segunda-feira, dezembro 31, 2007

Intersecção sem razão e nada


cresce o espaço
da intersecção
na razão contrária
ao tempo

de todos os ângulos
se vê apenas:
dois pontos
parágrafo
- travessão

e aos costumes disse
nada

Rui de Morais, in Do Riso das Insónias, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

domingo, dezembro 30, 2007

Sentir? Sinta quem lê!

Hoje mesmo, à tarde, na Brasileira do Chiado, a respirar o cheiro da cidade. Em muito boa companhia: ao meu lado, Fernando Pessoa, um fingidor.


Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço,
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre no meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

Fernando Pessoa, in Antologia Poética, RBA, 1996
Foto: Isabel Solano

sábado, dezembro 29, 2007

A rosa do possível

"As Palavras" de António Ramos Rosa deixam-me sem palavras.


Toda a palavra aspira a ser a rosa do possível
para além da vertigem das raízes obscuras
Se a verdade é mais côncava que convexa
ela terá que ter os sinuosos veios da sombra

Para que essa rosa floresça é preciso subir
a um patamar mais alto do que o fundo obsceno
em que vibra uma rede inextricável
de relações de dúvidas de hipóteses

Para que ela alcance a sua graça aérea
e ganhe a suave cor de um sangue iluminado
é preciso oferecer-lhe a simplicidade do azul
e as claras perspectivas de uma janela aberta

António Ramos Rosa, in As Palavras, Campo das Letras, 2001
Foto: Isabel Solano

sexta-feira, dezembro 28, 2007

Poetas arautos


Atrás das grades em que estavam prisioneiros
vi poemas alucinados de concretas certezas
em recados dados a leitores incautos

Ah como me fazem rir esses poetas arautos
da desgraça alheia tão arrogantemente certos
quando de si próprios o saber escasseia

Rui de Morais, in Do Riso das Insónias, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Nada em comum com as gaivotas


TARDE

O que eu queria dizer-te nesta tarde
Nada tem de comum com as gaivotas.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in No Tempo Dividido, Caminho, 2003
Foto: Isabel Solano

terça-feira, dezembro 25, 2007

Pensar é estar doente dos olhos

Alberto Caeiro e um dos meus poemas preferidos d'"O Guardador de Rebanhos"; sei ter o pasmo essencial, pensar é estar doente dos olhos, eu não tenho filosofia: tenho sentidos... - a arte de ver/sentir e a recusa do vício de pensar. Já o disse aqui e repito: Caeiro é o meu guardador também.


II

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...

Alberto Caeiro, in Fernando Pessoa, "O guardador de rebanhos", Antologia Poética, RBA, 1996.
Foto: Isabel Solano



English translation found in this blog: Poets of the world


II

My gaze is clear like a sunflower.
It is my custom to walk the roads
Looking right and left
And sometimes looking behind me,
And what I see at each moment
Is what I never saw before,
And I’m very good at noticing things.
I’m capable of feeling the same wonder
A newborn child would feel
If he noticed that he’d really and truly been born.
I feel at each moment that I’ve just been born
Into a completely new world…

I believe in the world as in a daisy,
Because I see it. But I don’t think about it,
Because to think is to not understand.
The world wasn’t made for us to think about it
(To think is to have eyes that aren’t well)
But to look at it and to be in agreement.

I have no philosophy, I have senses…
If I speak of Nature it’s not because I know what it is
But because I love it, and for that very reason,
Because those who love never know what they love
Or why they love, or what love is.

To love is eternal innocence,
And the only innocence is not to think…

© Translation: 2006, Richard Zenith
From: A Little Larger Than the Entire Universe: Selected Poems
Publisher: Penguin, New York, 2006

domingo, dezembro 23, 2007

Quero tudo quanto tem um brilho

Este livrinho de Pedro Strecht não só tem belíssimos poemas, como fotografias muito bonitas do autor, a preto e branco.


só nos descobrimos completamente
com o que alguém reflecte de nós

alguma ciência do adeus repete-se
sempre que cada dia chega ao fim
por isso quero tanto sobrepor à morte
tudo quanto tem vida um brilho
como os que vou conhecendo e amparo
passando calmamente aqui à frente
deixando o tempo ao lume a aquecer
nem eles sabem os encantos que têm

e é assim que ouço mais vozes
que ardentemente procuram
o amor
onde está que é feito dessas letras simples
há tantas coisas complicadas cheias de nada
e morrem morrem os últimos românticos
um a um caem ou deixam-se abater
calam-se as suas músicas apagam-se as letras
tenho pena e as saudades congelam
ao ritmo a que secam os campos sem chuva

(...)

