quinta-feira, abril 24, 2008

À sombra das inscrições


Há nas sombras de todas as inscrições
ocultos medos de segredos
que se revelam à superfície da escrita

22/4/2008

Bárbara Pais, in Não Sei Falar de Mim, inédito, 2008
Fotografia: Isabel Solano

Embriaguês


MUSEU

Aqui - como convém aos mortais -
Tudo é divino
E a pintura embriaga mais
Que o próprio vinho

Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das Coisas, Caminho, 2004
Foto: Isabel Solano

Encontro marcado


Amanhã
se quiser
à porta da perfumaria
não, espere, da relojoaria
- que a perfumaria não pode ser! -
da relojoaria, a do toldo cinza
onze e trinta e cinco
Vemos as horas na montra
verificamos, acertamos ponteiros
estamos com os sorrisos costumeiros
ou como queira, mas convém saber
saber primeiro
antes de estar
Anoto na agenda
para não esquecer
convém escrever
Quem chegar primeiro
quem chegar depois
caminha ao encontro
devagar, sem pressas
Anoto na agenda
onze e trinta e cinco
devagar, convém escrever
para não esquecer
Combinamos já
o que vamos dizer?
Seria melhor
não há tempo a perder
ponteiros certos
onze e trinta e cinco
à porta da relojoaria

Janeiro/2007

Rui de Morais, in Do Riso da Insónia, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

terça-feira, abril 22, 2008

Abro O Medo


(...)
para sobreviver à noite decidimos perder a memória. cobríamo-nos com musgo seco e amanhecíamos num casulo de frio, perdidos no tempo. mas, antes que a memória fosse apenas uma ligeira sensação de dor, registámos inquietantes vozes, caminhámos invisíveis na repetição enigmática das máscaras, dos rostos, dos gestos desfazendo-se em cinza. escutámos o que há de inaudível em nossos corpos.
era quase manhã no fim deste cansaço. despertava em nós o vago e trémulo desejo de escrever.
(...)

Al Berto, in "À procura do vento num jardim d'Agosto", O Medo, 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2005.

domingo, abril 20, 2008

Presente mais que perfeito


Há um presente mais que perfeito
em cada botão de flor a abrir.
Suspende-se o tempo
e cada instante
é um momento completo,
sem passado nem devir.

16/4/2008

Luísa Veríssimo, in Mais Poemas, inédito, 2008
Fotografia: Isabel Solano

Cacografia






















Se quiser, queira!
Só não quero
que queira
se não quiser.
Queira se quiser!
Não quero
que queira
por eu querer.
Queira o que quiser!
Quero
o que quiser
que queira.
Quequeroquequeira.

Janeiro/2007

Rui de Morais, in Do Riso da Insónia, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Com os olhos abertos


Mais do que uma vez
atravessei a primavera
com os olhos fechados

Jorge Sousa Braga, in "Fogo sobre fogo", O Poeta Nu, Assírio & Alvim, Lisboa, 2007
Fotografia: Isabel Solano

Abrirás com a Primavera


Olhos postos na terra, tu virás
no ritmo da própria primavera,
e como as flores e os animais
abrirás nas mãos de quem te espera.

Eugénio de Andrade, in "As mãos e os frutos", Primeiros Poemas, As Mãos e os Frutos, Os Amantes sem Dinheiro, Quasi, 2006
Fotografia: Isabel Solano

quarta-feira, abril 16, 2008

Versos sobre o granito


Vejo poemas nas sombras dos lugares
versos de luz sobre o granito
sílaba a sílaba construídos
os muros que não me separam
dos rios em que medito

7/11/2007

Bárbara Pais, in Não Sei Falar de Mim, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

terça-feira, abril 15, 2008

Condução


Conduzo o tempo num descapotável amarelo
de um só lugar
quando me deito a sonhar

13/11/2007

Bárbara Pais, in Não Sei Falar de Mim, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

segunda-feira, abril 14, 2008

Os cardos não se transformam em rosas


Vivam, apenas.

Sejam bons como o sol.
Livres como o vento.
Naturais como as fontes.

Imitem as árvores dos caminhos
que dão flores e frutos
sem complicações.

Mas não queiram convencer os cardos
a transformar os espinhos
em rosas e canções.

E principalmente não pensem na Morte.
Não sofram por causa dos cadáveres
que só são belos
quando se desenham na terra em flores.

Vivam, apenas.
A Morte é para os mortos!

José Gomes Ferreira, in Antologia Poética-5, Porto Editora, Porto, 1974
Foto: Isabel Solano

sábado, abril 12, 2008

Despede-te do céu e desta praia


Despede-te do céu e desta praia.
Recebe as cores do mar e sobretudo
esquece o dia e a noite.

Repara como as ondas se desfazem
e são a tua vida sob o peso
do mundo. Nada esperes
e nada prometas aos deuses.

Felizes as palavras que disseres;
felizes todos os caminhos.

Procura-me
quando tiveres perdido o rosto, a tua própria
alma.

