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Domingo, Novembro 09, 2008

O amor? Nem flor nem fruto

Voluptuous nature
MINUTO

O amor? Seria o fruto
trincado até mais não ser?
(Mas para lá do prazer
a Vida estava de luto...)

Fui plantar o coração
no infinito: uma flor...
(Mas para lá do fervor
a Vida gritou que não!)

O amor? Nem flor nem fruto.
(Tudo quanto em nós vibrara
parecia pronto a ceder...)

Foi apenas um minuto:
a fome intensa, tão rara!,
de ser criança, ou morrer...

David Mourão-Ferreira, in Jorge de Sena, Líricas Portuguesas, II Volume, Edições 70, 1983.
Foto: Isabel Solano

Sábado, Agosto 30, 2008

Ardem maçãs na tarde


TARDE

Ardem maçãs na tarde aberta
sobre o pomar do teu passado

Conta quem foste Recomeça
com outros frutos o relato

Sejam romãs É uma festa
ir decifrar-te bago a bago

Conta em que tronco as tuas pernas
viram primeiro a luz de um rapto

Ou projectaram ser a hera
tocando frutos lá no alto

Conta quem foste Nunca 'squeças
que só em frutos te translado

David Mourão-Ferreira, in "Órfico ofício", Obra Poética, 5ª ed., Editorial Presença, 2006
Foto: Isabel Solano

Terça-feira, Maio 27, 2008

Instante


São de nada
tempestades

ante a falta
que me fazes


David Mourão-Ferreira, in "Os quatro cantos do tempo" (parte 3 do poema "Instantes"), Obra Poética, 5ª ed., Editorial Presença, 2006
Foto: Isabel Solano

Quinta-feira, Março 27, 2008

Outros espelhos


ESPELHO

Fique em sossego o cálice vermelho
da impetuosa flor chamada instinto.

Quero o teu coração para meu espelho,
pois no teu coração não me desminto.

David Mourão-Ferreira, in "Os quatro cantos do tempo", Obra Poética, 5ª ed.,Editorial Presença, 2006
Foto: Isabel Solano

Terça-feira, Março 25, 2008

Quisesses tu


PRAIA DO ENCONTRO

Esta imaginação de sal e duna,
inquieta e movediça como a areia,
ergue, isolada, a praia, mais a espuma
que sereia nenhuma
saboreia…

Quisesses tomar tu este veleiro,
que em secreto estaleiro construí,
sem velas, sem cordame, sem madeira
- mas branco!, e todo inteiro
para ti…

Brilha uma luz de morte sobre o porto
saído mesmo agora da memória…
Ali estarei, à tua espera, morto,
ou vivo em minha morte
transitória…

Combinado. Que eu juro não faltar!
Contrário de Tristão, renascerei,
se pressentir, aérea, sobre o mar,
a sombra singular
do barco que te dei.

David Mourão-Ferreira, in "Tempestade de Verão", Obra Poética, 5ª ed.,Editorial Presença, 2006
Foto: Isabel Solano

Quinta-feira, Fevereiro 07, 2008

Cada vez mais cedo morre o dia


DEZEMBRO

A esta
mesma
hora
em cada
cerro

um piano
se exalta
na agonia

Tarde
após tarde
cada vez
mais
cedo

nas suas
teclas
pretas
morre
o dia

David Mourão-Ferreira, in "Horizontes", Obra Poética, 5ª ed.,Editorial Presença, 2006
Foto: Isabel Solano

Terça-feira, Dezembro 11, 2007

Porquê?


Porquê o sono
que nunca durmo
De que me escondo
Com quem me cruzo
Sob que escombros
de que futuro
me reencontro
ou me sepulto
Que mar ao longe
Que ruas sulco
Por onde rondo
Que céu Que burgo
este que em sonhos
em vão procuro

David Mourão-Ferreira, in "Numa Lisboa assassinada", Obra Poética, 5ª ed.,Editorial Presença, 2006
Foto: Isabel Solano

Sexta-feira, Dezembro 07, 2007

Flor ausente


Do meu amor perfeito, flor ausente,
não lembro o rosto nem a voz:

lembro a fadiga sorridente
que havia, ao fim, em cada um de nós.

David Mourão-Ferreira, in "Diário de Praia", Obra Poética, 5ª ed., Editorial Presença, 2006
Foto: Isabel Solano

Sábado, Novembro 17, 2007

Outono e o corpo a desmenti-lo


OUTONO

Mas quem diria ser Outono
se tu e eu estávamos lá?
(Tínhamos sono... Tanto sono!
É bom dormir ao deus-dará...)

E sobre o banco do jardim,
ante a cidade, o cais e o Tejo,
seria bom dormir assim,
ao deus-dará, como eu desejo...

Mas o teu seio é que não quis:
tremeu de mais sob o meu rosto...
Agora, nu, será feliz,
sob o afago do sol posto...

Seria Outono aquele dia,
nesse jardim, doce e tranquilo...?
Seria Outono...
Mas havia
todo o teu corpo a desmenti-lo.

David Mourão-Ferreira, in "A secreta viagem", Obra Poética, 5ª ed., Editorial Presença, 2006
Foto: Isabel Solano

Segunda-feira, Novembro 12, 2007

Antes fosse


FOLHA

Era uma folha pousada
no cotovelo do vento:
e pairava, deslumbrada,
entre morte e movimento.

Era uma folha: lembrava,
de tão frágil, o momento
em que a vida me ficava
escrava do teu juramento.

Era uma folha: mais nada.
Antes fosse esquecimento!

David Mourão-Ferreira, in "Os quatro cantos do tempo", Obra Poética, 5ª ed., Editorial Presença, 2006

Sexta-feira, Novembro 09, 2007

Abre-me os braços!


CAMPOS DO ALENTEJO

Áreas que só na alma
encontram suas árias

Mas não virão guitarras
à noite acompanhá-las

Nem o voo das harpas
Nem da neve os fantasmas

Um coro de chaparros
em brados abafados

é sempre o que lhes cabe
é sempre o que lhes basta

Ó crua luz da tarde
logo que a manhã nasce

Por mais que a noite caia
na cal tudo ressalta

E a sombra de um arado
como um A muito amargo

ao qual se limitasse
todo o abecedário

De guerras tantas grades
de fomes tantas pragas

nas lavras destas áreas
os tempos semearam

Abre-me ó terra os braços
como só tu os abres

Até mais graves sabem
tornar-se aqui as aves

David Mourão-Ferreira, in Obra Poética, Presença, 1988

Domingo, Novembro 04, 2007

David Mourão-Ferreira (2)


Ergue-se em vento, sol e maresia,
o imperfeito caule da loucura

na pura exactidão deste silêncio.

David Mourão-Ferreira, "Diário de praia - 1", in Obra Poética, Presença, 1988

Sexta-feira, Outubro 26, 2007

David Mourão-Ferreira


Ah Quem te contivesse
ó diverso Universo
em três versos


David Mourão-Ferreira, "Entre a Sombra e o Corpo", 30, in Obra Poética, Presença, 1988.