Pedro Strecht, in "Escrevo-te e é tudo", 1979 Outros Poemas, edição de autor, 2002
Foto: Isabel Solano

terça-feira, dezembro 18, 2007

Na orla do mar vou colher

Esta antologia velhinha que fui descobrir esquecida é um autêntico guarda-jóias, e bem recheado. Poesias escolhidas por Hortense César de José Gomes Ferreira, Manuel da Fonseca, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena, Vitorino Nemésio. Revendo o meu arquivo de fotografias, já tinha escolhido a que me apeteciar visitar hoje com palavras, estas de Eugénio de Andrade.


NA ORLA DO MAR

Na orla do mar,
no rumor do vento,
onde esteve a linha
pura do teu rosto
ou só pensamento
-e mora, secreto,
intenso, solar,
todo o meu desejo-
aí vou colher
a rosa e a palma.
Onde a pedra é flor,
onde o corpo é alma.

Eugénio de Andrade, in Antologia Poética, Porto Editora, 1974
Foto: Isabel Solano

O que apenas vê o que não ilumina

Continuo a reler José Gomes Ferreira. Viciante. Embriaga de simplicidade, emoção e verdade.


Poeta o que é?
Um homem que leva
o facho da treva
no fundo da mina
-mas apenas vê
o que não ilumina.

José Gomes Ferreira, in "Poesia III", Antologia Poética, Porto Editora, 1974.
Foto: Isabel Solano

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Avesso


Já não sei dizer o sol
fugi-me do universo
avesso a todos os sistemas
caóticos ou exactos

vagueio agora no vácuo
em pensamento disforme
numa leveza de peso
sem gravidade

E lá em baixo
a Terra dorme

Rui de Morais, in Caminhante, inédito, 2007.
Foto: Isabel Solano

Mar, lágrima de ninguém

Releio José Gomes Ferreira. E novamente me espanto com a força emotiva das suas palavras.


Cala-te mar!

Não tentes cobrir a minha voz
com o furor da tua boca de espuma
onde nem há rogos de náufragos nos rasgões do vento.

Cala-te, mar!

Não me obrigues a rugir mais alto do que tu
numa indignação de tempestade de silêncio
que lança raios dos homens para as nuvens.

(...)

O que queres é berrar, berrar uma dor qualquer sem sentido
para cobrir a minha voz de protesto de espada
-terrível como um grito insuportável de doer.

O que queres é berrar
-mar inútil! Mar enorme! Mar que dás a volta ao mundo
e és tão pequeno ao pé destas lágrimas
que me caem dos olhos,
frias e ardentes como balas.

Mar.
Lágrima de ninguém.

José Gomes Ferreira, in "Poesia I", Antologia Poética, Porto Editora, 1974.
Foto: Isabel Solano

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Aracnídeo


o meu coração tem hoje um pulsar aracnídeo

Rui de Morais, in Caminhante, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

terça-feira, dezembro 11, 2007

Porquê?


Porquê o sono
que nunca durmo
De que me escondo
Com quem me cruzo
Sob que escombros
de que futuro
me reencontro
ou me sepulto
Que mar ao longe
Que ruas sulco
Por onde rondo
Que céu Que burgo
este que em sonhos
em vão procuro

David Mourão-Ferreira, in "Numa Lisboa assassinada", Obra Poética, 5ª ed.,Editorial Presença, 2006
Foto: Isabel Solano

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Recanto secreto


Sei de um recanto
lá na margem da ribeira
onde me sento na relva
e fico a ouvir sobre ela
o lento passar do tempo
ao som dos pássaros
e da água corrente

Luísa Veríssimo, in A Ponta Mentos, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Estou aqui


AS PALAVRAS-OBJECTOS

Estou aqui
no mundo das palavras-objectos
que mudamente me falam
com quem mudamente falo
ao usá-las:
mas que uso fazem elas de mim?

