quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Do mais fundo cinema íntimo


A PALAVRA-ESCRITA

A palavra-escrita
é um labor arcaico:
sulca enigmas
venda e desvenda
o sentido do gesto

É uma imagem detida
recolhida do mais fundo cinema íntimo
onde o verdadeiro
é um ser invisível

O cinema do mundo está aí
onde houver ilusão
onde houver vontade de ver
mesmo que seja só o nada

Ana Hatherly, in O Pavão Negro, Assírio & Alvim, Lisboa, 2003
Foto: Isabel Solano

Dor auto-insuficiente


Porquê tanta procura de ti mesmo,
Tanta dor, tanta ferida por sarar,
Tanta palavra à solta nesse mar
Da alma, em inquieto sofrimento?

Se a dor sozinha por vida tens tomada,
Só por viva a alma te fazer sentir,
É porque da paixão não sabes nada.

Por compaixão por ti deixo-te ir...

Luísa Veríssimo, in Da Estranheza, inédito, 2006
Foto: Isabel Solano

domingo, fevereiro 24, 2008

A gente cega por ter coração

Às vezes corre-se riscos para fazer uma fotografia. Foi o caso desta.


olhei de frente
fixamente
aquele fogo intenso
sabendo a cegueira iminente
não foi coragem
foi somente
por ter coração de gente

Rui de Morais,in Partida, inédito, 2006
Foto: Isabel Solano

Aquilo que se esquece


Perdeu-se o teu retrato
apagou-se como se apaga
aquilo que se esquece.
Eras jovem, um caule vigoroso
vinhas de longe, chegavas
de um lugar fantástico
- nunca cheguei a saber
qual era esse lugar: se tinha casas
e jardins
se tinha verão, se tinha mar
se era longe ou perto esse lugar.
Um vento raso cobriu de esquecimento
o teu retrato
- era da infância que vinhas?

Nuno Higino, in No Silêncio da Terra, Campo das Letras, Porto, 2000
Foto: Isabel Solano

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Palavra sem mais


A PALAVRA

A que mais se prolonga
termina e continua
A que abre um espaço e dança
a que quebra e é uma
e só lisa espada

Ó palavra que duras
no teu ar e nas pedras
brilhas só quando passas
respiras continuas
ó palavra sem mais

António Ramos Rosa, in "Voz inicial", A Palavra e o Lugar, Publicações Dom Quixote, 1977
Foto: Isabel Solano

Da cegueira


Da explosão de luz
ficou esta cegueira
assim
tão permanente
que queria agora ver
se o mundo está diferente
queria olhar
a gente o mar o verde
dos teus olhos em mim
e não podendo
do mundo mudo de cores
sobra um sentimento
a preto e branco
de espanto
perdido
ausente

Rui de Morais,in Partida, inédito, 2006
Foto: Isabel Solano

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Perdidos e achados


Perdeu-se
Metáfora
Em forma de beijo
Banal
Mas de grande valor sentimental

Dá-se
A quem a encontrar
E estimar

Rui de Morais, in Do Novo Velho Caminho, inédito, 2008
Foto: Isabel Solano

Gritos de perfume


A SILENCIOSA FORÇA DAS FLORES

A silenciosa força das flores
Emana de suas cores
Que são a sua voz
Os seus anúncios
O seu mosaico de intenções
E digressões
Vitais em seus prenúncios

Sua beleza
Sua inestimável fineza
Está
Em seu corpo a corpo com o desejo
Sua façanha é
Inspirar o beijo
Do errante visitante que as fecunda

Silentes
Apelam
Dando gritos de perfume

Ana Hatherly, in "Poemas Femininos", A Neo-Penélope, &etc, Lisboa, 2007
Foto: Isabel Solano

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Fui


hoje soltei os pássaros
fechei a porta da gaiola
e voei com eles
fui-me embora

Luísa Veríssimo, in Mais Poemas, inédito, 2008
Foto: Isabel Solano

sábado, fevereiro 16, 2008

Teia de amor


o que me custa é pensar que pode ficar por dizer
o que não disse por falta de tempo
oportunidade vergonha pudor vaidade
orgulho ferido puro esquecimento

e sem que termine o meu tempo
grito já hoje aqui - antes que de novo
esqueça - que mesmo que não pareça
te amo a ti a vós todos amo
que passastes por mim todos estes anos

pois desses cruzamentos de vidas
desse vaivém em mim enredado
fui tecendo em completo descuidado
sem cuidar que a tinha
a teia que é agora a minha

Bárbara Pais, in Não Sei Falar de Mim, inédito, 2008
Foto: Isabel Solano

Escrevo no intervalo da sombra


A SOMBRA DE UMA FACE
A FACE DE UMA SOMBRA

Há uma face que não sei,
que não sou.
E o que sou é a face de uma sombra.
Escrever para essa sombra sem face.

