quinta-feira, novembro 29, 2007

"A Terra Treme"!

Que pena não encontrar este soneto que hoje ouvi dito pelo próprio autor, Gabriel Gonçalves, na Galeria Luís Verney. "A terra treme" de tanta simplicidade, clareza do verso, musicalidade, ritmo. Tudo nas formas clássicas, que - diz o poeta - um poema não é um sem-abrigo, precisa de uma casa. E que bem casaram os poemas de Gabriel Gonçalves em fados cantados e tocados, como se já não fossem suficientemente musicais as palavras simplesmente ditas.

Os poetas da sombra, como alguém lhes chamou, precisam de mais luz. Gostei de ver a luz pousada durante duas horas em Gabriel Gonçalves. Dele retive estes dois versos: "que seja sempre livre e não sujeito / o homem que deveras ama a vida".

Café Literário

Noite de Café com Letras, esta, e alguns apontamentos aqui no blogue enquanto ainda está tudo fresco na memória. Carlos Vaz Marques à conversa com o poeta Fernando Pinto do Amaral, mais as achegas e curiosidades da assistência. Muito interessante e a lembrar-me o pouco que sei e o quanto me afastei durante anos destas coisas.

Fernando Pinto do Amaral, para além de poeta, ensaísta, crítico literário, tradutor, ficcionista, mostrou-se um excelente conversador. Fiquei interessada em conhecer o seu trabalho na tradução de Baudelaire e Borges e, é claro, vou querer conhecer melhor a sua poesia, para além de também querer espreitar a sua tese de doutoramento sobre a melancolia na poesia portuguesa do século XX. FPA falou do seu percurso de vida, da relação (tensa?) entre o trabalho de crítico e o de poeta ou escritor. E depois, de tantos outros assuntos que vieram na conversa como as cerejas.

Gostei do seu conceito de ironia a fugir à definição retórica clássica, a "ironia a meio caminho", a mais eficaz. Da explicação sobre a preferência do uso da segunda pessoa do singular, do cansaço do eu (eu tenho experimentado o nós e entendo-me bem com ele pelos mesmos motivos). Do "já pouco te dói como doía" e da dor provocada pela falta de dor aos 45 anos, porque não sofrer tanto como se era capaz com outra idade e noutras circunstâncias também provoca sofrimento. Como percebi bem isto! Falou-se da arte como aquilo que inquieta, das "correntes" poéticas actuais (Pedro Mexia, entre outros), de como o Modernismo já é um clássico, do ecletismo do pós-modernismo e daquilo que poderá vir aí no futuro. Curiosidade, acima de tudo e sempre, dizia FPA! E muito mais se disse: da poesia enquanto crisálida, pele que se muda; da autenticidade! A autenticidade da contradição porque é coesa, porque somos contraditórios por natureza. Falou-se de Pessoa, de Borges e seus espelhos e labirintos, da escrita automática surrealista do "salga como salga". Das influências de Ruy Belo e outros. Dos ateliers/oficinas de escrita criativa (que também vou experimentando com os meus alunos). E muito, muito mais que não consigo já registar aqui, só porque é tarde e amanhã saio cedo da poesia para o trabalho...

Gostei de rever na assistência uma cara conhecida das Galveias, poetisa também; na conversa breve não tive oportunidade de lhe dizer que gostei muito dos seus poemas, dos que leu nas Galveias. Fique a sabê-lo se aqui me visitar! Em todo o caso, tenho para mim que nos encontraremos mais vezes.

Próximo Café a 13 de Dezembro com Eduardo Lourenço. Sim, que o mundo real continua a superar o dos blogues e afins, apesar de todas as virtualidades do ciberespaço. Por falar nessas virtualidades, agradeço os mails simpáticos acerca deste blogue e agradeço as muitas visitas silenciosas também.

quarta-feira, novembro 28, 2007

Do sentir natural


ILHA DOS AMORES

Na cama
de um sentir tão natural
fizemos amor
de todas as maneiras
nós
nus
sob o sorriso complacente
do sol

Rui de Morais, in Do Riso das Insónias, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

terça-feira, novembro 27, 2007

À procura do amanhecer

Se me fosse concedido um desejo, gostava de possuir esta faculdade de dizer as coisas como Al Berto. Resta-me o que não é pouco: deixar-me ir nestas palavras mágicas, lê-las em voz alta como o Poeta fazia e comê-las uma a uma ao mesmo tempo.


