quarta-feira, fevereiro 25, 2009

A praga


À despedida, como se aquele encontro fosse o deles,
soltaram-se insectos das bocas e as vozes somente diziam
alguns rumores de ráfia amachucada entre os dedos.

11/11/2007

Rui de Morais, in Do Riso da Insónia, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

O luar que traz?


LUAR

O luar
Pousa
Branco
No pássaro
Negro
Da noite.

Traz
Aos Homens
Vontade
De procurar
No feno
Exaltações
De cor
Nos corpos nus
Das Ceifeiras
Que Neles
Se acenderam
De dia.

Joaquim Carvalho, in "Em busca de ti", Recuperar a claridade, Pangeia Editores, 2008.
Foto: Isabel Solano

terça-feira, fevereiro 24, 2009

A carreira 10


Parto hoje à tarde na carreira 10
está decidido. Sem olhar para trás
sem me despedir sequer da minha rua

Parto hoje à tarde na caligrafia firme
do recado que deixo na porta do quarto
à espera de dizer-te o que já sabes

Vou procurar-me.
Talvez um dia
volte para jantar.

9/11/2007

Rui de Morais, in Caminhante, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

As coisas vêm vão e são tão vãs


MAS QUE SEI EU

Mas que sei eu das folhas no outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?

Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono

Nenhum súbito súbdito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra folha

qualquer. Mas eu que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha

Ruy Belo, in "Monte Abraaão", Todos os Poemas - 2, 2ª ed., Assírio & Alvim, 2004.
Foto: Isabel Solano

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Crateras na noite


Queres o beijo da lua
enquanto na terra bebes o mar
em vagas de esperança
deitadas sobre as dunas
de areias finas à luz crua
e fria do teu olhar.

Ergues o tronco
como quem quer ser de novo,
fitas um horizonte qualquer
que julgas perceber,
mas não te vês descalço,
a areia entranhada
entre os dedos dos pés,
colada em ti.

Lá em cima a lua ri-se
e as gargalhadas redondas
abrem crateras na noite.

9/11/2007

Bárbara Pais, in In Vida Veritas, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

O coração à solta


MADRUGADA

Cola os ouvidos ao silêncio, quando os pássaros
voltearem na casa abandonada.
Só então conhecerás o rumor dos passos
que precedem a madrugada.

Toda a vida é um quadro em que os tons claros
dão por vezes lugar aos mais escuros.
Mas não é raro
florescerem manhãs por trás de velhos muros.

Deixa portanto à solta o coração
e acolhe a luz que espreita além da escuridão.

Torquato da Luz, in Ofício Diário, Papiro Editora, Porto, 2007
Foto: Isabel Solano

domingo, fevereiro 08, 2009

Errância


No quente de um café à beira-mar,
um homem naufragava em si, perdido
em sonhos embalados pelas ondas,
ouvindo em eco sons de búzios ocos.

Pela areia húmida, havia passos sem sentido,
deambulações sem tempo conhecido
de alguns vagos vultos indiferentes.

Ali mesmo, num já frio café à beira-mar,
eu queria ter o olhar errante daquele homem
e beber dele o desejo ardente de sonhar.

7/11/2007

Isabel Solano, in Errância, inédito, 2007.
Foto: Isabel Solano

Sigamos o cherne

Come dive with me
SIGAMOS O CHERNE

Sigamos o cherne, minha Amiga!
Desçamos ao fundo do desejo
Atrás de muito mais que a fantasia
E aceitemos, até, do cherne um beijo,
Senão já com amor, com alegria...
Em cada um de nós circula o cherne,
Quase sempre mentido e olvidado.
Em água silenciosa de passado
Circula o cherne: traído
Peixe recalcado...

Sigamos, pois, o cherne, antes que venha,
Já morto, boiar ao lume de água,
Nos olhos rasos de água,
Quando, mentido o cherne a vida inteira,
Não somos mais que solidão e mágoa...

Alexadre O'Neill, in Jorge de Sena, Líricas Portuguesas, vol. I, Edições 70, 1983
Foto: Isabel Solano

sábado, fevereiro 07, 2009

Nós


Quando um dia nos sentarmos à mesma mesa
poisaremos enfim os olhos longe da tristeza
que sente a montanha por não ver o mar

6/2/2009

Luísa Veríssimo, in Nós, inédito, 2009
Foto: Isabel Solano

Imagens


Tantas praias, tantos mares vislumbrados
num tempo de paixão, terna loucura!
Restaram desse olhar imagens baças
atadas à saudade que ainda dura.

São tempos de silêncio amordaçado
estes, que agora temos, de amargura.

5/11/2007

Luísa Veríssimo, in A Ponta Mentos, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

Desistir


Deixar um verso a meio,
como a manhã -
se desiste.

Francisco José Viegas, in O Puro e o Impuro, Quasi, 2003
Foto: Isabel Solano

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

A diferença entre o poeta e a cigarra


O POETA E A CIGARRA

O mundo sabe
que, para ser belo,
necessita ser escrito.

Carente,
o Universo,
nos pede confirmação
do nosso incondicional amor.

A diferença
entre o poeta e a cigarra
é apenas a sinceridade.

Mia Couto, in Idades Cidades Divindades, Caminho, 2007
Foto: Isabel Solano

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

O poeta que pensa?


O poeta que pensa no poema?
Que sobre o mundo muda o arco do futuro
como um vasto universo inverso ao tempo

Gastão Cruz, in Crateras, Assírio & Alvim, 2000
Fotografia: Isabel Solano

Porto seguro


Para cada poeta existe um porto seguro

Em cada poema há um barco
em cada verso uma amarra solta
e as palavras são outras tantas viagens
fazendo-se ao mar em sons que sulcam
as águas e sorvem a aragem húmida
Outras voam em rimas circulares
chiam ventam imitam tempestades
até choverem asas de gaivota
sobre a página repleta
de bicos abertos de aves

Enchem-se as nuvens de cinza
mas a luz ainda respira
pois para cada poeta existe um porto seguro
onde as nuvens se dissolvem
onde a fúria das ondas é musical
onde se embalam corações cansados
se gritam todos os sonhos afinal

Para cada poeta existe um porto seguro

30/1/2008

Bárbara Pais, in Impressionismos, inédito, 2008
Fotografia: Isabel Solano

domingo, fevereiro 01, 2009

Vazio


POEMA VAZIO




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21/11/2007

Rui de Morais, in Do Riso da Insónia, inédito, 2007