quinta-feira, outubro 25, 2007

Blimunda Sete-Luas

Releio Saramago. E páro naquela passagem plena de naturalidade, de instinto, de tranquilidade. Uma beleza. O sangue da vida. O sangue da morte. O gesto da mulher sacerdotisa. Blimunda Sete-Luas, que acabará por reter a vontade de Baltasar Sete-Sóis, que "não subiu para as estrelas, se à terra pertencia e a Blimunda." Mas isso foi depois.

(...)
Deitaram-se. Blimunda era virgem. Que idade tens, perguntou Baltasar, e Blimunda respondeu, Dezanove anos, mas já então se tornara muito mais velha. Correu algum sangue sobre a esteira. Com as pontas dos dedos médio e indicador humedecidos nele, Blimunda persignou-se e fez uma cruz no peito de Baltasar, sobre o coração. Estavam ambos nus. Numa rua perto ouviram vozes de desafio, bater de espadas, correrias. Depois o silêncio. Não correu mais sangue.
Quando, de manhã, Baltasar acordou, viu Blimunda deitada ao seu lado, a comer pão, de olhos fechados. Só os abriu, cinzentos àquela hora, depois de ter acabado de comer, e disse, Nunca te olharei por dentro.
(...)


José Saramago, in Memorial do Convento, ACJ, 2000
Foto: Isabel Solano

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