a fera há-de chegar com a loucura dos sentidos
e furar as maresias sulfúricas da ausência
há-de chegar
e lamber o bolor inocente da insónia
alimentando-se com ténues sombras de corpos

pressinto veleiros tristes adormecidos na mão
onde derramámos o sobressaltado esperma
a fera
há-de chegar ciciando teu nome de ouro intacto
mostrar-me-á a pelagem fulgurante da tempestade
e com sua dentição de raízes envolverá
a límpida fala em que nos refugiámos

a fera há-de chegar
e nós iremos pelo caminho de ossos iluminados
à procura do amanhecer na longínqua treva do mar

Al Berto, in "Os Amigos", O Último Coração do Sonho, 2ª ed., Quasi, 2006
Foto: Isabel Solano

domingo, novembro 25, 2007

Entardecido


A ADIADA ENCHENTE

Velho, não.
Entardecido, talvez.
Antigo, sim.

Me tornei antigo
porque a vida,
tantas vezes, se demorou.
E eu a esperei
como um rio aguarda a cheia.

(...)

Mia Couto, in Idades Cidades Divindades, Caminho, 2007
Foto: Isabel Solano

Tristeza


A maior tristeza é perder
a capacidade de sofrer
de sentir fundo na alma
os males do mundo
de olhar o quotidiano
tantas vezes imundo
sem o ver

Mas pior que isso:
a tristeza de ser já indiferente
ao seu próprio estado indigente

Bárbara Pais, in Não Sei Falar de Mim, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

No morno à beira-mar


No quente de um café à beira-mar
olho as ondas que embalam o meu sonho
náufrago de mim, perdido
em sons ecos de búzio oco
esquecido

Pela areia húmida há passos sem sentido
deambulações sem tempo conhecido
vultos já sem sombra
sinais sem vida

no morno de um café à beira-mar
perco-me do meu sonho perdido

Rui de Morais, in Caminhante, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

sábado, novembro 24, 2007

A ânfora restaurada

Foi a minha estreia nos encontros do Palácio Galveias. Disse-se poesia de uma forma simples: poemas dos presentes ditos pelos próprios, poemas de outros, poemas... Caloira, não levava nada comigo, mas logo me deram que fazer. Do boletim da Associação, fiz uma escolha rápida que recaiu sobre um soneto muito bonito, "Ânfora", de Carmo Vasconcelos.

Para a próxima, voltarei, quem sabe se com coragem para ler algum dos meus rabiscos?


ÂNFORA

Esvaziada me deixa a tua ausência
O mundo ao meu redor é um deserto
Vislumbro-te um oásis se estás perto
Romã e cidra é tua imanência

Quando te vais, fontes em mutação
Libertam gotas acres e salgadas
São lágrimas as águas derramadas
Que de mim brotam em desolação

Penetraste, símil, em minha aura
Pintando a cor ideal, a que restaura
Os danos incrustados em cegueira

E a ânfora que eu era estilhaçada
Colada a este amor está restaurada
Voltei, amado meu, a ser inteira

Carmo Vasconcelos, in Boletim da Associação Portuguesa de Poetas, nº39, 2007 (que me desculpe a APP e a autora se a referência não estiver correcta)
Foto: Isabel Solano

sexta-feira, novembro 23, 2007

Em combustão lenta


iam-se os dias em combustão lenta
sabendo-se o fim cada vez mais perto

era contudo um fim incerto

Rui de Morais, in Caminhante, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Morte


morrerei sempre cedo demais

Rui de Morais, in Caminhante, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Nas intermitências das folhas


Caminho nas intermitências das folhas
em ruas frias mas não desertas
coloco o chapéu na cabeça da memória
para que não enregele
e continue a saber de cor
a história que me traz aqui
às intermitências das folhas
onde os meus passos estalam
todos os relógios

é tempo de porvir
ainda que o vento não sorria
só porque a luz da tarde
inebria

Bárbara Pais, in Não Sei Falar de Mim, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Sem finalidade concreta


Nem tudo o que faço tem uma finalidade
concreta
e porém em tudo o que faço
calculo cada passo
quero atingir a perfeição

Como as palavras que escrevo
em versos frases soltas
ao correr do pensamento

Para que as deixo fluir
com que intento
saem livres
e não as deixo poisar
simplesmente
no papel branco ainda deserto?

