domingo, outubro 30, 2016

Poeticogramas (4)



Anna Atkins





com a mesma exatidão das conchas

os dedos ataviam hastes e corolas prensadas

frágeis galantarias em vivas emulsões



depois o olhar deita-se sobre o bastidor

enquanto a bordadeira aguarda

com um sorriso já anil e quase algáceo

as linhas com que o sol debrua

um destino assim tão simples

como a laçada da cinta do seu vestido


in Poeticogramas, Bárbara Pais



sábado, outubro 22, 2016

Poeticogramas (3)

Anna Atkins



os dias em que fixavas maresias e campos de papoilas
– com  as mãos soltas – corriam longamente
e eram justos como os rios sem represas


suspensos entre os véus e as linhas
os teus olhos acordavam paisagens mudas
meticulosamente incompletas


e se um pássaro te sobrevoasse o enlevo
talvez lhe mostrasses os céus azuis que pisavas


in Poeticogramas, Bárbara Pais




domingo, outubro 16, 2016

Poeticogramas (2)

Körperfotogramm, Floris Neusüss



a lenta fascinação das pedras
habita-me às vezes
com certa melancolia vegetal

regresso ao país em que nunca vivi
toco muros invisíveis
e sombras transparentes

como dizer-te
por entre as fissuras das folhas?


in Poeticogramas, Bárbara Pais

 

domingo, outubro 09, 2016

Poeticogramas (1)


Körperfotogramm, Floris Neusüss



desenho-te o corpo com os olhos vazados

pelo cheiro a terra que exala a tua pele


não sei que rosto tem esta luz

com que a noite se fechou sobre nós

em sepulcro de pétalas e cornucópias




in Poeticogramas, Bárbara Pais


quinta-feira, abril 14, 2011

Faz-se luz



Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca

Mário Cesariny, in Pena Capital
Foto: Isabel Solano


terça-feira, dezembro 28, 2010

Haverá um tempo de regresso

Em breve terei de regressar às palavras livres com que se fazem os poemas. Em breve.

Obrigada a todos os que têm persistido em passar por aqui, apesar da falta de actualização.

sábado, dezembro 19, 2009

Silêncios - 1º prémio do concurso de poesia "Ora vejamos... 2009"





















SILÊNCIOS

Encontramos a praia deserta. Com os olhares fugidios,
ensaiamos alguma conversa de mistérios abertos
na seriedade do momento musicado pelas ondas do mar
e pelos gritos das gaivotas tristes, mas brancas.
O silêncio está sempre ocupado, mesmo quando não há palavras;
portanto, as reticências podem prolongar-se em suspiro longo,
os pontos finais deitar-se ao abandono do ar fresco.
A manhã parece cheia de vazios repletos de sensações
e as palavras vão ganhando agilidade, ritmo, alguma emoção,
enquanto os silêncios de mar calam brisas ainda húmidas.
As gaivotas alinham-se agora, sentadas na areia molhada,
enquanto batem os corações que as olham, descompassados.
Sentimos o ar tão quente, que queremos ter asas também,
voar contra o vento de penas leves em desalinho.
Enterramos longe as pesadas penas de ontem.
Ainda há pouco o tempo parou em todos os relógios.
E nós deixámos.

Isabel Solano

Sereno refúgio - 3º prémio do concurso de poesia "Ora Vejamos... 2009"




















SERENO REFÚGIO

Sei que a brancura dos dias é aparente
E que a noite se há-de deitar devagar
Entre nós, o oceano, o meu país cansado
E o teu, que ainda escuta ardente
Os rumores que lhe chegam do mar.

Sei que o vento que hoje sopra violento
Amanhã será brisa ou quase nada
E que as nossas vozes, que hoje cantam
Melodias ridentes, inventando sinfonias,
Hão-de ser lágrimas, como o orvalho é geada.

Sei que não crês no que te digo triste,
E me devolves um sorriso que diz que existe
Mais do que este constante movimento
Descendente na minha razão tão escura.

Sorris. Ou ris-te de mim, ainda não sei.

Mas sei que a toda esta imparável mudança
Resiste firme a tua esperança, sólida
A tua mão na minha. E que a tua voz,
Essa, nunca vacila quando a noite vem
E me anuncia a ternura sempre renovada
De um outro dia que se aproxima.

Isabel Solano

sábado, dezembro 12, 2009

Ilusão inalienável


Ora, quero lá saber da chuva,
do vento que uiva lá fora,
do rio furioso que transborda,
dos raios, dos trovões,
de todas as intempéries!

Quero antes aquecer ilusões
à lareira, todos os serões,
de portas e janelas bem fechadas,
para que das chuvas ácidas
que afogam esse mundo estranho
no meu mundo nunca entre nada!

