terça-feira, julho 08, 2008

Morada de silêncio


a escrita é a minha primeira morada de silêncio
a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras
extensas praias vazias onde o mar nunca chegou
deserto onde os dedos murmuram o último crime
escrever-te continuamente... areia e mais areia
construindo no sangue altíssimas paredes de nada

esta paixão pelos objectos que guardaste
esta pele-memória exalando não sei que desastre
a língua de limos

espalhávamos sementes de cicuta pelo nevoeiro dos sonhos
as manhãs chegavam como um gemido estelar
e eu perseguia teu rasto de esperma à beira-mar

outros corpos de salsugem atravessam o silêncio
desta morada erguida na precária saliva do crepúsculo

Al Berto, in "Salsugem", O Medo, 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2005.
Foto: Isabel Solano

2 comentários:

Filipe disse...

esta morada de silencia fez-me lembrar este poema...

Código Postal (de João negreiros in «o cheiro da sombra das flores»)

As paredes desta casa já viram tudo
o sono
a fome
e um tambor perdido no meio da batalha
viram inquilinos fugir à pressa e a treva que os ladrões trouxeram
as bulhas que desaguaram em carícias
as portas que bateram por conta do vento e as janelas que partiram por conta de nada
mas cada vez que um vinha e entrava dava a todos esta morada
e o correio trazia para o mesmo destinatário as cartas de amor de quem já não mora aqui
e eu não quero saber
abro-as e leio-as como se fossem minhas como se fossem tuas
e violo-lhes a correspondência como se fosses tu
esqueço a letra e os erros de ortografia e imagino que me escreves todos os dias
e quando perguntam se mora aqui a dona augusta
eu digo que sim que sou eu
o senhor Gustavo?
sim sou eu
o doutor Américo?
é o meu pai
a dona Lourdes?
é a minha mãe
a Maria de Fátima?
é minha filha
e o correio não faz perguntas porque sabe que não se deve perguntar nada a um homem apaixonado
e então faço de conta que os nomes sou eu
tapo o remetente imagino-te o nome e abro-a para sentir o teu perfume
e a carta começa assim
excelentíssimo senhor e eu traduzo para meu querido
e depois continua com
venho por este meio e eu traduzo para amo-te mais que a vida
e a carta do tribunal com aviso de recepção do homem que morava aqui e que não pagava a renda é a prova inequívoca de que me amas
todo aquele papaguear jurídico são longas descrições do país exótico onde vives exilada
é por isso que não podes vir
é por isso que não podes escrever não te deixam
por isso escreves em código na pena dos que partiram
com cartas de tribunal e contas da luz antigas para me alumiar a esperança pedindo-me que espere
e sempre que o telefone toca e é engano és tu
quando o galho comprido da árvore do vizinho bate na janela és tu
quando buzinam na rua és tu
quando as crianças cantam lá fora é para te anunciar
eu sei
não tardas
estás para chegar
e quando chegares vais pedir desculpa pelo atraso
e vais dizer que fomos feitos um para o outro e que a vida agora vai correr bem
e vais ser linda e dar-me beijos quentes como um abafo para as orelhas
e vamos viver nesta casa um perpétuo amor uma vida perfeita
sem nada que nos interrompa
e quando o carteiro chegar e fizer perguntas
dizemos que a dona Augusta não sou eu
dizemos que o senhor Gustavo não sou eu
que o doutor Américo era o meu pai mas morreu
que a dona Lourdes era minha mãe mas também se foi logo a seguir com o desgosto
que a Maria de Fátima a minha pequenina de um casamento antigo foi com a mãe para a Suíça
e que aqui moramos nós
sem história
sem família
sem passado
nesta paz que não existe
neste amor que nunca foi mas que é para sempre.

(nao sei como vai aparecer a disposição das frases...espero q dê para perceber!)

Ass: Filipe (aka estico...nhiconhek)

Frederico Ramos-Ponte disse...

Adoro este poema. Bom post