Inclino-as com o meu sopro
às vezes forte outras ligeiro
e em dias de paciência
faço-as passar lentamente
entre os meus dedos
de bico de pasteleiro
modelo-as em pétalas de flores
de viço moderado
triste, calculado

Bárbara Pais, in Não Sei Falar de Mim, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Partidas desencontradas


Vivemos por ali uns anos até a maré chegar
Entornou-se o mar Salvaram-se destinos
Partidas desencontradas as nossas minha e tua
Quando regressou a calmaria aos céus e aos mares
já os lugares eram diferentes das nossas chegadas
Agora rumamos em linhas incertas
e é quase certo que nunca se vão cruzar
porque o sol brilha mais se ninguém o achar

Bárbara Pais, In Vida Veritas, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

A dor da beleza


ÁGUA E MÁGOA

A beleza,
a mim, me dói.

O belo se quer Deus.
E o corpo
é um antecipado adeus.

Mia Couto, in Idades Cidades Divindades, Caminho, 2007
Foto: Isabel Solano

quarta-feira, novembro 21, 2007

O ramalhete rubro de papoulas


Naquele pic-nic de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico,
um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

Cesário Verde, O Livro de Cesário Verde, Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, 1995
Foto: Isabel Solano

Ao sangue dos répteis

Al Berto lia em voz alta os seus poemas e quem o ouviu não consegue separá-los da sua voz, a voz que "soube cavar uma língua estrangeira na sua própria língua" (Golgona Anghel, na introdução ao Último Coração do Sonho).


(...)

enumero as casas abandonadas ao sangue dos répteis
surpreendo-te quando me surpreendes
pela janela espio a paisagem destruída
e o coração triste dos pássaros treme

(...)

Al Berto, in "Ofício de Amar", org. Jorge Reis-Sá, O Último Coração do Sonho, Quasi, 2006
Foto: Isabel Solano

Operário em construção

Este livro que desfolho tem uma dedicatória:
"Para a nossa mãe pelo seu 18º aniversário.
Mts bjinhos**
Dos teus pequeninos
J. e R."

Quem escreveu isto tinha então 17 e 19 anos, eu sou "a nossa mãe", eles os meus "pequeninos"... São simples estas palavras, como é simples e boa e sempre bem humorada a alegria que eles me dão todos os dias. Uma boa escolha, J. e R.! Eles tinham-me ouvido comentar que me tinha desaparecido a entretanto já aparecida antologia velhinha do Vinicius. Mas esta é especial, e foi pelos meus 18 anos...


(...)
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
(...)

Vinicius de Moraes, in Antologia Poética, 5ª ed., Dom Quixote, 2006
Foto: Isabel Solano

Porque é que a saudade é branca?


eu digo que a saudade é branca
porque eram brancas
as camélias
do jardim em que
criança
corri

Luísa Veríssimo, in A Ponta Mentos, inédito, 2007

terça-feira, novembro 20, 2007

O lento trabalho das aranhas


(...)

Aqui nesta cripta está o relento,
branco e mole, criado
na escuridão e no silêncio. Branco e sem olhos.
Branco e mole, onde
se ouve o lento trabalho
das aranhas no fundo.
-Sentiste
o teu pensamento avançar
mais um passo
no silêncio?
Sentiste-o avançar no silêncio?
Dentro de cada ser ressurgem os mortos.
A noite com outras noites em cima.
Há como um assassinato de que
se não ouvem
os gritos.
O negro sol.
Lepra.
As canduras.

Só a água fala nos buracos.

(...)

Herberto Helder, in "Húmus", Poesia Toda, Assírio e Alvim, 1981
Foto: Isabel Solano

Sem sóis nem gaivotas


Por onde brilham os sóis do inverno frio em que
caminhámos juntos à beira-mar de bocas fechadas
os corações escancarados e livres para a dádiva
Por onde voam agora as gaivotas que nos viram chegar
e nem se mexeram do lugar porque sabiam que não as víamos
aliás não víamos senão a luz e o silêncio dos nossos olhos

Por onde andamos nós agora sem sóis nem gaivotas

Bárbara Pais, in In Vida Veritas, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Pensar e dizer

Alberto Caeiro é o meu guardador. Sem qualquer sombra de dúvidas. Ainda não lhe tinha dado espaço aqui, a ele que tem todo o meu espaço.
É dos Poemas Inconjuntos este pedaço.


(...)

