Ver inVerso
Poesia lusófona e fotografia: Bárbara Pais, Isabel Solano, Luísa Veríssimo, Rui de Morais e todos os Mestres
Quinta-feira, Abril 14, 2011
Faz-se luz
Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem
Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca
Mário Cesariny, in Pena Capital
Foto: Isabel Solano
Terça-feira, Dezembro 28, 2010
Haverá um tempo de regresso
Sábado, Dezembro 19, 2009
Silêncios - 1º prémio do concurso de poesia "Ora vejamos... 2009"

SILÊNCIOS
Encontramos a praia deserta. Com os olhares fugidios,
ensaiamos alguma conversa de mistérios abertos
na seriedade do momento musicado pelas ondas do mar
e pelos gritos das gaivotas tristes, mas brancas.
O silêncio está sempre ocupado, mesmo quando não há palavras;
portanto, as reticências podem prolongar-se em suspiro longo,
os pontos finais deitar-se ao abandono do ar fresco.
A manhã parece cheia de vazios repletos de sensações
e as palavras vão ganhando agilidade, ritmo, alguma emoção,
enquanto os silêncios de mar calam brisas ainda húmidas.
As gaivotas alinham-se agora, sentadas na areia molhada,
enquanto batem os corações que as olham, descompassados.
Sentimos o ar tão quente, que queremos ter asas também,
voar contra o vento de penas leves em desalinho.
Enterramos longe as pesadas penas de ontem.
Ainda há pouco o tempo parou em todos os relógios.
E nós deixámos.
Isabel Solano
Sereno refúgio - 3º prémio do concurso de poesia "Ora Vejamos... 2009"

SERENO REFÚGIO
Sei que a brancura dos dias é aparente
E que a noite se há-de deitar devagar
Entre nós, o oceano, o meu país cansado
E o teu, que ainda escuta ardente
Os rumores que lhe chegam do mar.
Sei que o vento que hoje sopra violento
Amanhã será brisa ou quase nada
E que as nossas vozes, que hoje cantam
Melodias ridentes, inventando sinfonias,
Hão-de ser lágrimas, como o orvalho é geada.
Sei que não crês no que te digo triste,
E me devolves um sorriso que diz que existe
Mais do que este constante movimento
Descendente na minha razão tão escura.
Sorris. Ou ris-te de mim, ainda não sei.
Mas sei que a toda esta imparável mudança
Resiste firme a tua esperança, sólida
A tua mão na minha. E que a tua voz,
Essa, nunca vacila quando a noite vem
E me anuncia a ternura sempre renovada
De um outro dia que se aproxima.
Isabel Solano
Sábado, Dezembro 12, 2009
Ilusão inalienável

Ora, quero lá saber da chuva,
do vento que uiva lá fora,
do rio furioso que transborda,
dos raios, dos trovões,
de todas as intempéries!
Quero antes aquecer ilusões
à lareira, todos os serões,
de portas e janelas bem fechadas,
para que das chuvas ácidas
que afogam esse mundo estranho
no meu mundo nunca entre nada!
19/11/2007
Bárbara Pais, in In Vida Veritas, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano
Segunda-feira, Novembro 30, 2009
Cascata

Dos teus dedos, quando tocam teclas de água,
Escorre um rio que lava as minhas lágrimas
E me devolve os sonhos que quis ter um dia
Presentes, vivos, num rodopio tonto de euforia
Dos teus dedos, quando acordam calmarias,
Desprendem-se em cascata todas as fantasias
E rolam revoltas as minhas ideias – tão soltas –
Por entre os seixos dóceis e os juncos complacentes
Nos teus dedos me perco e encontro o curso fluido
Transparente, da minha alma que pensava ausente
29.11.2009
Isabel Solano, in Sem nós na garganta, inédito, 2009.
Foto: Isabel Solano
Terça-feira, Agosto 25, 2009
Lascívia
Sábado, Agosto 22, 2009
Ponto de suspensão

O homem do violino
toca à porta do mercado.
Transporta a gente que passa
ao som de outro destino.
Volteia o arco nas cordas,
acorda o povo que dorme
e que vem saciar a fome
de outras frases, musicais.
Pára o tempo,
cessa a máquina da urbe.
Tudo fica suspenso,
tudo.
18/11/2007
Isabel Solano, in Errância, inédito, 2007.
Foto: Isabel Solano
Quinta-feira, Agosto 20, 2009
(De)formar-se
Quarta-feira, Agosto 19, 2009
Mudez
Domingo, Agosto 09, 2009
Sereno refúgio