Se bato nelas, elas batem em mim
se estou irritada, ameaçam-me
ameaçam ferir-me
fazer-me tropeçar, cair, soçobrar

Mas se estou calma e confio nelas
então elas confiam em mim:
entregam-se
enchem os meus dias
amparam as minhas noites
ternamente
aconchegam-me em suas estruturas

Mas porquê?
porquê?
para quê?

Ana Hatherly, in O Pavão Negro, Assírio & Alvim, 2003
Foto: Isabel Solano

Flor ausente


Do meu amor perfeito, flor ausente,
não lembro o rosto nem a voz:

lembro a fadiga sorridente
que havia, ao fim, em cada um de nós.

David Mourão-Ferreira, in "Diário de Praia", Obra Poética, 5ª ed., Editorial Presença, 2006
Foto: Isabel Solano

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Em ruína


Levei as mãos aos olhos para ver
se mesmo em ruína inda existias,
mergulhei no sol os dedos todos,
vêm molhados das águas fatigadas -
o corpo perdia-se frente aos dias.

Eugénio de Andrade, in Matéria Solar, Limiar, 1980
Foto: Isabel Solano

De entesouro

Hoje foi dia de atelier de escrita criativa com as minhas alunas no Centro Cultural de Belém. Sairam textos engraçados. Rui de Morais, Bárbara Pais e Luísa Veríssimo andam sempre comigo. A Luísa foi desta vez quem não resistiu. Só entende quem lá esteve connosco.


De uma borboleta triste
que voava
soltaram-se lágrimas
à minha passagem

uma lágrima
caiu na minha mão

dela fiz o ouro
que entesouro

Luísa Veríssimo, in A Ponta Mentos, inédito, 2007.
Foto: Isabel Solano

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Apenas o ouro de uma palavra


Apenas te digo o ouro de uma palavra no meio da névoa,
formosura inclinada sobre a descerrada cinza
e o frio dos retratos.
(...)

Herberto Helder, in "Fonte", Poesia Toda, Assírio e Alvim, 1981
Foto: Isabel Solano

quinta-feira, novembro 29, 2007

"A Terra Treme"!

Que pena não encontrar este soneto que hoje ouvi dito pelo próprio autor, Gabriel Gonçalves, na Galeria Luís Verney. "A terra treme" de tanta simplicidade, clareza do verso, musicalidade, ritmo. Tudo nas formas clássicas, que - diz o poeta - um poema não é um sem-abrigo, precisa de uma casa. E que bem casaram os poemas de Gabriel Gonçalves em fados cantados e tocados, como se já não fossem suficientemente musicais as palavras simplesmente ditas.

Os poetas da sombra, como alguém lhes chamou, precisam de mais luz. Gostei de ver a luz pousada durante duas horas em Gabriel Gonçalves. Dele retive estes dois versos: "que seja sempre livre e não sujeito / o homem que deveras ama a vida".

Café Literário

Noite de Café com Letras, esta, e alguns apontamentos aqui no blogue enquanto ainda está tudo fresco na memória. Carlos Vaz Marques à conversa com o poeta Fernando Pinto do Amaral, mais as achegas e curiosidades da assistência. Muito interessante e a lembrar-me o pouco que sei e o quanto me afastei durante anos destas coisas.

Fernando Pinto do Amaral, para além de poeta, ensaísta, crítico literário, tradutor, ficcionista, mostrou-se um excelente conversador. Fiquei interessada em conhecer o seu trabalho na tradução de Baudelaire e Borges e, é claro, vou querer conhecer melhor a sua poesia, para além de também querer espreitar a sua tese de doutoramento sobre a melancolia na poesia portuguesa do século XX. FPA falou do seu percurso de vida, da relação (tensa?) entre o trabalho de crítico e o de poeta ou escritor. E depois, de tantos outros assuntos que vieram na conversa como as cerejas.