Assim como falham as palavras quando queremos exprimir [qualquer pensamento,
Assim falham os pensamentos quando queremos pensar qualquer [realidade.
Mas, como a essência do pensamento não é ser dita, mas ser [pensada,
Assim é a essência da realidade o existir, não o ser pensada.
Assim tudo o que existe, simplesmente existe.
O resto é uma espécie de sono que temos,
Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.

O espelho reflecte certo; não erra porque não pensa.
Pensar é essencialmente errar.
Errar é essencialmente estar cego e surdo.

Estas verdades não são perfeitas porque são ditas,
E antes de ditas, pensadas:
Mas no fundo o que está certo é elas negarem-se a si próprias
Na negação oposta de afirmarem qualquer coisa.
A única afirmação é ser.
E ser o oposto é o que não queria de mim...

Foto: Isabel Solano

O poeta apenas quer ser escrito

Mais Mia Couto, das Idades Cidades Divindades, a leitura lida e relida destes dias últimos, para voltar a ler e reler em outros próximos.


O POETA

O poeta não gosta de palavras:
escreve para se ver livre delas.

A palavra
torna o poeta
pequeno e sem invenção.

Quando,
sobre o abismo da morte,
o poeta escreve terra,
na palavra ele se apaga
e suja a página de areia.

Quando escreve sangue
o poeta sangra
e a única veia que lhe dói
é aquela que ele não sente.

Com raiva,
o poeta inicia a escrita
como um rio desflorando o chão.
Cada palavra é um vidro em que se corta.

O poeta não quer escrever.
Apenas ser escrito.

Escrever, talvez,
apenas enquanto dorme.

Mia Couto, in Idades Cidades Divindades, Caminho, 2007
Foto: Isabel Solano

Do asfalto da memória


Tomámos do mesmo cálice e unimos as mãos à espera da demora
pensámos sem pensar que o dia se escreveria por si
e que não havia mais fontes onde beber da luz
Cozinhámos um beijo longo mas apenas morno
para depois nos deitarmos no asfalto da memória
partilhada que fora a viagem chegada sem sentido
sem direcção aparente embora os olhos chorassem
e as bocas permanecessem fechadas

Bárbara Pais, in In Vida Veritas, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

segunda-feira, novembro 19, 2007

Talvez te lembres


escuta amor

talvez num dia
em que de mim já nada mais exista
te lembres de dois braços
que te abraçaram convulsivamente
nessa altura
deixa que os lábios te sangrem
deixa que o sangue
te corra pelo peito

e as mãos
essas
abandona-as...

Mário-Henrique Leiria, in Cem Poemas Portugueses do Adeus e da Saudade, Terramar, 2002
Foto: Isabel Solano

O beijo e a lágrima

Fico contente por ter esta mania de guardar tudo, não saber onde guardo, o que guardo, para que guardo. Procurava uma fotografia para um poema de Mia Couto e acho esta. Teoricamente inutilizada pela gota de mar que saltou para a lente, teria sido lançada no cesto da reciclagem se não fosse esta mania de guardar e também o eterno esquecimento dos óculos por aí à solta não sei bem onde. Não devo ter reparado neste pingo de mar antes. Mas agora vi-o. É uma lágrima. Foi Mia Couto quem me ensinou a vê-la.

Estas Idades Cidades Divindades de Mia Couto são imperdíveis. Vou voltar a elas tantas vezes!


O BEIJO E A LÁGRIMA

Quero um beijo, pediu ela.

Um sismo
abalou o peito dele.
E devotou o calor
de lava dos seus lábios,
entontecida água na cascata.

Entusiamado,
ele se preparou para, de novo,
duplicar o corpo e regressar à vertigem do beijo.

Mas ela o fez parar.

Só queria um beijo.
Um único beijo para chorar.

Há anos que não pranteava.
E a sua alma se convertia
em areia do deserto.

Encantada,
ela no dedo recolheu a lágrima.
E se repetiu o gesto
com que Deus criou o Oceano.