(Texto já aqui publicado em versão audio, com alteração do título.)
SERENO REFÚGIO
Sei que a brancura dos dias é aparente
E que a noite se há-de deitar devagar
Entre nós, o oceano, o meu país cansado
E o teu, que ainda escuta ardente
Os rumores que lhe chegam do mar.
Sei que o vento que hoje sopra violento
Amanhã será brisa ou quase nada
E que as nossas vozes, que hoje cantam
Melodias ridentes, inventando sinfonias,
Hão-de ser lágrimas, como o orvalho é geada.
Sei que não crês no que te digo triste,
E me devolves um sorriso que diz que existe
Mais do que este constante movimento
Descendente na minha razão tão escura.
Sorris. Ou ris-te de mim, ainda não sei.
Mas sei que a toda esta imparável mudança
Resiste firme a tua esperança, sólida
A tua mão na minha. E que a tua voz,
Essa, nunca vacila quando a noite vem
E me anuncia a ternura sempre renovada
De um outro dia que se aproxima.
14.06.2009
Isabel Solano, in Sem nós na garganta, inédito, 2009.
Fotos: Isabel Solano
Sexta-feira, Julho 31, 2009
O poeta em um pouco de morte
Leio e cobiço o Poeta
que quer morrer por um bocado
que isto de andar neste viver
o vem trazendo tão cansado
A morte adormeceu-lhe ao colo
e a um canto do quarto ali está ela
a mulher que vela o sono de ambos
tricotando o tempo devagar
para que o descanso se demore
e o Poeta só acorde
farto da sua própria morte
17/11/2007
Isabel Solano, in Errância, inédito, 2007.
Foto: Isabel Solano
Sábado, Julho 18, 2009
Quieres verme bailar?

UMA BAILARINA ANDALUZA EM 1992
Morena, só brilhante o cabelo
e a blusa de licra
rente aos seios, do ventre
uma penugem adivinhada
junto ao vazio de onde se soltou
há quinze anos,
deixa que a música se instale
entre suor e suor,
ronda-que-ronda de corpos
vindos do sono bom da tarde,
da luz longa do dia,
do adormecer do sol.
Está sozinha, o busto antes de tudo,
as coxas assentes na bancada,
as mãos no rebordo de madeira,
medindo os passos hesitantes,
os braços que se evitam,
os olhos que se espreitam,
ronda-que-ronda de lutos
e de esperanças - me quieres?
Quieres verme bailar?
E, súbita, rompente e esbelta, em espiga,
ergue-se num sopro,
a nua ponta dos pés na areia de que se fez,
e um hábito antigi
a embala,
numa cadência de tragédia, de saliva e de todos
os cheiros bons
que o seu corpo exala,
as ancas derramadas da cintura,
o olhar por acaso distraído,
os dedos de arabesco em carne pura
troçando, para nós, o desejo
de dançar.
António Mega Ferreira, in O tempo que nos cabe, Assírio & Alvim, 2005.
Foto: Isabel Solano
Segunda-feira, Julho 13, 2009
A palavra
Sábado, Julho 11, 2009
O tradutor de silêncios
Domingo, Junho 21, 2009
Ao terceiro dia
Quinta-feira, Junho 11, 2009
Vês um peixe

LEITOR, VÊS UM PEIXE?
Chegas à beira do tanque,
mergulhas e sem equívoco
revês o peixe que passa
com a onda possível a espraiar-se.
Pões o joelho gasto na deslocada
pedra antiga. Diverso azul
que te perturba lembrado
da visão pueril! Se ajoelhas
no meio da vida inteira
vês sinuosamente percorrer
o azul a soma das nossas vidas
onde te encerras.
Fiama Hasse Pais Brandão, in Obra Breve, Assírio & Alvim, 2006.
Foto: Isabel Solano
Sexta-feira, Maio 01, 2009
Ainda a ponte

