sábado, maio 31, 2008

Histórias de café de bairro


Há anos que os via
no café do meu bairro
por entre a bica apressada
(a minha bica apressada,
não a deles,
que ali ficavam),
um em cada mesa,
ele de jornal aberto
na manchete do dia
e ela, de livro na mão,
lia, lia, lia
(ou talvez não).
Nunca os vi trocar uma palavra,
um sorriso, um gesto.
E no entanto ali estavam,
nem parecia que se encontravam
todos os dias
à hora da minha bica apressada,
cada um na sua mesa,
lá no café do meu bairro.

Um dia estava só ele.
Pedi o meu café,
fui vendo a mesa dela vazia
e o olhar dele
poisado na rua
para lá da vitrina,
a manchete manchando
o jornal esquecido.

Ao balcão um cliente recém-chegado
trouxe a notícia da desgraça:
"Então a D. Beatriz lá se foi
esta noite, coitada."
Que sim, alguém respondeu,
durante o sono,
tranquila, morreu.

No silêncio da mesa do canto
o homem deixou de olhar a rua.
Olhava para dentro.
Falava consigo.
Há tantos anos
para lhe dizer
qualquer coisa
que os juntasse
na mesma mesa do café,
no mesmo final de vida.
E fora sempre deixando para amanhã
- maldita coragem adiada!

E uma lágrima desceu
sem que ninguém visse,
senão eu.

Fevereiro de 2007

Luísa Veríssimo, in A Ponta Mentos, inédito, 2007

Foto: Isabel Solano

ou flor


MADRIGAL

Tu já tinhas um nome, e eu não sei
se eras fonte ou brisa ou mar ou flor.
Nos meus versos chamar-te-ei amor.

Eugénio de Andrade, in "As mãos e os frutos", Primeiros Poemas, As Mãos e os Frutos, Os Amantes sem Dinheiro, Quasi, 2006
Fotografia: Isabel Solano

quarta-feira, maio 28, 2008

O homem da fotografia

Certamente não seria este o homem da fotografia do poema de Luísa Veríssimo. E daí, quem sabe?...

O homem da fotografia
ainda me fita hoje
como num primeiro dia
que nem sei situar:
o mesmo gesto, o mesmo semi-sorriso
os mesmos olhos sem viço.

Deve ter sido há muito tempo
essa primeira vez que me viu,
o homem da fotografia,
sem que eu lhe desse importância,
sem ver sequer que ali estava.

Comecei a notar realmente
o homem da fotografia
provavelmente muito depois
de ele me começar a observar.
Pela persistência daquele olhar
desentendido, desinteressado,
porém fixado, ali, do alto da fotografia,
como se nada quisesse,
como se não visse apesar de olhar.

O homem da fotografia foi ficando
e só por ali estar, parado, a mirar,
acabou por entrar no meu percurso quotidiano.

Passei por aquela rua
distraída, em rotina adormecida,
centenas, talvez milhares, de vezes.
E nem a rua,
que subi e desci todos os dias,
nem a rua
se agarrou tanto ao meu pensamento
como finalmente o fez
o homem da fotografia.
Habituei-me a vê-lo ali, dia após dia,
e já nem me lembro da rua
sem aquele semi-sorriso
do homem da fotografia,
sem aqueles olhos sem viço
que me fitam hoje como nesse primeiro dia,
que não sei dizer quando seria.

Amanhã vão tirá-lo dali,
ao homem da fotografia.
Outro cartaz virá.
Um banco, um supermercado, talvez.
O homem da fotografia
vai deixar de me olhar
como todos os dias fez.

Amanhã a rua
do homem da fotografia
vai estar tão vazia.

Fevereiro de 2007

Luísa Veríssimo, in A Ponta Mentos, inédito, 2007

Foto: Isabel Solano

Soprar os fios



Pêlos de gatos cinza eriçados como ratos
amigos mortos
vozes sem corpo
silêncios desdobrados na distância

é preciso soprar
sobre os fios de aranha que restam

e deixá-los ir

Ana Viana, in Memórias do Desapego, Indícios de Oiro, 2007
Foto: Isabel Solano

terça-feira, maio 27, 2008

Instante


São de nada
tempestades

ante a falta
que me fazes


David Mourão-Ferreira, in "Os quatro cantos do tempo" (parte 3 do poema "Instantes"), Obra Poética, 5ª ed., Editorial Presença, 2006
Foto: Isabel Solano

segunda-feira, maio 26, 2008

Sem


Viver sem memórias
sem marés passadas

em cada manhã
acordar em nada
com cada momento
a cair esquecido

vivência vã

viver de instantes
sem construção
sem ontem
nem amanhã

Fevereiro/2007

Rui de Morais, in Caminhante, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Queria


queria de ti um país de bondade e de bruma
queria de ti o mar de uma rosa de espuma

Mário Cesariny, in "Discurso sobre a reabilitação do real quotidiano", Manual de Prestidigitação, Biblioteca Editores Independentes, 2008.
Foto: Isabel Solano

sábado, maio 24, 2008

Terra


No silêncio do coro das cigarras
há um calor que me agarra
ao cheiro a chão e ervas
secas por sóis que ardem.