Mia Couto, in Idades Cidades Divindades, Caminho, 2007
Foto: Isabel Solano

domingo, novembro 18, 2007

Dor pressentida em segredo


O grito que dou
é mudo e só
apesar da fanfarra
dos sentimentos
ebulição perdida
vapor
calor
ausência sentida
pressentida uma outra dor

sem faltas de nada
a espada do brilho
seco em lábios de fome
madura

quero dizer-te em segredo
o azul, a casa, a praia
a solidão do degredo

Rui de Morais,in Caminhante, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Saber


VIDA

Vejo o sol nascer
mesmo sabendo
que não nasce
para me ver

Bebo a água da fonte
mesmo sabendo
que não borbota
para eu beber

Leio toda a poesia
mesmo sabendo
que não se mostra
para eu ler

Sorvo da vida tudo
mesmo sabendo
que nasci
para morrer

Luísa Veríssimo, in A Ponta Mentos, inédito, 2007.
Foto: Isabel Solano

Imperfeita madrugada

Da colheita de hoje na Bulhosa do Amoreiras. Trouxe-o bem acompanhado de um Mia Couto que fica para amanhã talvez. Para hoje, Alice Vieira nos Dois Corpos Tombando na Água, Prémio Literário Maria Amália Vaz de Carvalho de 2007. Ainda nem tive tempo de o ler, fá-lo-ei mais logo, mas bastou desfolhar para agradar. Associo Alice Vieira à literatura infanto-juvenil, conhecia menos bem a sua poesia e estes Dois Corpos prometem surpreender e deleitar.


como dizer aos meus olhos que se afastem
do incêndio que lavra a oriente do teu sangue
rasgando a minha fome

e me protejam nesta imperfeita madrugada
em que as línguas dos homens e dos anjos
se confundem

Alice Vieira, in "Pelas mãos e pelos olhos eu juro", Dois Corpos Tombando na Água, Caminho, 2007
Foto: Isabel Solano

sábado, novembro 17, 2007

Café com Letras

Café com as letras de Fernando Pinto do Amaral. Na Biblioteca Municipal de Carnaxide, 4ª feira 28 de Novembro, às 21h30.

Da poderosa luz morta

"Não sei muito bem porque se gosta mais de um poeta do que de outros", dizia hoje João Vieira na coluna O Livro da Minha Vida da revista do jornal Sol. Dizia-o referindo-se ao livro da sua vida, O Livro de Cesário Verde. E é isso mesmo, também não sei porque se gosta mais de uns que de outros, mas Gastão da Cruz é seguramente um dos que gosto mais.


Poderosa luz morta te despedes
da poderosa luz tu me despeço
da poderosa luz morta te peço
recomeço da morte o que me pedes

Corpo da morte certo não pertence
este consumo te da morte e esse
da morte poderoso fogo imenso
desoladora boca mas pertence-te

esta separação corpo deserto

Gastão Cruz, in "Escassez", Poemas Reunidos, Publicações Dom Quixote, 1999
Foto: Isabel Solano

As planícies (nos) ouvem


Às vezes falta um pouco o sol
nas planícies abandonadas às cegonhas
e ao vento

lamentam-se brisas
entre papoilas e espigas
desbotadas

De onde vêm todas as águas
que correm por baixo
das pontes arruinadas?

De onde vêm todos os gritos
mudos
de tantas bocas fechadas
à claridade
sem clarividências de ser
ou sequer estar?

As planícies abandonadas
às sombras de luz, pouca,
ouvem-nos
só elas nos ouvem ainda

Bárbara Pais, in In Vida Veritas, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Outono e o corpo a desmenti-lo


OUTONO

Mas quem diria ser Outono
se tu e eu estávamos lá?
(Tínhamos sono... Tanto sono!
É bom dormir ao deus-dará...)

E sobre o banco do jardim,
ante a cidade, o cais e o Tejo,
seria bom dormir assim,
ao deus-dará, como eu desejo...

Mas o teu seio é que não quis:
tremeu de mais sob o meu rosto...
Agora, nu, será feliz,
sob o afago do sol posto...

Seria Outono aquele dia,
nesse jardim, doce e tranquilo...?
Seria Outono...
Mas havia
todo o teu corpo a desmenti-lo.

David Mourão-Ferreira, in "A secreta viagem", Obra Poética, 5ª ed., Editorial Presença, 2006
Foto: Isabel Solano

sexta-feira, novembro 16, 2007

Conversas de mistérios abertos


Encontramos a praia deserta com os olhares fugidios
ensaiamos alguma conversa de mistérios abertos
na seriedade do momento musicado pelas ondas do mar
e pelos gritos das gaivotas tristes mas brancas

O silêncio está sempre ocupado mesmo quando não há palavras
portanto as reticências podem prolongar-se em suspiro longo
os pontos finais deitam-se ao abandono do ar fresco
e a manhã parece cheia de vazios repletos de sensações