Gostei do seu conceito de ironia a fugir à definição retórica clássica, a "ironia a meio caminho", a mais eficaz. Da explicação sobre a preferência do uso da segunda pessoa do singular, do cansaço do eu (eu tenho experimentado o nós e entendo-me bem com ele pelos mesmos motivos). Do "já pouco te dói como doía" e da dor provocada pela falta de dor aos 45 anos, porque não sofrer tanto como se era capaz com outra idade e noutras circunstâncias também provoca sofrimento. Como percebi bem isto! Falou-se da arte como aquilo que inquieta, das "correntes" poéticas actuais (Pedro Mexia, entre outros), de como o Modernismo já é um clássico, do ecletismo do pós-modernismo e daquilo que poderá vir aí no futuro. Curiosidade, acima de tudo e sempre, dizia FPA! E muito mais se disse: da poesia enquanto crisálida, pele que se muda; da autenticidade! A autenticidade da contradição porque é coesa, porque somos contraditórios por natureza. Falou-se de Pessoa, de Borges e seus espelhos e labirintos, da escrita automática surrealista do "salga como salga". Das influências de Ruy Belo e outros. Dos ateliers/oficinas de escrita criativa (que também vou experimentando com os meus alunos). E muito, muito mais que não consigo já registar aqui, só porque é tarde e amanhã saio cedo da poesia para o trabalho...

Gostei de rever na assistência uma cara conhecida das Galveias, poetisa também; na conversa breve não tive oportunidade de lhe dizer que gostei muito dos seus poemas, dos que leu nas Galveias. Fique a sabê-lo se aqui me visitar! Em todo o caso, tenho para mim que nos encontraremos mais vezes.

Próximo Café a 13 de Dezembro com Eduardo Lourenço. Sim, que o mundo real continua a superar o dos blogues e afins, apesar de todas as virtualidades do ciberespaço. Por falar nessas virtualidades, agradeço os mails simpáticos acerca deste blogue e agradeço as muitas visitas silenciosas também.

quarta-feira, novembro 28, 2007

Do sentir natural


ILHA DOS AMORES

Na cama
de um sentir tão natural
fizemos amor
de todas as maneiras
nós
nus
sob o sorriso complacente
do sol

Rui de Morais, in Do Riso das Insónias, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

terça-feira, novembro 27, 2007

À procura do amanhecer

Se me fosse concedido um desejo, gostava de possuir esta faculdade de dizer as coisas como Al Berto. Resta-me o que não é pouco: deixar-me ir nestas palavras mágicas, lê-las em voz alta como o Poeta fazia e comê-las uma a uma ao mesmo tempo.


a fera há-de chegar com a loucura dos sentidos
e furar as maresias sulfúricas da ausência
há-de chegar
e lamber o bolor inocente da insónia
alimentando-se com ténues sombras de corpos

pressinto veleiros tristes adormecidos na mão
onde derramámos o sobressaltado esperma
a fera
há-de chegar ciciando teu nome de ouro intacto
mostrar-me-á a pelagem fulgurante da tempestade
e com sua dentição de raízes envolverá
a límpida fala em que nos refugiámos

a fera há-de chegar
e nós iremos pelo caminho de ossos iluminados
à procura do amanhecer na longínqua treva do mar

Al Berto, in "Os Amigos", O Último Coração do Sonho, 2ª ed., Quasi, 2006
Foto: Isabel Solano

domingo, novembro 25, 2007

Entardecido


A ADIADA ENCHENTE

Velho, não.
Entardecido, talvez.
Antigo, sim.

Me tornei antigo
porque a vida,
tantas vezes, se demorou.
E eu a esperei
como um rio aguarda a cheia.

(...)

Mia Couto, in Idades Cidades Divindades, Caminho, 2007
Foto: Isabel Solano

Tristeza


A maior tristeza é perder
a capacidade de sofrer
de sentir fundo na alma
os males do mundo
de olhar o quotidiano
tantas vezes imundo
sem o ver

Mas pior que isso:
a tristeza de ser já indiferente
ao seu próprio estado indigente

Bárbara Pais, in Não Sei Falar de Mim, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

No morno à beira-mar


No quente de um café à beira-mar
olho as ondas que embalam o meu sonho
náufrago de mim, perdido
em sons ecos de búzio oco
esquecido

Pela areia húmida há passos sem sentido
deambulações sem tempo conhecido
vultos já sem sombra
sinais sem vida

no morno de um café à beira-mar
perco-me do meu sonho perdido

Rui de Morais, in Caminhante, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

sábado, novembro 24, 2007

A ânfora restaurada

Foi a minha estreia nos encontros do Palácio Galveias. Disse-se poesia de uma forma simples: poemas dos presentes ditos pelos próprios, poemas de outros, poemas... Caloira, não levava nada comigo, mas logo me deram que fazer. Do boletim da Associação, fiz uma escolha rápida que recaiu sobre um soneto muito bonito, "Ânfora", de Carmo Vasconcelos.