Ouço as notas do riacho
que corre ali mesmo ao lado,
estendo a mão às amoras
reluzentes, carmins, gordas.

Mordo-as. E sou já terra
da terra que ainda hei-de ser.

21/05/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.

Foto: Isabel Solano

Esplanada


Há agora uma só chávena
sobre a mesa da esplanada
e em frente a cadeira está vazia.
Gritam alto lembranças
que afogam a garganta
num mar de saudade de outro dia.

Fevereiro de 2007

Bárbara Pais, in In Vida Veritas, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Clareza nua


PROJECTO I

O longo muro alentejano e branco
O desejo de limpo e de lisura
Aqui na casa térrea a arquitectura
Tem a clareza nua de um projecto

Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das Coisas, Caminho, 2004
Foto: Isabel Solano

sexta-feira, maio 23, 2008

Campo de Ourique


Campo de Ourique
à hora em que a luz
é ouro nos carris
e os eléctricos
passam cheios

avós devolvem os netos
aos pais cansados
e os pombos mais uma vez
esvoaçam assustados
entre fumos de automóveis
e ruído de autocarros

Campo de Ourique
em hora de tempo
que corre parado
e de gente apressada
sem saber de quê

duas velhas trocam conversas
velhas conversas de bairro
e o par de namorados
no banco do jardim
troca beijos e promessas
de amanhã voltar ali

Campo de Ourique
à hora de sempre

23/05/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.

Foto: Isabel Solano

Rascunho


Descubro-me ainda
no que pensava
já ter encontrado

Fevereiro/2007

Rui de Morais, in Caminhante, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

O significado das rotas


A FUNÇÃO DO GEÓGRAFO

E sabes, no que mais tenho pensado é nisso,
no significado das rotas,
no que elas têm a ver com tudo isto que te conto,
com o que nos conduz na vida e não sabemos.
Há um mistério nisso. Tu também sabes.
É o maior mistério e não podemos persegui-lo.
Como se nos afastássemos e só pudéssemos esperar
e fosse mesmo isso o que está certo.

Rui Cóias, A Função do Geógrafo, Quasi Edições, Vila Nova de Famalicão, 2000.
Foto: Isabel Solano

quinta-feira, maio 22, 2008

Meu mar


Amo o esplendor que traz a escuridão
quando se fecham todas as janelas
e a casa me adormece com brandura

Volto ao início não conheço o medo
não vejo a luz do mundo eu só e nada temo
no calor desse silêncio meu morno mar materno

21/05/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.
Foto: Isabel Solano

Bordada


Cosi-te a mim
em poema
bordadas
as palavras
fios de vida

Fevereiro/2007

Rui de Morais, in Caminhante, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

A sinceridade das emoções linguísticas


A VIDA DA POESIA

Hoje sei como se exprime a vida da poesia
com a sinceridade das emoções linguísticas
com que o mundo devasta e enche as nossas vidas

Aprendi a clareza das imagens fictícias
recolhidas na luz do corpo nu e vivo
entre os golpes orais errante desferidos

Gastão Cruz, in "Campânula", Poemas Reunidos, Publicações Dom Quixote, 1999
Foto: Isabel Solano

quarta-feira, maio 21, 2008

Deslaço


Descobres mares
desvendas ares
desvelas ventos
desmantelas tempos
desfolhas flores
destróis amores
destinas rumos
desatinas mundos
desdizes o meu destino
deslaço o meu caminho

24/03/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.
Foto: Isabel Solano

Quente frio


Nessa luz
quente
te aqueço
as palavras
frias

Fevereiro/2007

Rui de Morais, in Caminhante, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Aqui


O "AQUI"

O "aqui"
acorda no mundo do poema
e ressuscita-me.

Não digas o meu nome.
Toca-me com a doçura do arco
e diz: "tu" ou
"estás aqui".
São palavras voadoras
que nunca falham o alvo.

Rosa Alice Branco
Foto: Isabel Solano

sexta-feira, maio 16, 2008

Sem trilhos


"atravessamos a vida nos mapas e deixamos o corpo em todos os lugares"
(Rui Cóias)

Esqueçamos o voo das aves.
Abrimos rotas sem memória de tempo
no espaço todo de conquista.
Atravessamo-los sem deixar trilho
(os passos nunca tocam o solo)
atentos ao cheiro da manhã orvalhada,
vendo cada gotícula de neblina.