As palavras vão ganhando agilidade ritmo alguma emoção
e os silêncios de mar calam brisas ainda frescas
as gaivotas alinham-se agora sentadas na areia molhada
enquanto batem os corações que as olham descompassados

Sentimos o ar tão quente que queremos ter asas também
voar contra o vento de penas leves em desalinho
sentimos longe as penas de ontem e ainda há pouco
o tempo parou em todos os relógios e nós deixamos

Bárbara Pais, In Vida Veritas, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

quinta-feira, novembro 15, 2007

Morre-se devagar


Vê como se morre devagar
neste inverno
que se aproxima da cintura;

como a chuva entra pelo sono
e a sombra mais amarga
se vai juntando à terra nua;

ou a fria chama da cal
tarda

Eugénio de Andrade, in Matéria Solar, Limiar, 1980
Foto: Isabel Solano

quarta-feira, novembro 14, 2007

Em dias de spleen

Há dias de spleen. Bons, pelo menos, para voltar a Baudelaire.


SPLEEN

Quand le ciel bas et lourd pèse comme un couvercle
Sur l'esprit gémissant en proie aux longs ennuis,
Et que de l'horizon embrassant tout le cercle
Il nous verse un jour noir plus triste que les nuits;

Quand la terre est changée en un cachot humide,
Où l'Espérance, comme une chauve-souris,
S'en va battant les murs de son aile timide
Et se cognant la tête à des plafonds pourris;

Quand la pluie étalant ses immenses traînées
D'une vaste prison imite les barreaux,
Et qu'un peuple muet d'infâmes araignées
Vient tendre ses filets au fond de nos cerveaux,

Des cloches tout à coup sautent avec furie
Et lancent vers le ciel un affreux hurlement,
Ainsi que des esprits errants et sans patrie
Qui se mettent à geindre opiniâtrement.

- Et de longs corbillards, sans tambours ni musique,
Défilent lentement dans mon âme; l'Espoir,
Vaincu, pleure, et Angoisse atroce, despotique,
Sur mon crâne incliné plante son drapeau noir.

Charles Baudelaire, in Les Fleurs du Mal, Librairie Générale de France, 1972
Foto: Isabel Solano

Coração em hora de ponta


O regresso fez-se à estrada de sempre em hora de ponta
caem os vermelhos onde não há semáforos só chapas e fumos
mas o tempo nem te custa quando o pensamento voa
do coração para lá e de lá para o coração há dias e meses

A luz da busca incessante brilha queimando o rosto e tudo
apanhas os brancos todos que vês e não vês e queres ver
e o tempo custa-te quando voa e o queres parar ali
caminhas só com o coração para lá e de lá no coração há dias e [meses

O regresso não se completa no azul brilhante do rio ali ao lado
e do coração para lá sonham-se encontros desmarcados

A luz que queima os brancos invade o coração para lá
branco a entrar pelo azul do rio lá ao lado
o rio já desce a rua e corre fervendo de lá para cá

Sinal verde. Sonhas mais depois.
E a luz.

Bárbara Pais, in In Vida Veritas, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Do lado de cá das sinuosidades


Temos pela frente a estrada cinzenta da vida em curvas sinuosas
entra-nos sincopadamente pelo vidro da frente
e nela pomos os olhos para que nos guiem o volante
sem transbordarmos das fronteiras estreitas que nos impõe

Seguimos porém sem ver o caminho
porque os pensamentos se afastaram dos olhos em piloto [automático
e nessa estrada cinzenta estamos em todos os lados e em nenhum
já que a verdade é que não queremos ser

Aproxima-se o camião branco que nos faz abrandar a marcha
e a condução torna-se sonolenta como a música que o rádio cospe
já nem se sentem as curvas sinuosas também cinzentas
e temos de ser afinal deste lado

Bárbara Pais, in In Vida Veritas, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Tem-se tempo?


TEMPO

tempo, vai mais devagar
tenho tanto por fazer
tanto ainda por viver
uns mil livros para ler
um ou dois para escrever
pára, tempo
e não me arrastes
quero ter tempo de ser

Luísa Veríssimo, in A Ponta Mentos, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Enlouqueçam as vacas

Não consigo definir o que a poesia de Herberto Helder desperta em mim. Não é deleite, mas uma mistura de emoções fortes: admiração pela criação desmedida em cada verso, cada associação de palavras; surpresa; desconcerto; incómodo por alguma crueza, às vezes quase violência; desconforto; esmagamento pela gradiosidade da obra. Jamais indifereça, isso é impossível. Por isso tenho a certeza de que é arte - ARTE - o que Herberto Helder produz. A ler e descobrir novas leituras de cada vez que pego e abro ao caso numa qualquer página da imensa Poesia Toda. Nunca sabe ao mesmo.