Sou uma sombra sem face
na sombra da rua.
Escrevo nesse intervalo,
nessa sombra onde ninguém suspira,
onde ninguém passa,
onde ninguém me vê passar,
onde não passo,
onde vou passar.

Há uma face
página onde a sombra se fez face
frente à sombra.
Escrever contra a face sem face.

Escrever acender na sombra
árvores
mover a sombra até ao céu da rua.

Caminhar na sombra desatar a sombra
uma sombra uma face

Escrever é abrir na sombra uma sombra
e respirar na sombra
um corpo de sombra.

Ninguém nos vê nem nos verá jamais.

Respirar a sombra viva.

António Ramos Rosa, in "A construção do corpo", A Palavra e o Lugar, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1977
Foto: Isabel Solano

Hora de ponta


Canso-me tanto, agora! Não da vida,
que não me canso de a viver,
mas porque a tenho cada vez mais preenchida
com tudo o que ainda corro para fazer.

E temo já não poder.

Luísa Veríssimo, in Mais Poemas, inédito, 2008
Foto: Isabel Solano

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Eu sou daqui


CANÇÃO BREVE

Tudo me prende à terra onde me dei:
o rio subitamente adolescente,
a luz tropeçando nas esquinas,
as areias onde ardi impaciente.

Tudo me prende do mesmo triste amor
que há em saber que a vida pouco dura,
e nela ponho a esperança ou o calor
de uns dedos com restos de ternura.

Dizem que há outros céus e outras luas
e outros olhos densos de alegria,
mas eu sou destas casas, destas ruas,
deste amor a escorrer melancolia.

Eugénio de Andrade, in Antologia Poética, Porto Editora, 1974 (de Os Amantes sem Dinheiro)
Foto: Isabel Solano

O caminho
























Há por vezes estes vazios
que escoam as palavras;
a mão tolhida não escreve
a folha dorme calada.

Há por vezes esta tristeza
que chega sem ser chamada,
que me quer só, isolada.

Há por vezes este grito
que me acorda estremunhada;
não sei de onde vem
nem o que quer dizer-me
porém devolve-me à estrada.

Há sempre este caminho
tão longo... que nunca acaba.

Bárbara Pais, in Não Sei Falar de Mim, inédito, 2008
Foto: Isabel Solano

sábado, fevereiro 09, 2008

Encontro

Nuno Júdice a dizer o amor. Gosto muito. Já tinha Nuno Júdice no meu fotoblog do Flickr e aqui, imperdoavelmente, ainda não.


Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir até de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possivel
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar; que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.


Nuno Júdice, in Poesia Reunida,Dom Quixote, Lisboa, 2000
Foto: Isabel Solano

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Apenas brisa


Sopra um vento entre mim e ti
nascido como todos
quando escavávamos dentro de nós
escavando a distância

foi já tempestade fechada em nevoeiro
hoje é apenas brisa
afrouxada na distância

recebo esse sopro suave como uma carícia
de quem ao largo me acena
enquanto parte

sempre entre nós um vento
ar com que te respiro
enquanto o longe nos escava
a distância

Ana Viana, in Memórias do Desapego, Indícios de Oiro, 2007
Foto: Isabel Solano

Round about midnight



Dancemos
pelas nebulosas
com a música
que só nós sabemos
inaudíveis
invisíveis
os nossos movimentos

Rui de Morais, in Para Ler sem Lupa, inédito, 2008.
Foto: Isabel Solano

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Cada vez mais cedo morre o dia


