sábado, agosto 30, 2008

Ardem maçãs na tarde


TARDE

Ardem maçãs na tarde aberta
sobre o pomar do teu passado

Conta quem foste Recomeça
com outros frutos o relato

Sejam romãs É uma festa
ir decifrar-te bago a bago

Conta em que tronco as tuas pernas
viram primeiro a luz de um rapto

Ou projectaram ser a hera
tocando frutos lá no alto

Conta quem foste Nunca 'squeças
que só em frutos te translado

David Mourão-Ferreira, in "Órfico ofício", Obra Poética, 5ª ed., Editorial Presença, 2006
Foto: Isabel Solano

sexta-feira, agosto 08, 2008

Os seus gestos ordenados e frios


Eu contarei a beleza das estátuas -
Seus gestos imóveis ordenados e frios -
E falarei do rosto dos navios

Sem que ninguém desvende outros segredos
Que nos meus braços correm como rios
E enchem de sangue a ponta dos meus dedos.

Sophia de Mello Breyner Andresen, No Tempo Dividido, 4ª ed., Caminho, 2005.
Foto: Isabel Solano

quarta-feira, agosto 06, 2008

Espelhos e cravos


Anda por aí um outono de espelhos
- pressinto-o sem para ele olhar -
onde não cabe o vermelho dos cravos
que jamais deixarei de semear.

05/08/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.

Foto: Isabel Solano

O prisioneiro


Começou de madrugada a obra
na mesma noite sonhada,
tijolo após tijolo,
colados pela argamassa
ligada pelas próprias mãos.
Subiu paredes de suor,
venceu cansaços,
ignorou abraços
de quem por ali passava
e o queria consolar.
Forjou barras inquebráveis,
grossas como os punhos
que nunca fraquejaram,
subiu um telhado simples,
que servisse apenas a função
de rematar a construção.
A obra ficou terminada;
finalmente chegara a Hora,
não perdeu tempo a olhar.
Empurrou a porta pesada,
entrou, deu duas voltas à chave,
retirou-a da ranhura,
foi à janela pequena
e lançou-a pelas grades
com a força que restava.
Um corvo que ali passava
apanhou a chave no ar,
foi-se embora, levando-a céu afora.
O homem deitou-se no chão
e descansou então para sempre
sobre a liberdade conquistada.

Março/2007

Rui de Morais, in Caminhante, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

As palavras

terça-feira, agosto 05, 2008

Erosão


trago-me inteira até à margem

recebo em beijos
a erosão que as águas fazem

05/08/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.

Foto: Isabel Solano

Um fogo equivocado


Um dia acendeu-se um fogo equivocado
e foi assim que eu ouvi contar o caso:

Fim de tarde junto à estrada florestal.
A caruma pensa que uma ponta de cigarro
que vê chegar junto a si, lançada de um carro,
está ainda em brasa quente, incandescente.
E esta, por sua vez, ainda tonta da queda,
mais tonta do que já era, vê no olho da caruma
o lume que já perdera sem saber.

Assim, tanto engano em área tão pequena
só podia dar em coisa bem funesta.
Ali mesmo logo se ateou um fogo equivocado
que fez arder boa parte da floresta.

Março/2007

Rui de Morais, in Do Riso da Insónia, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Tantas noites em flor de Primavera


Mais do que tudo, odeio
Tantas noites em flor da Primavera,
Transbordantes de apelos e de espera,
Mas donde nunca nada veio.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Poesia, 3ª ed., Caminho, 2007.
Foto: Isabel Solano

sexta-feira, agosto 01, 2008

Incêndio atrás das noites


(A CARTA DA PAIXÃO)
Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade
é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os seus recessos negros
onde se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se: O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, essa lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.

Herberto Helder, in Photomaton & Vox, Assírio & Alvim, 1995.
Foto: Isabel Solano