(...)

Eu penso mudar estes campos deitados, criar
um nome para as coisas.
Onde era estábulo, na doce morfologia,
fazer
com que as estrelas mugissem e as poeiras
ressuscitassem.
Dizer: rebentem os taludes, enlouqueçam as vacas,
que minha inteligência se torne pacífica.
Unir a ferocidade da noite ao inebriado
movimento da terra.
Posso mudar a arquitectura de uma palavra.
Fazer explodir o descido coração das coisas.
Posso meter um nome na intimidade de uma coisa
e recomeçar o talento de existir.
Meto na palavra o coração carregado de uma coisa.
Eu posso modificar-me.
Ser mais alto do que a corrupção.

(...)

Herberto Helder, in "Poemacto", Poesia Toda, Assírio e Alvim, 1981
Foto: Isabel Solano

Consolo


a alma limpa-se no consolo
da escrita

Rui de Morais,in Caminhante, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

terça-feira, novembro 13, 2007

Num resumido sítio provisório

Gosto muito deste Pavão Negro, pena não ter visto a exposição de 1999 com o mesmo tema. Foi a partir daí que vieram a surgir estes poemas. Sobre as palavras. Sobre a escrita, quem sabe se sustentada por esse "leque de opções sugeridas pelas morfologias da cauda do pavão" (do comentário de Paulo Cunha e Silva à esposição e ao texto que nela era distribuído aos visitantes).


AOS POUCOS

Aos poucos
vais brilhando menos, escrita.

No espaço nímio do livro essencial
uma fractura infiltrou-se já
em tuas rendilhadas dobras
em tuas volutas
em tuas manuais volúpias

Uma gritante pressa te ameaça
voz-escrita
luxo-lixo

Nossa fidelidade impossível
vai deixar-te:
outros ângulos surgem no voraz esquema:
o teu futuro está num resumido sítio
provisório

Ana Hatherly, in O Pavão Negro, Assírio & Alvim, 2003
Foto: Isabel Solano

Quem como eu

A escultura é de José Núncio, Liberdade; passo por ela todos os dias, diversas vezes ao dia, há alguns anos. Há tempos que andava com vontade de parar nela, perder-me e dispersar-me por ali.


QUEM COMO EU

Quem como eu em silêncio tece
Bailados, jardins e harmonias?
Quem como eu se perde e se dispersa
Nas coisas e nos dias?

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética I, 3ª ed., Caminho, 1995
Foto: Isabel Solano

Vejo


no silêncio
vejo todas as palavras

Rui de Morais, in Caminhante, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

segunda-feira, novembro 12, 2007

Rosa

Conheci-a na Feira do Livro deste último Verão. Na passagem obrigatória pela banca da Assírio & Alvim, desfolho um nome desconhecido. E não foi preciso muito para a trazer para casa comigo, esta Superfície de Maria Ângela Alvim. A beleza do simples, despretencioso, mas de sensibilidade, clareza e lucidez invulgares. Digo eu, apenas como o sinto, que não sou ninguém nem tenho pretensões a fazer crítica literária. Apenas como o sinto.
Para além de Superfície, o único livro publicado durante a vida (curta, muito curta) da poetisa brasileira, o volume da Assírio & Alvim contém ainda a Barca do Tempo, Outros Poemas e Poemas de Agosto.


Há uma rosa caída
Morta
Há uma rosa caída
Bela
Há uma rosa caída
Rosa


Maria Ângela Alvim, in "Superfície", Superfície. Toda a Poesia, Assírio & Alvim, 2002
Foto: Isabel Solano

Antes fosse


FOLHA

Era uma folha pousada
no cotovelo do vento:
e pairava, deslumbrada,
entre morte e movimento.

Era uma folha: lembrava,
de tão frágil, o momento
em que a vida me ficava
escrava do teu juramento.

Era uma folha: mais nada.
Antes fosse esquecimento!