Para a próxima, voltarei, quem sabe se com coragem para ler algum dos meus rabiscos?


ÂNFORA

Esvaziada me deixa a tua ausência
O mundo ao meu redor é um deserto
Vislumbro-te um oásis se estás perto
Romã e cidra é tua imanência

Quando te vais, fontes em mutação
Libertam gotas acres e salgadas
São lágrimas as águas derramadas
Que de mim brotam em desolação

Penetraste, símil, em minha aura
Pintando a cor ideal, a que restaura
Os danos incrustados em cegueira

E a ânfora que eu era estilhaçada
Colada a este amor está restaurada
Voltei, amado meu, a ser inteira

Carmo Vasconcelos, in Boletim da Associação Portuguesa de Poetas, nº39, 2007 (que me desculpe a APP e a autora se a referência não estiver correcta)
Foto: Isabel Solano

sexta-feira, novembro 23, 2007

Em combustão lenta


iam-se os dias em combustão lenta
sabendo-se o fim cada vez mais perto

era contudo um fim incerto

Rui de Morais, in Caminhante, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Morte


morrerei sempre cedo demais

Rui de Morais, in Caminhante, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Nas intermitências das folhas


Caminho nas intermitências das folhas
em ruas frias mas não desertas
coloco o chapéu na cabeça da memória
para que não enregele
e continue a saber de cor
a história que me traz aqui
às intermitências das folhas
onde os meus passos estalam
todos os relógios

é tempo de porvir
ainda que o vento não sorria
só porque a luz da tarde
inebria

Bárbara Pais, in Não Sei Falar de Mim, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Sem finalidade concreta


Nem tudo o que faço tem uma finalidade
concreta
e porém em tudo o que faço
calculo cada passo
quero atingir a perfeição

Como as palavras que escrevo
em versos frases soltas
ao correr do pensamento

Para que as deixo fluir
com que intento
saem livres
e não as deixo poisar
simplesmente
no papel branco ainda deserto?

Inclino-as com o meu sopro
às vezes forte outras ligeiro
e em dias de paciência
faço-as passar lentamente
entre os meus dedos
de bico de pasteleiro
modelo-as em pétalas de flores
de viço moderado
triste, calculado

Bárbara Pais, in Não Sei Falar de Mim, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Partidas desencontradas


Vivemos por ali uns anos até a maré chegar
Entornou-se o mar Salvaram-se destinos
Partidas desencontradas as nossas minha e tua
Quando regressou a calmaria aos céus e aos mares
já os lugares eram diferentes das nossas chegadas
Agora rumamos em linhas incertas
e é quase certo que nunca se vão cruzar
porque o sol brilha mais se ninguém o achar

Bárbara Pais, In Vida Veritas, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

A dor da beleza


ÁGUA E MÁGOA

A beleza,
a mim, me dói.

O belo se quer Deus.
E o corpo
é um antecipado adeus.

Mia Couto, in Idades Cidades Divindades, Caminho, 2007
Foto: Isabel Solano

quarta-feira, novembro 21, 2007

O ramalhete rubro de papoulas


Naquele pic-nic de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico,
um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

Cesário Verde, O Livro de Cesário Verde, Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, 1995
Foto: Isabel Solano

Ao sangue dos répteis

Al Berto lia em voz alta os seus poemas e quem o ouviu não consegue separá-los da sua voz, a voz que "soube cavar uma língua estrangeira na sua própria língua" (Golgona Anghel, na introdução ao Último Coração do Sonho).