DEZEMBRO

A esta
mesma
hora
em cada
cerro

um piano
se exalta
na agonia

Tarde
após tarde
cada vez
mais
cedo

nas suas
teclas
pretas
morre
o dia

David Mourão-Ferreira, in "Horizontes", Obra Poética, 5ª ed.,Editorial Presença, 2006
Foto: Isabel Solano

Paixão


A verdade é que vivo de paixões
paixão de luz, de mar, de amar
o mundo de todas as maneiras
de ver pelo teu olhar, pelo meu
mas sempre inteira me entrego
a tudo o que me toca
assim sou eu

Hoje amo a palavra
e me torno sua escrava
trago-a ao peito emoldurada
aos seus pés me deito
e lhe rogo que fique
que não me esqueça
me aqueça o corpo, a alma
se enrosque toda em mim
e me obedeça no fim
quando a mandar embora
porque outra paixão me chama

A chama acesa sempre
sou eu assim

Bárbara Pais, in Não Sei Falar de Mim, inédito, 2008
Foto: Isabel Solano

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

O poeta distraído


A musa andava distraída pelas ruas.
Esquecida do seu estatuto,
vestia jeans e t-shirt rota
e chinelava pelas calçadas de Lisboa.

Foi assim nestes preparos
que entrou no jardim da Estrela,
onde estava o poeta, coitado.

«Olha, tirou férias a musa»
- queixou-se o poeta,
sentado na esplanada
à beira de mais um cigarro. -
«E vai de óculos escuros,
para fingir que não vê.
Hoje isto não está de feição.
Amanhã volto.
Guardo o bloco e a caneta,
talvez vá antes à pesca.»

E o poeta foi-se.

O poeta perdeu o momento
em que a musa distraída
tirou as chinelas
e enfiou os pés
no lago do jardim da Estrela,
só os peixes vermelhos
e os pombos a vê-la.

Soube-se que nesse dia
o poeta não pescou nada.
Os peixes percebem de poesia
e no lago do jardim da Estrela
a lotação esteve esgotada.

Bárbara Pais, in Quase Entrecho, inédito, 2008
Foto: Isabel Solano

Posso fingir de outros, mas não posso fugir de mim

Mais Ensaios Fotográficos deliciosos, desta vez em auto-retrato.


AUTO-RETRATO

Ao nascer eu não estava acordado, de forma que
não vi a hora.
Isso faz tempo.
Foi na beira de um rio.
Depois eu já morri 14 vezes.
Só falta a última.
Escrevi 14 livros
E deles estou livrado.
São todos repetições do primeiro.
(Posso fingir de outros, mas não posso fugir de mim).
Já plantei dezoito árvores, mas pode que só quatro.
Em pensamento e palavras namorei noventa moças,
mas pode que nove.
Produzi desobjetos, 35, mas pode que onze.
Cito os mais bolinados: um alicate cremoso, um
abridor de amanhecer, uma fivela de prender silêncios,
um prego que farfalha, um parafuso de veludo etc etc.
Tenho uma confissão: noventa por cento do que
escrevo é invenção; só dez por cento que é mentira.
Quero morrer no barranco de um rio: - sem moscas
na boca descampada!

Manoel de Barros, in "Álbum de família", Ensaios Fotográficos, Editora Record, Rio de Janeiro, 2005
Foto: Isabel Solano

terça-feira, fevereiro 05, 2008

Às dez da noite sem passaporte


dez da noite em nova iorque

teria de ser na quinta avenida
parávamos num bar para uma bebida
voltávamos à rua de alma aquecida
passavam os táxis amarelos
de todas as cores piscavam néons
seria tudo como nos bons filmes

às dez da noite em nova iorque

e então felizes mas já cansados
queríamos que o mundo parasse ali
porque subíamos pelas nossas vidas
descendo a quinta avenida
as mãos dadas
sem passaporte
o amor como norte

às dez da noite em nova iorque

Bárbara Pais, in Quase Entrecho, inédito, 2008
Foto: Isabel Solano

Vai, alma, vai!

Amor e morte: as obsessões da poesia. E Al Berto: uma das minhas obsessões.