Se um dia secarem as palavras
do rio que só nós soubemos navegar
se acordarmos sós e despidos
das quimeras que já não podemos segurar
restará ainda a velha ponte
hirta e fria, abandonada,
sobre um leito desfeito, vazio,
e alguns versos soltos pelas margens
como as folhas de outono
de nós nada mais se ouvirá
15/04/2009
Isabel Solano, in Sem nós na garganta, inédito, 2009.
Foto: Isabel Solano
Sábado, Abril 25, 2009
Abril de cinza

escrevo-te das costas de um tempo amordaçado
quando ainda era pecado simplesmente sentir
e por isso a rosa se exilou do próprio cheiro
digo-te que hoje vejo abril em tons de cinza
que há um cravo a murchar de dor em cada mão
seca-se-me a voz, seca a caneta com que escrevo
e amachuco a folha que o vento já arrasta pelo chão
3/1/2008
Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.
Foto: Isabel Solano
Segunda-feira, Abril 13, 2009
Dos infiéis defuntos
Este país já nem sequer existe
a primavera mente mansa e morna
o tempo corre em ritmo decadente
o vento sopra forte e apaga os traços
dos passos que deixamos pelo caminho
Este país extinguiu-se mudo para o mundo
e nem o mar que um dia tanto amou
chorou o instante em que ele se finou
29/03/2009
Isabel Solano, in Esquecimento global, inédito, 2009.
Foto: Isabel Solano
a primavera mente mansa e morna
o tempo corre em ritmo decadente
o vento sopra forte e apaga os traços
dos passos que deixamos pelo caminho
Este país extinguiu-se mudo para o mundo
e nem o mar que um dia tanto amou
chorou o instante em que ele se finou
29/03/2009
Isabel Solano, in Esquecimento global, inédito, 2009.
Foto: Isabel Solano
Quinta-feira, Abril 09, 2009
Momento
Terça-feira, Abril 07, 2009
A matéria simples
Quarta-feira, Março 25, 2009
A raiz a terra a razão

ARTE POÉTICA
Ser a raiz das coisas
dentro na terra mergulhar
não por ser raiz
- prosápia dos tiranos -
mas curiosa
primordial volúpia
de conhecer
o que não se pode e é;
armar entre os trâmites da terra
- seca, fera e estéril -
uma sementeira próspera,
escolher um a um os grãos
que hão-de guiar os olhos,
vigias da alma
mais que olhos,
felizes arquivadas folhas
de servir
aos dedos impacientes
- mesmo deus tem dentro um deus profundo -
com que o poeta traça
o seu destino cego,
quando os dedos penetram,
rasgam, dentro da terra
enterram, e se enterram
talvez sonhando das coisas ser
a raiz,
a última razão.
António Mega Ferreira, in O tempo que nos cabe, Assírio & Alvim, 2005.
Foto: Isabel Solano
Segunda-feira, Março 23, 2009
Que porém
Sexta-feira, Março 20, 2009
O vento um verbo o verso
Domingo, Março 15, 2009
Sarauí
Pela competitividade

Esses senhores e senhoras
que tão bem parecem saber
aquilo que ao povo convém,
que assinam leis, tratados,
debitam discursos inflamados
entre S. Bento e Belém,
agora amuam e ralham
porque não temos maneiras
- "Pobres, mal agradecidos!" -
se humildemente gememos
que a vida está uma canseira,
que já não há quem aguente.
Lá do alto, empertigados,
nos salões que nós pagamos,
dizem-nos que o nosso mal
é não sabermos competir
pelo progresso da nação;
que temos até muito mais
do que aquilo que merecemos.
E têm alguma razão.
Abra-se, pois, a grande competição:
nós dum lado, eles do outro,
veremos quem tem razão.
13/11/2007
Isabel Solano, in Outras cantigas, inédito, 2007.
Foto: Isabel Solano
Formigas formigas formigas formigas