(...)

enumero as casas abandonadas ao sangue dos répteis
surpreendo-te quando me surpreendes
pela janela espio a paisagem destruída
e o coração triste dos pássaros treme

(...)

Al Berto, in "Ofício de Amar", org. Jorge Reis-Sá, O Último Coração do Sonho, Quasi, 2006
Foto: Isabel Solano

Operário em construção

Este livro que desfolho tem uma dedicatória:
"Para a nossa mãe pelo seu 18º aniversário.
Mts bjinhos**
Dos teus pequeninos
J. e R."

Quem escreveu isto tinha então 17 e 19 anos, eu sou "a nossa mãe", eles os meus "pequeninos"... São simples estas palavras, como é simples e boa e sempre bem humorada a alegria que eles me dão todos os dias. Uma boa escolha, J. e R.! Eles tinham-me ouvido comentar que me tinha desaparecido a entretanto já aparecida antologia velhinha do Vinicius. Mas esta é especial, e foi pelos meus 18 anos...


(...)
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
(...)

Vinicius de Moraes, in Antologia Poética, 5ª ed., Dom Quixote, 2006
Foto: Isabel Solano

Porque é que a saudade é branca?


eu digo que a saudade é branca
porque eram brancas
as camélias
do jardim em que
criança
corri

Luísa Veríssimo, in A Ponta Mentos, inédito, 2007

terça-feira, novembro 20, 2007

O lento trabalho das aranhas


(...)

Aqui nesta cripta está o relento,
branco e mole, criado
na escuridão e no silêncio. Branco e sem olhos.
Branco e mole, onde
se ouve o lento trabalho
das aranhas no fundo.
-Sentiste
o teu pensamento avançar
mais um passo
no silêncio?
Sentiste-o avançar no silêncio?
Dentro de cada ser ressurgem os mortos.
A noite com outras noites em cima.
Há como um assassinato de que
se não ouvem
os gritos.
O negro sol.
Lepra.
As canduras.

Só a água fala nos buracos.

(...)

Herberto Helder, in "Húmus", Poesia Toda, Assírio e Alvim, 1981
Foto: Isabel Solano

Sem sóis nem gaivotas


Por onde brilham os sóis do inverno frio em que
caminhámos juntos à beira-mar de bocas fechadas
os corações escancarados e livres para a dádiva
Por onde voam agora as gaivotas que nos viram chegar
e nem se mexeram do lugar porque sabiam que não as víamos
aliás não víamos senão a luz e o silêncio dos nossos olhos

Por onde andamos nós agora sem sóis nem gaivotas

Bárbara Pais, in In Vida Veritas, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Pensar e dizer

Alberto Caeiro é o meu guardador. Sem qualquer sombra de dúvidas. Ainda não lhe tinha dado espaço aqui, a ele que tem todo o meu espaço.
É dos Poemas Inconjuntos este pedaço.


(...)

Assim como falham as palavras quando queremos exprimir [qualquer pensamento,
Assim falham os pensamentos quando queremos pensar qualquer [realidade.
Mas, como a essência do pensamento não é ser dita, mas ser [pensada,
Assim é a essência da realidade o existir, não o ser pensada.
Assim tudo o que existe, simplesmente existe.
O resto é uma espécie de sono que temos,
Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.

O espelho reflecte certo; não erra porque não pensa.
Pensar é essencialmente errar.
Errar é essencialmente estar cego e surdo.

Estas verdades não são perfeitas porque são ditas,
E antes de ditas, pensadas:
Mas no fundo o que está certo é elas negarem-se a si próprias
Na negação oposta de afirmarem qualquer coisa.
A única afirmação é ser.
E ser o oposto é o que não queria de mim...

Foto: Isabel Solano

O poeta apenas quer ser escrito

Mais Mia Couto, das Idades Cidades Divindades, a leitura lida e relida destes dias últimos, para voltar a ler e reler em outros próximos.


O POETA

O poeta não gosta de palavras:
escreve para se ver livre delas.

A palavra
torna o poeta
pequeno e sem invenção.

Quando,
sobre o abismo da morte,
o poeta escreve terra,
na palavra ele se apaga
e suja a página de areia.

Quando escreve sangue
o poeta sangra
e a única veia que lhe dói
é aquela que ele não sente.

