sábado, julho 09, 2005

Tanto de meu estado me acho incerto

Outro velhinho do meu escritório de quadro Miró e tralha tanta onde sempre ou quase sempre encontro tudo e às vezes tudo é tão pouco e tanto como este livro de prefácio e selecção de Eugénio de Andrade. Camões. O grande. Cada verso, cada sílaba, cada fonema no lugar certo e sentido. Tão sentido. Tão perfeito. E se achava incerto o Poeta!

Tanto de meu estado me acho incerto,
que em vivo ardor tremendo estou de frio;
sem causa, juntamente choro e rio,
o mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto, um desconcerto;
da alma um fogo me sai, da vista um rio;
agora espero, agora desconfio,
agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando,
numa hora acho mil anos, e é de jeito
que em mil anos não posso achar uma hora.

Se me pergunta alguém porque assi ando,
respondo que não sei; porém suspeito
que só porque vos vi, minha Senhora.


Luís de Camões, in Versos e Alguma Prosa de Luís de Camões, Edição da Fundação Calouste Gulbenkian organizada e executada por Moraes Editores, 1977

Charles Baudelaire

O velhinho Baudelaire e aquelas flores a que retorno vezes sem conta. Gosto de sentir o livro nas mãos, este devo tê-lo comprado para as aulas de Literatura Francesa de Urbano Tavares Rodrigues. Costumava ir aos alfarrabistas do Bairro Alto, mas não terá sido o caso. A "Légende des Siècles", Hugo, lembro-me eu bem de ter trazido dos alfarrabistas, 14 volumes pequeninos, sem data infelizmente, mas de um tempo em que uma colecção de 20 livros custava 5 francos.

Mas o Baudelaire. Este é um Le Livre de Poche assez récent, 1972, e traz na capa o lascivo Le Sommeil, de Courbet. E depois a dedicatória:

Au poète impeccable
Au parfait magicien ès lettres françaises
À mon ami très-cher et très-vénéré
Maître et ami
Théophile Gautier
Avec les sentiments
De la plus profonde humilité
Je dédie
Ces fleurs maladives
C. B.

Humilité. Humildade. Humilde. Ao poète impeccable, o dito poeta maldito.

Recolho um spleen cheio de anotações a lápis.


SPLEEN

J'ai plus de souvenirs que si j'avais mille ans.

Un gros meuble à tiroirs encombré de bilans,
De vers, de billets doux, de procès, de romances,
Avec de lourds cheveux roulés dans des quittances,
Cache moins de secrets que mon triste cerveau.
C'est une pyramide, un immense caveau,
Qui contient plus de morts que la fosse commune.
— Je suis un cimetière abhorré de la lune,
Où comme des remords se traînent de longs vers
Qui s'acharnent toujours sur mes morts les plus chers.

Je suis un vieux boudoir plein de roses fanées,
Où gît tout un fouillis de modes surannées,
Où les pastels plaintifs et les pâles Boucher
Seuls, respirent l'odeur d'un flacon débouché.

Rien n'égale en longueur les boiteuses journées,
Quand sous les lourds flocons des neigeuses années
L'ennui, fruit de la morne incuriosité,
Prend les proportions de l'immortalité.
— Désormais tu n'es plus, ô matière vivante!
Qu'un granit entouré d'une vague épouvante,
Assoupi dans le fond d'un Sahara brumeux;

Un vieux sphinx ignoré du monde insoucieux,
Oublié sur la carte, et dont l'humeur farouche
Ne chante qu'aux rayons du soleil qui se couche.


Charles Baudelaire, in Les Fleurs du Mal, Le Livre de Poche, 1972

domingo, fevereiro 06, 2005

Vinicius de Moraes


O Carnaval de Arlequim, de Miró Posted by Hello

Este Miró porque sim, e também porque está aqui sempre ao meu lado, na parede junto à secretária. Trouxe-o em 2004 de Paris, do Centro Pompidou, depois de uma tarde inteira submersa numa exposição dessa pintura-poesia, pintura do sonho, "1917-1934: La naissance du monde". Uma daquelas tardes parisiennes que não se esquecem nunca.

E ao olhar o Miró na parede vejo na estante ao lado um Vinicius velhinho que ando a procurar há tanto tempo e afinal estava ali, no V em vez do M, por isso não o encontrava. Meio amarelento, ainda é do tempo da Faculdade de Letras, das tertúlias gostosas; uma amiga foi de férias ao Brasil: queres que te traga alguma coisa? Um Vinicius, não consigo encontrar nada por aqui. Estava-se nos anos 80, Vinicius tinha morrido há pouco.

Abro ao calhas e as palavras saltam-me aos olhos, cansadas de estarem ali fechadas.


MARINHA

Na praia de coisas brancas
Abrem-se às ondas cativas
Conchas brancas, coxas brancas
Águas-vivas

Aos mergulhares do bando
Afloram perspectivas
Redondas, se aglutinando
Volitivas.

E as ondas de pontas roxas
Vão e vêm, verdes e esquivas
Vagabundas, como frouxas
Entre vivas!


Vinicius de Moraes, in Antologia Poética, 19ª ed., Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1981

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

Eu sou os meus planos e pensamentos, "logos", existo

Diz a Wikipedia que logos (em grego λόγος, palavra), significava inicialmente a palavra escrita ou falada — o Verbo — passando mais tarde a ser um conceito filosófico traduzido como razão, tanto como a capacidade de racionalização individual ou como um princípio cósmico da Ordem e da Beleza. Se a Wikipedia diz, é porque é verdade. E se fui buscar isto para aqui, por algum motivo foi, embora já nem me lembre.

Adiante. Não vou colocar aqui o clip porque não é o meu género de música, mas acho adequadas para começar este blogue estas palavras dos Da Weasel:

No princípio era o verbo, a palavra e depois a rima,
que provocou reacções como se fosse uma enzima.
No princípio era a tesão, a fúria e a sofreguidão,
depois veio a calma, a procura do saber e a satisfação.
Inspiração para uma vida melhor, um caminho melhor,
um mundo melhor, para uma pessoa melhor.
Bem-vindo ao Manual de Iniciação a uma vida banal,
ao diário de bordo de uma nave espacial.
Puto Pac tá confiante, entra de rompante,
Virgul sempre constante, brilha como um diamante.
Vai comecar, desaperta o cinto, acende um cigarro,
relaxa a tua mente como se fosse barro.

Palavra de Honra, honrarei a palavra todo o santo dia