Acende-se o corpo mais
quando deixamos de pensar;
ainda que as aves continuem a voar
ainda que todos os lugares
tenham desenhos de outros corpos
impressos nos mapas.

11/05/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.
Foto: Isabel Solano

Cansaço


beber todos os momentos
aos copos cheios
de nada

Fevereiro/2007

Rui de Morais, in Caminhante, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Sou um guardador de rebanhos


Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

Alberto Caeiro, in o Guardador de Rebanhos
Foto: Isabel Solano

Os nomes que primeiro se deram


UM NO OUTRO

imensamente nos deitamos um no outro
e não mais nascemos para a mão escura
que tapa o sol e afoga a lua

estamos como se tudo estivesse connosco
e connosco estivessem os nomes que primeiro se deram
flor rio azul estrela terra

Vasco Gato, in Um Mover de Mão, 2000
Foto: Isabel Solano

quarta-feira, maio 14, 2008

Melancolia


MELANCOLIA

Os papéis falam uns com os outros
Sobre esta mesa onde a sombra cai

A lâmpada esquecida tem remorsos
Da luz que antes lhe deu que se esvai.

Nas paredes que antes quadros coloriram
Sobre papel sedoso de ramagens

Ecoam dias em que vozes riram
Jarras de cristal com flores selvagens.

Já partidos os vidros nas janelas
A glicínia sobre os muros sinuosa

Conforme o sol ondula se reclina
Ervas crescem no jardim por elas

Pois já nenhuma mão colhe sua rosa.
Tudo se abandona a ser em ruína.

Bernardo Pinto de Almeida, in Hotel Spleen, Lisboa, Quetzal, 2003
Foto: Isabel Solano

sábado, maio 10, 2008

Pela rota das aves


AUGÚRIO

Sabias ser o augúrio a adivinhação do futuro pelo voo das aves?
Sob que promessa faremos então discorrer as nossas penas?
Acalentarás o adulto milhafre, serpejando a vazante,
ou pretendes me detenha na venerável contemplação do corvo?
Minuciosa é a travessia para o coração sereno, sem lástima;
pois anda e comigo reparte o ofício do condutor de cotovias.
Pelos quintais seguiremos o seu trilho na erva molhada,
também com ele formaremos um cortejo, pobres
aprendizes por chegarem os anos e o que vivemos, um
dia, indiferentes, sem perguntarmos que só isso podia importar.

Rui Cóias
Foto: Isabel Solano

quarta-feira, maio 07, 2008

E de vagar


"escrevo devagar estas paisagens"
(Al Berto)

vagaroso é o silêncio dos rios que correm
vertem-no olhos baços
sufocando o canto das aves
enquanto a manhã se deita indiferente
no sinuoso ondular do texto
sílabas rubras volteiam
como folhas secas num sopro inútil
tão inútil como o sono das pedras
e devagar, sempre devagar,
eclodem ainda do visco quente
as palavras que ninguém sente
sobre o branco árido da tela

7/5/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.
Foto: Isabel Solano

terça-feira, maio 06, 2008

O outro mesmo texto


"les textes le même texte toujours un autre même texte"
Al Berto

de novo o texto
o mesmo
o outro mesmo texto
não difere sequer a caligrafia
não muda a cor da melancolia
no texto
sempre outro
mais um
e o mesmo outro texto
entre textos

6/5/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.
Foto: Isabel Solano

sábado, maio 03, 2008

De cobardia


Há um breve sufoco em cada vez que toco
essa face menos perceptível da vida,
onde a verdade me assusta, de tão despida,
e a ânsia de respirar, vital, me traz logo
à superfície, num mergulho que não forço,
em salto irresistível para este ar poluído
da inútil transparência que agora respiro,
sabendo tão bem que apenas engano a morte.
Assim é a verdade: tão clara e tão escura,
tão confusa, que sempre que a encontro, quero
perdê-la nesse mesmo instante. E nunca chego
a conhecê-la. Na dúvida que perdura,
embarco sem sair de terra. E nada levo,
senão a cegueira covarde a que me atrevo.

2/5/2008

Bárbara Pais, in Não Sei Falar de Mim, inédito, 2008
Fotografia: Isabel Solano

Em vez de rosas, bandeiras


Liberdade
é também vontade.

Benditas roseiras
que em vez de rosas
dão nuvens e bandeiras.

José Gomes Ferreira, in Antologia Poética-5, Porto Editora, Porto, 1974
Foto: Isabel Solano