Fernando Pinto do Amaral, in "Litorais", Às Cegas, Relógio d'Água, Lisboa, 1997
Foto: Isabel Solano

Comer a Vida


BIOFAGIA

é vitalício: comer a Vida
deitando-a entontecida
sobre o linho do idioma.

Nesse leito transverso
dispo-a com um só verso.

Até chegar ao fim da voz.

Até ser um corpo sem foz.

Mia Couto, in Idades Cidades Divindades, Caminho, 2007
Foto: Isabel Solano

sexta-feira, abril 11, 2008

Na couve


Tenho um encontro com uma lagarta
na couve nº5, 3ª folha à esquerda
bato as asas apressado
não posso chegar atrasado
ao jantar

6/04/2008

Rui de Morais, in Do Novo Velho Caminho, inédito, 2008
Foto: Isabel Solano

Às voltas


Tocou-lhe
a alma
inodora

Sabia?
Sabia
a nada
a vento
de frente
no rosto
frio

Viu?
Viu-o agridoce
em amargura pueril

às voltas às voltas às voltas às voltas às voltas
sobre si às voltas

Janeiro de 2007

Bárbara Pais, in In Vida Veritas, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

quinta-feira, abril 10, 2008

Soneto fora de mim


A fonte que foi farta já secou,
morreram as cascatas neste leito.
Corre ainda um fio de água, mas tão estreito,
que esqueço o que a corrente já levou:

tudo o que lhe fez frente abalroou;
as rochas, as raízes do meu peito
no turbilhão das águas estão desfeitos.
Para além da foz, o mar tudo arrastou.

A voragem foi curta, mas funesta;
matou e destruiu enquanto à solta
andou esta irracional e irada besta.

Estranhamente, porém, queria-a de volta
o meu coração ferido que protesta
pela dor da dor ausente, que a alma tolda.

10/04/2008

Rui de Morais, in Para Ler sem Lupa, inédito, 2008.
Foto: Isabel Solano

Rosa


rosa
perfume
cálido
lume

2006

Luísa Veríssimo, in Da Estranheza, inédito, 2006
Foto: Isabel Solano

terça-feira, abril 08, 2008

A náusea


AH, ONDE ESTOU

Ah, onde estou onde passo, ou onde não estou nem passo,
A banalidade devorante das caras de toda a gente!
Ah, a angústia insuportável de gente!
O cansaço inconvertível de ver e ouvir!
(Murmúrio outrora de regatos próprios, de arvoredo meu.)
Queria vomitar o que vi, só da náusea de o ter visto,
Estômago da alma alvorotado de eu ser...

Álvaro de Campos, versão on-line
Foto: Isabel Solano

segunda-feira, abril 07, 2008

A natureza morta numa casa


A mão que embala o mundo traz ao colo
a música de frases tenebrosas
a arder na minha boca. A língua fala
de tudo o que não sei: palavras rasas
entre lábios sem alma, que revelam
a natureza morta numa casa
onde a luz fica acesa em cada sala
até de madrugada. Tudo é belo
quando a vida mal vibra e mal nos pesa,
quando o silêncio abre as suas asas
sob o divino hálito que engole
o aroma das rosas.

Fernando Pinto do Amaral, in "Escotomas", Às Cegas, Relógio d'Água, Lisboa, 1997
Foto: Isabel Solano

sábado, abril 05, 2008

Arranja-me coisas de areia


PEDIDO DE EMPRÉSTIMO

Arranja-me uns versos para o verão.
Coisas de areia, de memória
e sem futuro. Passos das tuas coisas
em volta, a luz perdendo
que guia o pescador, o turista
e o amante em aventuras com regresso
aos quartos onde repousa para o fim
a escassa vida.

Escreve como quem descreve quase
o fim do amor, da casa, do caminho
o teu ao meio-dia de agosto
quase inteiro de sol
e outras poentes alegrias.

António Manuel Azevedo, in "Que mal podem as palavras", As Escadas não têm Degraus, 3, Cotovia, Lisboa, 1994
Foto: Isabel Solano

Tempo docemente perdido


Era no tempo doce das amoras
que eu me perdia pelos carreiros
imprecisos à volta da aldeia
no devaneio vago, a breve ideia
de ouvir tocar o sino ao longe
e contar as badaladas musicadas
da torre do sino da igreja.

As amoras doces perdiam-se
pelos carreiros incertos
que vagueavam por mim
e, quando o sino tocava,
entre os chocalhos das cabras
dos rebanhos que passavam,
misturavam-se os badalos;
tarde demais, lembrava-me então
de contar as pancadas do tempo,
quando elas chegavam ao fim.

27/3/2008

Bárbara Pais, in Quase Entrecho, inédito, 2008
Foto: Isabel Solano

Amarras


sem amarras
nós de chegada
à partida

para além do cais
a barra
sem despedida
e um breve aceno
de mar

2006

Luísa Veríssimo, in Da Estranheza, inédito, 2006
Foto: Isabel Solano