NEM SEMPRE AOS POETAS APETECEM AS ESTRELAS
Apetece-me não sei porquê uma história de formigas
De formigas assexuadas negras nítidas e rápidas
Com olhos fantásticos colhendo miríades de imagens
E inúteis os olhos das formigas
Desenhadas como um oito ou como um sinal de infinito
Muitas corteses atarefadas prejudiciais
Clericais sociais subtílissimas pequenas
Formigando no chão
No chão onde florescem os cardos e as cores
No chão onde assenta a carne ansiosa das mulheres
E os joelhos dos homens
No chão onde ecoa a voz repugnante dos pregadores
E a voz das juras e dos negócios
No chão onde cai o suor dos aflitos
E o suor dos amorosos
E o suor dos operários
E o suor dos gordos
No chão onde andam os pés e estalam os escarros
No chão das guerras e das famílias correctas
E dos vasadouros e dos jardins
E do pus verde dos mendigos
E das chagas rendosas e das rendas custosas
E das doidas furiosas
E das rosas
E das airosas e das feias e dos bispos e dos triunfadores
E dos cretinos e das virgens
E dos remédios e dos males
E das vertigens e dos abismos
E das cismas
E dos sismos
E dos vermes do ventre e das sonecas
E dos ludíbrios e dos hábeis
E da força dos garantidos
E das sementes
Apetece-me não sei porquê uma história de formigas
A grande invasão das formigas multiplicando-se
Cobrindo a face da terra e a dos homens e das mulheres
Entrando-lhes pelos narizes para roerem os olhos por dentro
E fazendo bulir as coisas mortas e as vivas
Com o espantoso treme-luz irisado e magnífico
Dos seus reflexos negros e a substituírem todas as cores
Na grande montanha uma mulher enorme
Nua e infame
Tem as pernas escachadas sob as pregas do ventre
E sob as pregas do ventre seu sexo negro
É o grande formigueiro do mundo
Vive?
As formigas esvaziaram-na da enxúndia e substituíram-na
Só lhe deixaram a pele por fora para ainda haver branco visível
E como pêlos ampliados excitados e crescentes
Cobriram e desceram o vale
Enroscaram-se nas árvores
Desinquietaram a placidez das pedras
Forraram as aldeias e as cidades
Os animais e os homens
Que é do ciúme e das angústias?
Que é do amor e das palavras?
Que é das carícias e dos dentes?
Que é das renúncias e dos crimes?
Que é das tentações
Das promessas
Dos desejos
Dos apetites
Das fúrias?
Que é de todas as músicas?
O sol inútil cobre um mar negrejante onde os reflexos são como os olhos das moscas
E um silêncio tremendo finge de paz no mundo
Uma paz de silêncio com formigas
Formigas
Formigas
Formigas
Formigas
António Pedro, in Jorge de Sena, Líricas Portuguesas, vol. I, Edições 70, Lisboa, 1984
Foto: Isabel Solano
Sábado, Março 14, 2009
Não me falem do Outono!

OUTONO
Partiram no Outono e nunca mais voltaram
nem vão voltar
os que amei e me deixaram
a dor que sempre me há-de acompanhar
até o Outono me vir também buscar.
Não me falem, portanto, do Outono
nem das folhas caídas pelo chão,
triste imagem do abandono
que à noite me rouba o sono
e agrava a solidão.
Quero ter antes, para sempre, o Verão.
Torquato da Luz, in Por Amor e Outros Poemas, Papiro Editora, Porto, 2008
Foto: Isabel Solano
Domingo, Março 08, 2009
Incauta

ÚLTIMO DE "TRÊS POEMAS PARA CECÍLIA MEIRELES"
Feliz corria. E incauta.
E o vento sua trança destrançava
enquanto um som de flauta
flutuava.
Quantos anos passaram para que
seu cabelo de ouro e espiga
se cobrisse de neve? Se
alguém o souber que diga.
Ou não diga. Para quê dizê-lo?
Se há algum cabelo ao vento
já não é o seu cabelo;
é o de outra menina incauta
que não sabe que cada esquecimento
tem escondido um som de flauta.
Sidónio Muralha, in Jorge de Sena, Líricas Portuguesas, vol. I, Edições 70, Lisboa, 1984
Foto: Isabel Solano
Sexta-feira, Março 06, 2009
Tempo
Porosidade etérea

MÁQUINA DO MUNDO
O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto, é a matéria.
Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.
António Gedeão, in Jorge de Sena, Líricas Portuguesas, vol. I, Edições 70, Lisboa, 1984
Foto: Isabel Solano
Quarta-feira, Fevereiro 25, 2009
A praga
O luar que traz?
Terça-feira, Fevereiro 24, 2009
A carreira 10

Parto hoje à tarde na carreira 10
está decidido. Sem olhar para trás
sem me despedir sequer da minha rua
Parto hoje à tarde na caligrafia firme
do recado que deixo na porta do quarto
à espera de dizer-te o que já sabes
Vou procurar-me.
Talvez um dia
volte para jantar.
9/11/2007
Rui de Morais, in Caminhante, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano
As coisas vêm vão e são tão vãs