David Mourão-Ferreira, in "Os quatro cantos do tempo", Obra Poética, 5ª ed., Editorial Presença, 2006

domingo, novembro 11, 2007

Afago a rosa


voltaria a estender as minhas mãos à rosa afagos descendo os dedos pelo caule espinhos rasgando rasgos fundos longos desenhados o sangue a gotejar da minha carne sobre a terra rosa bêbeda rubra tinta voltaria a estender-lhe o olhar já ferido também pela cor de mim reflectida rosa escarlate e voltaria a deixar-me enterrar enleado na raiz fasciculada rede da rosa encarnada só as minhas mãos de fora da areia e terra misturadas mãos pintadas por ti no meu sangue e exangue já não sangraria rosa para ti outros dedos e mais dedos mais tivera rosa cega que a rosa sou eu com as mãos de fora

Rui de Morais, in Caminhante, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Outro dia, outra cogitação

Um blogue - este blogue, pelo menos - também me parece um repositório de passos perdidos. Não sei se gosto... a não ser que sejam passos a caminho da luz.

Pretexto para publicar uma foto com dunas. Gosto de dunas. Destas dunas. De quase todas as dunas. São como divãs.

Praia sem poente


Daquela praia retenho toda a luz
todo o calor ardente que cegava
quero crer que ali não há poente
aquela praia é eterna madrugada

Luísa Veríssimo, in A Ponta Mentos, inédito, 2007

Sintaxe do vento


Lembro-me do dia em que as palavras
revoltadas
se escaparam dos dicionários
ao vento
soltas
às voltas
como as folhas das árvores
livres da sintaxe do tempo o chão de terra
e a pedra quase eterna
cairam em poemas
de versos brancos
ao sabor das vontades
de todas as cores
as palavras
soltas revoltas
em contínuo movimento
passageiras das brisas

as palavras
em morfologias variadas

sem ordenações pré-fabricadas

Rui de Morais, in Caminhante, inédito, 2007.

sexta-feira, novembro 09, 2007

Muito profunda cogitação do dia

Um blogue, este como tantos que tenho visto, faz-me lembrar algo como um cemitério de pensamentos. A maioria dos transeuntes passa sem entrar e só muito de vez em quando alguém aparece para deixar umas flores. Só o morto lá está, e por vezes bastante atarefado a compor a campa. Só por isso se sentirá vivo alguém dentro do seu blogue? Estranhos hábitos temos nós, moradores da modernidade... E porque me lembrei agora da condição pós-moderna de Lyotard?

Tenho fotos de pegadas na areia de que gosto bastante. Amanhã ou depois, ou talvez nunca, hei-de cogitar sobre a hipótese de um blogue se poder comparar antes a um repositório de passos perdidos.

Vem sentar-te comigo à beira do rio


ODE

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos).

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimentos demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.

Ricardo Reis, in O Rosto e as Máscaras, Círculo de Leitores, 1979

Miopia


MIOPIAS

Quebro os óculos
e fico a ver o mundo desfocado
fingindo esquecer que sei
o que está do outro lado
fingindo não ver quem vê
deixando-me ver a ver

- para quê esconder?

Desdenho as dioptrias...

Faça-se da vida toda
uma imensa miopia!

Rui de Morais, in Caminhante, inédito, 2007

De uma pouca imensidão regressada


Despertámos azuis olorosos nos mares
enquanto as chávenas de café se esvaziaram
e poisámos nos pires porcelanas delicadas
dos nossos pensamentos vagamente translúcidos

Depois encontrámos alguma cegueira momentânea
no querermos engolir todo o redondo do sol
de uma só vez pelas pupilas contraídas
numa gula lúbrica que as retinas não suportaram

Fizemos noite do dia por incontinência gulosa do desejo
e como adão e eva de pudícias sonegadas
voltámos ao estado consciente do saber
perdidos então os espantos das nossas bocas fechadas

Contentámo-nos de novo com uma pouca imensidão apenas [morna
tomada em comprimidos engolidos com água de sabor fénico
líquidos também ficaram os nossos sonhos
que recolhemos em dois dedais pequenos

Molhámos as canetas nessas tintas ainda coloridas
para registarmos os sonhos diminuídos no papel
mas só fluiram transparências invisíveis
dos despejados dedais numa escrita que não se lê

Das folhas brancas queremos reter já só os gestos da escrita
mas a memória apagou-lhes partes inteiras
esquecemos então os sonhos liquefeitos e escritos em nada
e adormecemos os olhos sobre os cinzentos chorados dos mares

Bárbara Pais, in In Vida Veritas, inédito, 2007