Com raiva,
o poeta inicia a escrita
como um rio desflorando o chão.
Cada palavra é um vidro em que se corta.

O poeta não quer escrever.
Apenas ser escrito.

Escrever, talvez,
apenas enquanto dorme.

Mia Couto, in Idades Cidades Divindades, Caminho, 2007
Foto: Isabel Solano

Do asfalto da memória


Tomámos do mesmo cálice e unimos as mãos à espera da demora
pensámos sem pensar que o dia se escreveria por si
e que não havia mais fontes onde beber da luz
Cozinhámos um beijo longo mas apenas morno
para depois nos deitarmos no asfalto da memória
partilhada que fora a viagem chegada sem sentido
sem direcção aparente embora os olhos chorassem
e as bocas permanecessem fechadas

Bárbara Pais, in In Vida Veritas, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

segunda-feira, novembro 19, 2007

Talvez te lembres


escuta amor

talvez num dia
em que de mim já nada mais exista
te lembres de dois braços
que te abraçaram convulsivamente
nessa altura
deixa que os lábios te sangrem
deixa que o sangue
te corra pelo peito

e as mãos
essas
abandona-as...

Mário-Henrique Leiria, in Cem Poemas Portugueses do Adeus e da Saudade, Terramar, 2002
Foto: Isabel Solano

O beijo e a lágrima

Fico contente por ter esta mania de guardar tudo, não saber onde guardo, o que guardo, para que guardo. Procurava uma fotografia para um poema de Mia Couto e acho esta. Teoricamente inutilizada pela gota de mar que saltou para a lente, teria sido lançada no cesto da reciclagem se não fosse esta mania de guardar e também o eterno esquecimento dos óculos por aí à solta não sei bem onde. Não devo ter reparado neste pingo de mar antes. Mas agora vi-o. É uma lágrima. Foi Mia Couto quem me ensinou a vê-la.

Estas Idades Cidades Divindades de Mia Couto são imperdíveis. Vou voltar a elas tantas vezes!


O BEIJO E A LÁGRIMA

Quero um beijo, pediu ela.

Um sismo
abalou o peito dele.
E devotou o calor
de lava dos seus lábios,
entontecida água na cascata.

Entusiamado,
ele se preparou para, de novo,
duplicar o corpo e regressar à vertigem do beijo.

Mas ela o fez parar.

Só queria um beijo.
Um único beijo para chorar.

Há anos que não pranteava.
E a sua alma se convertia
em areia do deserto.

Encantada,
ela no dedo recolheu a lágrima.
E se repetiu o gesto
com que Deus criou o Oceano.

Mia Couto, in Idades Cidades Divindades, Caminho, 2007
Foto: Isabel Solano

domingo, novembro 18, 2007

Dor pressentida em segredo


O grito que dou
é mudo e só
apesar da fanfarra
dos sentimentos
ebulição perdida
vapor
calor
ausência sentida
pressentida uma outra dor

sem faltas de nada
a espada do brilho
seco em lábios de fome
madura

quero dizer-te em segredo
o azul, a casa, a praia
a solidão do degredo

Rui de Morais,in Caminhante, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Saber


VIDA

Vejo o sol nascer
mesmo sabendo
que não nasce
para me ver

Bebo a água da fonte
mesmo sabendo
que não borbota
para eu beber

Leio toda a poesia
mesmo sabendo
que não se mostra
para eu ler

Sorvo da vida tudo
mesmo sabendo
que nasci
para morrer

Luísa Veríssimo, in A Ponta Mentos, inédito, 2007.
Foto: Isabel Solano

Imperfeita madrugada

Da colheita de hoje na Bulhosa do Amoreiras. Trouxe-o bem acompanhado de um Mia Couto que fica para amanhã talvez. Para hoje, Alice Vieira nos Dois Corpos Tombando na Água, Prémio Literário Maria Amália Vaz de Carvalho de 2007. Ainda nem tive tempo de o ler, fá-lo-ei mais logo, mas bastou desfolhar para agradar. Associo Alice Vieira à literatura infanto-juvenil, conhecia menos bem a sua poesia e estes Dois Corpos prometem surpreender e deleitar.


como dizer aos meus olhos que se afastem
do incêndio que lavra a oriente do teu sangue
rasgando a minha fome

e me protejam nesta imperfeita madrugada
em que as línguas dos homens e dos anjos
se confundem

Alice Vieira, in "Pelas mãos e pelos olhos eu juro", Dois Corpos Tombando na Água, Caminho, 2007
Foto: Isabel Solano

sábado, novembro 17, 2007

Café com Letras

Café com as letras de Fernando Pinto do Amaral. Na Biblioteca Municipal de Carnaxide, 4ª feira 28 de Novembro, às 21h30.

