminhante, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Rasteja uma luz negra






















Escuto as palavras que amontoas na intermitência do sentir
as que traduzem o silêncio e os gestos da sobrevivência
e onde rasteja uma luz negra
a mesma que um dia te absorveu a pele e te cristalizou o
sangue

observo esses cristais-palavras a dissolver-se na neve
a manter-se espelho
ou a lapidar-se em eco

e não sei o que fazer com a espuma que me fica
entre os dedos

Ana Viana, in Memórias do Desapego, Indícios de Oiro, 2007
Foto: Isabel Solano

Terça-feira, Junho 10, 2008

Nomear arrumar desordenar o mundo


escrevo barco e uma quilha fende o vastíssimo mar
e as árvores crescem dos espaços enevoados
entre olhar e olhar movem-se
animais presos à terra com suas plumagens de ferro
e de orvalho de ouro quando a lua se eclipsa
comunicando-lhes o cio e a nómada alegria de viver

penso outono ou inverno
e o lume resinoso dos pinhais escorre sobre o rosto
sobre o corpo em tímidos gestos
eis o tempo
do capricórnio reduzido ao esconderijo tatuado
na asa mineral da ave em pleno voo e digo nuvens
relâmpago erva águas
homem
movimento do susto oceanos sal exaustos corpos
transumantes paixões digo
e surge irrompe escorre ergue-se move-se vive
morre
mas não julguem ser trabalho simples nomear
arrumar e desordenar o mundo

para que não se apague esta trémula escrita
preciso do sonho e do pesadelo
da proximidade vertiginosa dos espelhos e
de pernoitar no fundo de mim com as mãos sujas
pelo árduo trabalho de construir os gestos exactos
da alegria que por descuido deus abandonou ao cansaço
no fim do sétimo dia

Al Berto, in "Alguns poemas da Rua do Forte", O Medo, 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2005.
Foto: Isabel Solano

Vou pertencer você para uma árvore.


Deus disse: Vou ajeitar a você um dom:
Vou pertencer você para uma árvore.
E pertenceu-me.
Escuto o perfume dos rios.
Sei que a voz das águas tem sotaque azul.
Sei botar cílio nos silêncios.
Para encontrar o azul eu uso pássaros.
Só não desejo cair em sensatez.
Não quero a boa razão das coisas.
Quero o feitiço das palavras.

Manoel de Barros, in O Encantador de Palavras, Quasi, 2000
Foto: Isabel Solano

Sábado, Junho 07, 2008

Menina preta


a menina preta
tem o branco dos olhos
sempre a cantar
por isso lhe fica
tão risonho
o olhar
mesmo
que a boca
se queira
queixar

3/06/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.

Foto: Isabel Solano

Assim


assim o mundo me seduz
inconstante, mutante
a cada instante

Fevereiro de 2007

Luísa Veríssimo, in A Ponta Mentos, inédito, 2007

Foto: Isabel Solano

A espessura das papoulas murchas


o silêncio tem a espessura das papoulas murchas
e os objectos parecem aproximar-se do sono
inclinam-se para o lado onde se situam os moinhos as ermidas os bosques diluídos
o nítido ladrar dos cães
que horas serão para lá desta fotografia?

com uma grande angular circundo o mosteiro ao morrer do dia
perto dos jardins cheira a laranjas orvalhadas em tua respiração
tenho uma iluminação de astros rebentando do arco-íris da noite
quando abro o diafragma todo para as línhas oblíquas do rosto em
telha quase rubra

o dia desaguou ao fundo das ruas desertas
apresso o passo debaixo do voo das aves
recolho o olhar
onde um fauno vem beber a nocturna nudez das uvas

Al Berto, in "Trabalhos do olhar", O Medo, 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2005.
Foto: Isabel Solano

Sexta-feira, Junho 06, 2008

Onde?


Onde estão as palavras
para dizer o silêncio dos homens
que calam feridas de olhos abertos?

Onde estão as palavras
para dizer o sono alucinado
dos que guardam vigílias?

Onde estão as palavras
que me não diz o vento
mas que ouço e guardo sempre?

31/05/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.

Foto: Isabel Solano

No voo das aves


há uma eternidade
possível
no silêncio
do voo
das aves

31/05/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.

Foto: Isabel Solano

Comme d'habitude


Não choveu na praia
e, se tivesse chovido,
nem o mar salgado
teria percebido
esse doce travo.

Uma gaivota pousou nas rochas,
um navio passou ao largo,
comme d'habitude,
e, no entanto,
não choveu na praia.

Chocolate quente,
sossego pela vidraça,
contemplação.

Fevereiro de 2007

Bárbara Pais, in In Vida Veritas, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Demoraste tanto


mais nada se move em cima do papel
nenhum olho de tinta iridiscente pressagia
o destino deste corpo

os dedos cintilam no húmus da terra
e eu
indiferente à sonolência da língua
ouço o eco do amor há muito soterrado

encosto a cabeça na luz e tudo esqueço
no interior desta âncora alucinada

desço com a lentidão ruiva das feras
ao nervo onde a boca procura o sul
e os lugares dantes povoados
ah meu amigo
demoraste tanto a voltar dessa viagem

o mar subiu ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão

assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração

Al Berto, in O Último Coração do Sonho, Quasi, 2006
Foto: Isabel Solano

Quinta-feira, Junho 05, 2008

E me disperso


MEDITANDO

Quantas vezes, vou só, por um caminho adiante,
A meditar nas cousas.
E meditando, eu torno-me distante
Das suas aparências mentirosas.