MAS QUE SEI EU
Mas que sei eu das folhas no outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?
Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono
Nenhum súbito súbdito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra folha
qualquer. Mas eu que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha
Ruy Belo, in "Monte Abraaão", Todos os Poemas - 2, 2ª ed., Assírio & Alvim, 2004.
Foto: Isabel Solano
Segunda-feira, Fevereiro 09, 2009
Crateras na noite

Queres o beijo da lua
enquanto na terra bebes o mar
em vagas de esperança
deitadas sobre as dunas
de areias finas à luz crua
e fria do teu olhar.
Ergues o tronco
como quem quer ser de novo,
fitas um horizonte qualquer
que julgas perceber,
mas não te vês descalço,
a areia entranhada
entre os dedos dos pés,
colada em ti.
Lá em cima a lua ri-se
e as gargalhadas redondas
abrem crateras na noite.
9/11/2007
Bárbara Pais, in In Vida Veritas, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano
O coração à solta

MADRUGADA
Cola os ouvidos ao silêncio, quando os pássaros
voltearem na casa abandonada.
Só então conhecerás o rumor dos passos
que precedem a madrugada.
Toda a vida é um quadro em que os tons claros
dão por vezes lugar aos mais escuros.
Mas não é raro
florescerem manhãs por trás de velhos muros.
Deixa portanto à solta o coração
e acolhe a luz que espreita além da escuridão.
Torquato da Luz, in Ofício Diário, Papiro Editora, Porto, 2007
Foto: Isabel Solano
Domingo, Fevereiro 08, 2009
Errância
No quente de um café à beira-mar,
um homem naufragava em si, perdido
em sonhos embalados pelas ondas,
ouvindo em eco sons de búzios ocos.
Pela areia húmida, havia passos sem sentido,
deambulações sem tempo conhecido
de alguns vagos vultos indiferentes.
Ali mesmo, num já frio café à beira-mar,
eu queria ter o olhar errante daquele homem
e beber dele o desejo ardente de sonhar.
7/11/2007
Isabel Solano, in Errância, inédito, 2007.
Foto: Isabel Solano
Sigamos o cherne

SIGAMOS O CHERNE
Sigamos o cherne, minha Amiga!
Desçamos ao fundo do desejo
Atrás de muito mais que a fantasia
E aceitemos, até, do cherne um beijo,
Senão já com amor, com alegria...
Em cada um de nós circula o cherne,
Quase sempre mentido e olvidado.
Em água silenciosa de passado
Circula o cherne: traído
Peixe recalcado...
Sigamos, pois, o cherne, antes que venha,
Já morto, boiar ao lume de água,
Nos olhos rasos de água,
Quando, mentido o cherne a vida inteira,
Não somos mais que solidão e mágoa...
Alexadre O'Neill, in Jorge de Sena, Líricas Portuguesas, vol. I, Edições 70, 1983
Foto: Isabel Solano
Sábado, Fevereiro 07, 2009
Nós
Imagens
Desistir
Sexta-feira, Fevereiro 06, 2009
A diferença entre o poeta e a cigarra
Segunda-feira, Fevereiro 02, 2009
O poeta que pensa?
Porto seguro

Para cada poeta existe um porto seguro
Em cada poema há um barco
em cada verso uma amarra solta
e as palavras são outras tantas viagens
fazendo-se ao mar em sons que sulcam
as águas e sorvem a aragem húmida
Outras voam em rimas circulares
chiam ventam imitam tempestades
até choverem asas de gaivota
sobre a página repleta
de bicos abertos de aves
Enchem-se as nuvens de cinza
mas a luz ainda respira
pois para cada poeta existe um porto seguro
onde as nuvens se dissolvem
onde a fúria das ondas é musical
onde se embalam corações cansados
se gritam todos os sonhos afinal
Para cada poeta existe um porto seguro
30/1/2008
Bárbara Pais, in Impressionismos, inédito, 2008
Fotografia: Isabel Solano
Domingo, Fevereiro 01, 2009
Sábado, Janeiro 31, 2009
Reflexo
Implosão
Para além das grades
Sexta-feira, Janeiro 30, 2009
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