é no silêncio
que melhor ludibrio a morte

não
já não me prendo a nada
mantenho-me suspenso neste fim de século
reaprendo os dias para a eternidade
porque onde termina o corpo deve começar
outra coisa outro corpo

ouço o rumor do vento
vai
alma vai
até onde quiseres ir

Al Berto, in "Uma existência de papel", O Medo, 2ª ed., Assírio & Alvim, 2000
Foto: Isabel Solano

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Intemporal


O TEMPO A VIDA

Não coincide o tempo com a vida
tão tarde o aprendemos

Fora dele vivida conhecemos
antes de nela entrarmos a saída

Num retrocesso intemporal vivemos
intemporal decerto é a nossa vida

Gastão Cruz, in "O vocábulo tempo", Rua de Portugal, Assírio & Alvim, 2002
Foto: Isabel Solano

Explicação das lágrimas dos salgueiros


à superfície imperturbável de ti
flutuam as garças brancas e algumas folhas
que o vento do outono soprou

mas os salgueiros choram
porque têm cabelos que te penetram fundo
e nas pontas dos cabelos pequenos olhos
de ver no escuro

os cabelos dos salgueiros
conhecem de cor o teu mundo

Bárbara Pais, in Dos Rios e Outras Águas, inédito, 2008
Foto: Isabel Solano

domingo, fevereiro 03, 2008

Cá dentro


Hoje há tempestade
nestas folhas vai vendaval de letras
pontuação à solta revolta
misturam-se os meus cabelos
nas frases emaranhadas
as ideias nos dedos às voltas

Hoje há tempestade
desfolham-se os pássaros
morrem as árvores em quedas
disparatadas impedindo estradas
e na enxurrada correm restos
de vidas destroçadas

Hoje há tempestade
folheio livros antigos
revejo todos os sonhos idos
peso a alma enquanto chove
entre os trovões que estalam
tenho-me apaziguada

Hoje há tempestade
é lá fora que anda
a mim não me estorva nada

Bárbara Pais, in Não Sei Falar de Mim, inédito, 2008
Foto: Isabel Solano

Fotografei o sobre






















O FOTÓGRAFO

Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, nunguém passava entre
as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na
pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difìcil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a Nuvem de calça.
Representou para mim que ela andava na aldeia de
braços com Maiakovski - seu criador.
Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
mais justa para cobrir a sua noiva.
A foto saiu legal.

Manoel de Barros, in Ensaios Fotográficos, Record, 2005
Foto: Isabel Solano

sábado, fevereiro 02, 2008

As palavras se sujam de nós na viagem


Os rios recebem, no seu percurso, pedaços de pau,
folhas secas, penas de urubu
E demais trombolhos.
Seria como o percurso de uma palavra antes de
chegar ao poema.
As palavras, na viagem para o poema, recebem
nossas torpezas, nossas demências, nossas vaidades.
E demais escorralhas.
As palavras se sujam de nós na viagem.
Mas desembarcam no poema escorreitas: como que
filtradas.
E livres das tripas do nosso espírito.

Manoel de Barros, in Ensaios Fotográficos, Record, 2005
Foto: Isabel Solano

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Mais uma sexta-feira






















Hoje é sexta-feira.

Trago os cabelos apanhados
daquela maneira que gostas
e, ao peito, trago postas
as correntes de ouro
que me deste:
não me prendem os olhos
e é premente que eu veja.

Hoje é sexta-feira.

Trago os pensamentos soltos
em cima dos saltos altos
dos sapatos amarelos
- aqueles, sabes? -
que usei na última festa
em que dançámos os dois,
bem sei, cada um com o seu par.

Só não uso a tua tristeza,
pois essa já se adivinha
que me pesa.
E eu não sou de chorar.

Luísa Veríssimo, in Mais Poemas, inédito, 2008
Foto: Isabel Solano

Tempo de apagar pegadas


O tempo das pegadas
enevoa-se na humidade do vazio
os sabores confundem-se sem substância
e os cheiros
esses últimos redutos da infância
já não atravessam paredes nem distâncias

nem uma marca de luz na vidraça
nenhum olhar

no lugar dos olhos só uma sombra
repousa

imagem
de ser tempo de apagar pegadas
e de caminhar sobre as águas

uma imagem desfocada
cada vez mais nítida
de um não tempo que resiste

até um dia quando deixar eu de resistir-lhe

Ana Viana, in Memórias do Desapego, Indícios de Oiro, 2007
Foto: Isabel Solano