19/11/2007

Bárbara Pais, in In Vida Veritas, inédito, 2007
Foto: Isabel Solano

segunda-feira, novembro 30, 2009

Cascata


Dos teus dedos, quando tocam teclas de água,
Escorre um rio que lava as minhas lágrimas
E me devolve os sonhos que quis ter um dia
Presentes, vivos, num rodopio tonto de euforia

Dos teus dedos, quando acordam calmarias,
Desprendem-se em cascata todas as fantasias
E rolam revoltas as minhas ideias – tão soltas –
Por entre os seixos dóceis e os juncos complacentes

Nos teus dedos me perco e encontro o curso fluido
Transparente, da minha alma que pensava ausente

29.11.2009

Isabel Solano, in Sem nós na garganta, inédito, 2009.
Foto: Isabel Solano

terça-feira, agosto 25, 2009

Lascívia


Em que pensas
quando mordes os bagos
da romã que te entrego
com a minha mão
inteira

28/04/2009

Bárbara Pais, in Regressos, inédito, 2009.
Foto: Isabel Solano

sábado, agosto 22, 2009

Ponto de suspensão


O homem do violino
toca à porta do mercado.
Transporta a gente que passa
ao som de outro destino.
Volteia o arco nas cordas,
acorda o povo que dorme
e que vem saciar a fome
de outras frases, musicais.
Pára o tempo,
cessa a máquina da urbe.
Tudo fica suspenso,
tudo.

18/11/2007

Isabel Solano, in Errância, inédito, 2007.
Foto: Isabel Solano

quinta-feira, agosto 20, 2009

(De)formar-se


na infinitude labiríntica de cada eu
há encontros
com espelhos que deformam

29/04/2009

Isabel Solano, in Esquecimento global, inédito, 2009.
Foto: Isabel Solano

quarta-feira, agosto 19, 2009

Mudez


Pelas espessuras do silêncio
é que vamos
olhos desvendados
tacteando nadas
Consumimos as palavras
todas
em frases loucas
Já não temos senão
algumas interjeições
as menos usadas
e duas ou três conjunções
das que não lembram ao diabo

17/11/2007

Isabel Solano, in Errância, inédito, 2007.
Foto: Isabel Solano

domingo, agosto 09, 2009

Sereno refúgio



(Texto já aqui publicado em versão audio, com alteração do título.)

SERENO REFÚGIO

Sei que a brancura dos dias é aparente
E que a noite se há-de deitar devagar
Entre nós, o oceano, o meu país cansado
E o teu, que ainda escuta ardente
Os rumores que lhe chegam do mar.

Sei que o vento que hoje sopra violento
Amanhã será brisa ou quase nada
E que as nossas vozes, que hoje cantam
Melodias ridentes, inventando sinfonias,
Hão-de ser lágrimas, como o orvalho é geada.

Sei que não crês no que te digo triste,
E me devolves um sorriso que diz que existe
Mais do que este constante movimento
Descendente na minha razão tão escura.

Sorris. Ou ris-te de mim, ainda não sei.

Mas sei que a toda esta imparável mudança
Resiste firme a tua esperança, sólida
A tua mão na minha. E que a tua voz,
Essa, nunca vacila quando a noite vem
E me anuncia a ternura sempre renovada
De um outro dia que se aproxima.

14.06.2009

Isabel Solano, in Sem nós na garganta, inédito, 2009.
Fotos: Isabel Solano

sexta-feira, julho 31, 2009

O poeta em um pouco de morte


Leio e cobiço o Poeta
que quer morrer por um bocado
que isto de andar neste viver
o vem trazendo tão cansado

A morte adormeceu-lhe ao colo
e a um canto do quarto ali está ela
a mulher que vela o sono de ambos
tricotando o tempo devagar
para que o descanso se demore
e o Poeta só acorde
farto da sua própria morte

17/11/2007

Isabel Solano, in Errância, inédito, 2007.
Foto: Isabel Solano

sábado, julho 18, 2009

Quieres verme bailar?


UMA BAILARINA ANDALUZA EM 1992

Morena, só brilhante o cabelo
e a blusa de licra
rente aos seios, do ventre
uma penugem adivinhada
junto ao vazio de onde se soltou
há quinze anos,
deixa que a música se instale
entre suor e suor,
ronda-que-ronda de corpos
vindos do sono bom da tarde,
da luz longa do dia,
do adormecer do sol.
Está sozinha, o busto antes de tudo,
as coxas assentes na bancada,
as mãos no rebordo de madeira,
medindo os passos hesitantes,
os braços que se evitam,
os olhos que se espreitam,
ronda-que-ronda de lutos
e de esperanças - me quieres?
Quieres verme bailar?
E, súbita, rompente e esbelta, em espiga,
ergue-se num sopro,
a nua ponta dos pés na areia de que se fez,
e um hábito antigi
a embala,
numa cadência de tragédia, de saliva e de todos
os cheiros bons
que o seu corpo exala,
as ancas derramadas da cintura,
o olhar por acaso distraído,
os dedos de arabesco em carne pura
troçando, para nós, o desejo
de dançar.

António Mega Ferreira, in O tempo que nos cabe, Assírio & Alvim, 2005.
Foto: Isabel Solano

segunda-feira, julho 13, 2009

A palavra


Ah como eu queria
encontrar a palavra
que mesmo calada
tivesse a força
de ser tudo
sem dizer nada

15/11/2007

Isabel Solano, in Errância, inédito, 2007.
Foto: Isabel Solano

sábado, julho 11, 2009

O tradutor de silêncios


(ESCRE)VER-ME

nunca escrevi

sou
apenas o tradutor de silêncios

a vida
tatuou-me nos olhos
janelas
em que me transcrevo e apago

sou
um soldado
que se apaixona
pelo inimigo que vai matar

Mia Couto, in Raiz de orvalho, Caminho, 1999
Foto: Isabel Solano

domingo, junho 21, 2009

Movimento aparente



14.06.2009

Isabel Solano, in Sem nós na garganta, inédito, 2009.
Fotos: Isabel Solano