domingo, setembro 28, 2008

Perfume
























E à noite, as mãos cansadas
ainda vieram deixar-me pelo corpo
esse perfume docemente intenso
que tem a madeira recém-cortada.

28/09/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.

Foto: Isabel Solano

Utopia


UTOPIA

Um querer viver tudo e não poder,
por tanto tempo em nada transformado
se ter assim escapado pelo passado.
Quanta promessa de amanhã fazer...

Como a semente, ao ser lançada ao chão,
Dar a vida pela vida, até à morte,
Florescer só quando chega a noite
do tempo que fez ser jovem em vão.

Desejo inútil de mais caminho haver!
Se o mundo ainda está por conhecer,
é absurdo partir quase à chegada.

Resta a certeza, agora já tardia,
de tanto desejo ser utopia.
De tudo querer viver ser viver nada.

Bárbara Pais, in Bárbara Pais, Isabel Solano, Luísa Veríssimo e Rui de Morais: Poemas Sem Data, inédito, s/d
Fotografia: Isabel Solano

Gotas e candeias puras


FONTE/II

No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.

Herberto Helder, in Miguel Veiga, Os Poemas da Minha Vida, 2ª ed., Público, 2005.
Foto: Isabel Solano

sexta-feira, setembro 26, 2008

Ó mar salgado!


MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernado Pessoa, in Mensagem, Oficina do Livro, 2006.
Foto: Isabel Solano

quarta-feira, setembro 10, 2008

Acordar


desnudo palavras ainda no ouvido.
dum tempo longe, quando julgava
conhecer-lhes o sentido.
acordaram-me o relógio
(aos gritos) (em sussurros).
desfeitos os muros da memória,
fizeram-me embater em mim,
de ímpeto brusco. mas nem assim
eu conheci o fim da história.

13/3/2008

Bárbara Pais, in Não Sei Falar de Mim, inédito, 2008
Fotografia: Isabel Solano

Pontos na estrada


Rodavam em sentidos opostos
nas faixas da auto-estrada
desconhecendo-se os rostos

sul-norte norte-sul

num instante se cruzaram
seguindo depois do encontro
ao desencontro de nada

sul-norte norte-sul

há encontros-desencontros
em cada ponto da rodagem
estendida a linha faz-se a estrada

sul-norte norte-sul

Rui de Morais, in Do Novo Velho Caminho, inédito, 2008
Foto: Isabel Solano

De moradas


BREVE ENCONTRO

Este é o amor das palavras demoradas
Moradas habitadas
Nelas mora
Em memória e demora
O nosso breve encontro com a vida

Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das Coisas, Caminho, 2004
Foto: Isabel Solano