Meditar é subir àquela altura,
Onde a gota de orvalho é um astro que alumia;
E onde é perfeita a mística alegria
A humana desventura.

Por isso, eu amo tanto
As horas de saudade em que medito,
E julgo ouvir misterioso canto
E me perturba a sombra do Infinito.

Ouço uma voz dizer, em mim: eu sou alguém...
E sinto que essa voz não é só minha; eu sinto
Que dimana de tudo o que me cerca e tem
Ermo perfil, nas trevas, indistinto.

Sou infinito amor, quimérica presença.
Aos meus olhos baixando, a luz do luar,
Em choro, se condensa;
E vejo a terra e o céu, como através do mar.

E transtornam-se as cousas que parecem
Destroços naufragados.
Seus corpos anoitecem
E ficam-se, na sombra, a olhar, pasmados.

Sempre que choro, o branco nevoeiro
As árvores apaga.
O meu riso floresce um ermo outeiro
E o meu canto, de monte em monte, se propaga.

Que estranha simpatia
Me prende às pobres cousas da Natura!
A minha dor cantando é luz; minha alegria
Incendeia a nocturna sombra escura.

E vejo a intimidade, o laço oculto,
Que as almas todas casa;
Meu coração erguendo, em sonhos, o seu vulto
É pedra, nuvem, asa.

Horas em que medito e me disperso,
Por tudo quanto existe.
Em mim, se extingue o dia do Universo
E principia, em mim, a sua noite triste.

Teixeira de Pascoaes, in Fernando Guimarães (org.), Simbolismo, Saudosismo e Modernismo: Antologia de Poesia Portuguesa, Quasi, 2001.
Foto: Isabel Solano

Quarta-feira, Junho 04, 2008

Sem guarnição


Que não se perca um só som
em ruído muito ou pouco desmedido
cuide-se-lhe antes o sentido
bem apurado
em leito de palavras
poucas
que o som perfeito
se quer sem demasiado enfeite

2/06/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.

Foto: Isabel Solano

Só os homens têm o privilégio do absurdo


Na manhã de um dia tão diferente
Em que o sol nasceu a poente
E a Terra parou simplesmente de rodar,
Ouviram-se choros e gritos,
Viram-se olhos abertos de terror
Nos homens e mulheres que corriam,
Aflitos, levando nos braços
As crianças, suas esperanças.

Mas as ovelhas não sairam dos pastos,
As aves não deixaram de cantar
E os rios continuaram
em marcha lenta para o mar.

Aquilo que é de razão,
Tanto quanto a falta dela,
Só os homens,
Na sua infinita racionalidade,
Entendem.

Fevereiro de 2007

Luísa Veríssimo, in A Ponta Mentos, inédito, 2007

Foto: Isabel Solano

N'adhérez jamais


DE 1 A 65

"N'adhérez jamais"
Georges Bracque


Nasci d'asas
Com asas
Cortaram-me as guias
De pé no chão
Vieram os filhos
Cortaram-me os pés
Cresceram as asas
Sei só voar
Sem pé em terra
Sem pé no ar
Tenho pé no ar
Filho d'asas
Sabe voar.

Almada Negreiros, in Fernando Guimarães (org.), Simbolismo, Saudosismo e Modernismo: Antologia de Poesia Portuguesa, Quasi, 2001.
Foto: Isabel Solano

Terça-feira, Junho 03, 2008

(In)completa


a palavra
mesmo
a que se julga
repleta
nunca
é completa

Fevereiro/2007

Rui de Morais, in Caminhante, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Dum avestruz todo griz


PALAVRAS DUM AVESTRUZ TODO GRIZ

Arrancam-me as penas
E eu sofro sem dizer nada:
- Sou ave
Bem educada.

E, se quisesse,
Podia
Morder-lhe as mãos morenas,
A esses
Que sem piedade
Me roubam estas penas que me cobrem;

E, no entanto,
Sem o mais breve gemido,
O meu corpo
Vai ficando
Desguarnecido...

E elas,
Aquelas
Que se enfeitam, doidamente,
Com estas penas formosas
- Que são minhas!
Passam, por mim, desdenhosas
Em gargalhadas mesquinhas.

Sim; eu sofro sem dizer nada:
- Sou ave
Bem educada.

António Botto, in Fernando Guimarães (org.), Simbolismo, Saudosismo e Modernismo: Antologia de Poesia Portuguesa, Quasi, 2001.
Foto: Isabel Solano

Domingo, Junho 01, 2008

No silêncio nu


OÁSIS

Penetraremos no palmar
A água será clara o leite doce
O calor será leve o linho branco e fresco
O silêncio estará nu - o canto
Da flauta será nítido no liso
Da penumbra

Lavaremos nossas mãos de desencontro e poeira

Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das Coisas, Caminho, 2004
Foto: Isabel Solano