quarta-feira, março 25, 2009

A raiz a terra a razão


ARTE POÉTICA

Ser a raiz das coisas
dentro na terra mergulhar
não por ser raiz
- prosápia dos tiranos -
mas curiosa
primordial volúpia
de conhecer
o que não se pode e é;
armar entre os trâmites da terra
- seca, fera e estéril -
uma sementeira próspera,
escolher um a um os grãos
que hão-de guiar os olhos,
vigias da alma
mais que olhos,
felizes arquivadas folhas
de servir
aos dedos impacientes
- mesmo deus tem dentro um deus profundo -
com que o poeta traça
o seu destino cego,
quando os dedos penetram,
rasgam, dentro da terra
enterram, e se enterram
talvez sonhando das coisas ser
a raiz,
a última razão.

António Mega Ferreira, in O tempo que nos cabe, Assírio & Alvim, 2005.
Foto: Isabel Solano

segunda-feira, março 23, 2009

Que porém


Gratificar o sol
com algumas excepções:
a ave que porém não cai
o grilo que porém não canta.

António Mega Ferreira, in "Génesis: anotações", O tempo que nos cabe, Assírio & Alvim, 2005.
Foto: Isabel Solano

sexta-feira, março 20, 2009

O vento um verbo o verso


METÁFORAS

As metáforas devoram as metáforas
mas nunca ninguém dirá
aqui
ou
ali.
Porque o teu reino é no adverso e no inverso
e só aí
o vento o verbo um verso.

Manuel Alegre, in Livro do português errante, Dom Quixote, 2001.
Foto: Isabel Solano

domingo, março 15, 2009

Sarauí


Entre rigorosos véus de areia
as mães afagam com olhos de água
os filhos que embalam em doce canto
e amarga sede inconformada

29/01/2009

Isabel Solano, in Esquecimento global, inédito, 2009.
Foto: Isabel Solano

Pela competitividade


Esses senhores e senhoras
que tão bem parecem saber
aquilo que ao povo convém,
que assinam leis, tratados,
debitam discursos inflamados
entre S. Bento e Belém,
agora amuam e ralham
porque não temos maneiras
- "Pobres, mal agradecidos!" -
se humildemente gememos
que a vida está uma canseira,
que já não há quem aguente.

Lá do alto, empertigados,
nos salões que nós pagamos,
dizem-nos que o nosso mal
é não sabermos competir
pelo progresso da nação;
que temos até muito mais
do que aquilo que merecemos.
E têm alguma razão.
Abra-se, pois, a grande competição:
nós dum lado, eles do outro,
veremos quem tem razão.

13/11/2007

Isabel Solano, in Outras cantigas, inédito, 2007.
Foto: Isabel Solano

Formigas formigas formigas formigas



NEM SEMPRE AOS POETAS APETECEM AS ESTRELAS

Apetece-me não sei porquê uma história de formigas
De formigas assexuadas negras nítidas e rápidas
Com olhos fantásticos colhendo miríades de imagens
E inúteis os olhos das formigas
Desenhadas como um oito ou como um sinal de infinito
Muitas corteses atarefadas prejudiciais
Clericais sociais subtílissimas pequenas
Formigando no chão
No chão onde florescem os cardos e as cores
No chão onde assenta a carne ansiosa das mulheres
E os joelhos dos homens
No chão onde ecoa a voz repugnante dos pregadores
E a voz das juras e dos negócios
No chão onde cai o suor dos aflitos
E o suor dos amorosos
E o suor dos operários
E o suor dos gordos
No chão onde andam os pés e estalam os escarros
No chão das guerras e das famílias correctas
E dos vasadouros e dos jardins
E do pus verde dos mendigos
E das chagas rendosas e das rendas custosas
E das doidas furiosas
E das rosas
E das airosas e das feias e dos bispos e dos triunfadores
E dos cretinos e das virgens
E dos remédios e dos males
E das vertigens e dos abismos
E das cismas
E dos sismos
E dos vermes do ventre e das sonecas
E dos ludíbrios e dos hábeis
E da força dos garantidos
E das sementes

Apetece-me não sei porquê uma história de formigas
A grande invasão das formigas multiplicando-se
Cobrindo a face da terra e a dos homens e das mulheres
Entrando-lhes pelos narizes para roerem os olhos por dentro
E fazendo bulir as coisas mortas e as vivas
Com o espantoso treme-luz irisado e magnífico
Dos seus reflexos negros e a substituírem todas as cores

Na grande montanha uma mulher enorme
Nua e infame
Tem as pernas escachadas sob as pregas do ventre
E sob as pregas do ventre seu sexo negro
É o grande formigueiro do mundo

Vive?

As formigas esvaziaram-na da enxúndia e substituíram-na
Só lhe deixaram a pele por fora para ainda haver branco visível
E como pêlos ampliados excitados e crescentes
Cobriram e desceram o vale
Enroscaram-se nas árvores
Desinquietaram a placidez das pedras
Forraram as aldeias e as cidades
Os animais e os homens

Que é do ciúme e das angústias?
Que é do amor e das palavras?
Que é das carícias e dos dentes?
Que é das renúncias e dos crimes?
Que é das tentações
Das promessas
Dos desejos
Dos apetites
Das fúrias?
Que é de todas as músicas?

O sol inútil cobre um mar negrejante onde os reflexos são como os olhos das moscas
E um silêncio tremendo finge de paz no mundo
Uma paz de silêncio com formigas

Formigas
Formigas
Formigas
Formigas

António Pedro, in Jorge de Sena, Líricas Portuguesas, vol. I, Edições 70, Lisboa, 1984
Foto: Isabel Solano

sábado, março 14, 2009

Não me falem do Outono!


OUTONO

Partiram no Outono e nunca mais voltaram
nem vão voltar
os que amei e me deixaram
a dor que sempre me há-de acompanhar
até o Outono me vir também buscar.

Não me falem, portanto, do Outono
nem das folhas caídas pelo chão,
triste imagem do abandono
que à noite me rouba o sono
e agrava a solidão.

Quero ter antes, para sempre, o Verão.

Torquato da Luz, in Por Amor e Outros Poemas, Papiro Editora, Porto, 2008
Foto: Isabel Solano

domingo, março 08, 2009

Incauta


ÚLTIMO DE "TRÊS POEMAS PARA CECÍLIA MEIRELES"

Feliz corria. E incauta.
E o vento sua trança destrançava
enquanto um som de flauta
flutuava.

Quantos anos passaram para que
seu cabelo de ouro e espiga
se cobrisse de neve? Se
alguém o souber que diga.

Ou não diga. Para quê dizê-lo?
Se há algum cabelo ao vento
já não é o seu cabelo;

é o de outra menina incauta
que não sabe que cada esquecimento
tem escondido um som de flauta.

Sidónio Muralha, in Jorge de Sena, Líricas Portuguesas, vol. I, Edições 70, Lisboa, 1984
Foto: Isabel Solano

sexta-feira, março 06, 2009

Tempo


Sei de um recanto
na margem da ribeira
onde à tarde me sento
e fico só olhando
o lento passar do tempo
ao som dos pássaros
e da água corrente

12/11/2007

Isabel Solano, in Errância, inédito, 2007.
Foto: Isabel Solano

Porosidade etérea


MÁQUINA DO MUNDO

O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto, é a matéria.

Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.

António Gedeão, in Jorge de Sena, Líricas Portuguesas, vol. I, Edições 70, Lisboa, 1984
Foto: Isabel Solano