sábado, abril 25, 2009

Abril de cinza


escrevo-te das costas de um tempo amordaçado
quando ainda era pecado simplesmente sentir
e por isso a rosa se exilou do próprio cheiro

digo-te que hoje vejo abril em tons de cinza
que há um cravo a murchar de dor em cada mão

seca-se-me a voz, seca a caneta com que escrevo
e amachuco a folha que o vento já arrasta pelo chão

3/1/2008

Isabel Solano, in Entretextos, inédito, 2008.
Foto: Isabel Solano

segunda-feira, abril 13, 2009

Dos infiéis defuntos

A Ruy Belo

Este país já nem sequer existe
a primavera mente mansa e morna
o tempo corre em ritmo decadente
o vento sopra forte e apaga os traços
dos passos que deixamos pelo caminho

Este país extinguiu-se mudo para o mundo
e nem o mar que um dia tanto amou
chorou o instante em que ele se finou

29/03/2009

Isabel Solano, in Esquecimento global, inédito, 2009.
Foto: Isabel Solano

quinta-feira, abril 09, 2009

Momento


HORÁRIO DO FIM

morre-se nada
quando chega a vez

é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos

morre-se tudo
quando não é o justo momento

e não é nunca
esse momento

Mia Couto, in Raiz de orvalho, Caminho, 1999
Foto: Isabel Solano

terça-feira, abril 07, 2009

A matéria simples


Os brilhos que na noite vêm
são dos olhos dos que sonham,
viagens pelos mares de outras águas.
São os que não gostam de se elevarem
no ar sobre os antigos oceanos
e amam os pequenos riachos
e o fundo invisível dos poços.

Fiama Hasse Pais Brandão, in Obra Breve, Assírio & Alvim, 2006.
Foto: Isabel Solano