sexta-feira, novembro 09, 2007

De uma pouca imensidão regressada


Despertámos azuis olorosos nos mares
enquanto as chávenas de café se esvaziaram
e poisámos nos pires porcelanas delicadas
dos nossos pensamentos vagamente translúcidos

Depois encontrámos alguma cegueira momentânea
no querermos engolir todo o redondo do sol
de uma só vez pelas pupilas contraídas
numa gula lúbrica que as retinas não suportaram

Fizemos noite do dia por incontinência gulosa do desejo
e como adão e eva de pudícias sonegadas
voltámos ao estado consciente do saber
perdidos então os espantos das nossas bocas fechadas

Contentámo-nos de novo com uma pouca imensidão apenas [morna
tomada em comprimidos engolidos com água de sabor fénico
líquidos também ficaram os nossos sonhos
que recolhemos em dois dedais pequenos

Molhámos as canetas nessas tintas ainda coloridas
para registarmos os sonhos diminuídos no papel
mas só fluiram transparências invisíveis
dos despejados dedais numa escrita que não se lê

Das folhas brancas queremos reter já só os gestos da escrita
mas a memória apagou-lhes partes inteiras
esquecemos então os sonhos liquefeitos e escritos em nada
e adormecemos os olhos sobre os cinzentos chorados dos mares

Bárbara Pais, in In Vida Veritas, inédito, 2007

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