Da poderosa luz morta

"Não sei muito bem porque se gosta mais de um poeta do que de outros", dizia hoje João Vieira na coluna O Livro da Minha Vida da revista do jornal Sol. Dizia-o referindo-se ao livro da sua vida, O Livro de Cesário Verde. E é isso mesmo, também não sei porque se gosta mais de uns que de outros, mas Gastão da Cruz é seguramente um dos que gosto mais.


Poderosa luz morta te despedes
da poderosa luz tu me despeço
da poderosa luz morta te peço
recomeço da morte o que me pedes

Corpo da morte certo não pertence
este consumo te da morte e esse
da morte poderoso fogo imenso
desoladora boca mas pertence-te

esta separação corpo deserto

Gastão Cruz, in "Escassez", Poemas Reunidos, Publicações Dom Quixote, 1999
Foto: Isabel Solano

As planícies (nos) ouvem


Às vezes falta um pouco o sol
nas planícies abandonadas às cegonhas
e ao vento

lamentam-se brisas
entre papoilas e espigas
desbotadas

De onde vêm todas as águas
que correm por baixo
das pontes arruinadas?

De onde vêm todos os gritos
mudos
de tantas bocas fechadas
à claridade
sem clarividências de ser
ou sequer estar?

As planícies abandonadas
às sombras de luz, pouca,
ouvem-nos
só elas nos ouvem ainda

Bárbara Pais, in In Vida Veritas, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Outono e o corpo a desmenti-lo


OUTONO

Mas quem diria ser Outono
se tu e eu estávamos lá?
(Tínhamos sono... Tanto sono!
É bom dormir ao deus-dará...)

E sobre o banco do jardim,
ante a cidade, o cais e o Tejo,
seria bom dormir assim,
ao deus-dará, como eu desejo...

Mas o teu seio é que não quis:
tremeu de mais sob o meu rosto...
Agora, nu, será feliz,
sob o afago do sol posto...

Seria Outono aquele dia,
nesse jardim, doce e tranquilo...?
Seria Outono...
Mas havia
todo o teu corpo a desmenti-lo.

David Mourão-Ferreira, in "A secreta viagem", Obra Poética, 5ª ed., Editorial Presença, 2006
Foto: Isabel Solano

sexta-feira, novembro 16, 2007

Conversas de mistérios abertos


Encontramos a praia deserta com os olhares fugidios
ensaiamos alguma conversa de mistérios abertos
na seriedade do momento musicado pelas ondas do mar
e pelos gritos das gaivotas tristes mas brancas

O silêncio está sempre ocupado mesmo quando não há palavras
portanto as reticências podem prolongar-se em suspiro longo
os pontos finais deitam-se ao abandono do ar fresco
e a manhã parece cheia de vazios repletos de sensações

As palavras vão ganhando agilidade ritmo alguma emoção
e os silêncios de mar calam brisas ainda frescas
as gaivotas alinham-se agora sentadas na areia molhada
enquanto batem os corações que as olham descompassados

Sentimos o ar tão quente que queremos ter asas também
voar contra o vento de penas leves em desalinho
sentimos longe as penas de ontem e ainda há pouco
o tempo parou em todos os relógios e nós deixamos

Bárbara Pais, In Vida Veritas, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

quinta-feira, novembro 15, 2007

Morre-se devagar


Vê como se morre devagar
neste inverno
que se aproxima da cintura;

como a chuva entra pelo sono
e a sombra mais amarga
se vai juntando à terra nua;

ou a fria chama da cal
tarda

Eugénio de Andrade, in Matéria Solar, Limiar, 1980
Foto: Isabel Solano