sábado, novembro 03, 2007

Al Berto


- passaram milhões de cometas fora da nossa órbita
antes que a flor de açafrão rompesse a pele das pedras
regressáramos à terra um instante e os cabelos embranqueceram
as mãos
olhem-nas vagarosamente
depressa se habituaram ao minucioso trabalho das estações

— construímos a casa em pedra com porta e janela viradas a sul
rasgámos poços regámos
plantámos árvores que mais tarde derramariam misteriosas raízes de ébano e de açúcar
até onde as águas se ramificam formando imperturbáveis rios subterrâneos
fabricámos os instrumentos rudes de muitos trabalhos
rodeámo-nos de animais e aprendemos a falar-lhes

— no horizonte da casa o rio as dunas o mar
as águas no instante em que não pertencem ao rio
nem pertencem ao mar
em redor avistávamos árduas planícies terras lavradas
crepúsculos imensos deitados sobre as searas
mas apesar de tudo
desenvolvia-se a partir do coração o inocente desejo de fugir

- os dias passavam-se na espera do mais puro sal-gema das ilhas
sonhávamos com a secreta vida das tartarugas
tínhamos assim a certeza de que os dias aconteceriam mais lentos
elaborámos um calendário com pequenos excrementos geométricos de animais
os meses eram assinalados por diferentes espécies de escaravelhos mortos
os anos contavam-se pelas cores dos bichos vivos fechados numa caixa em cartão

(pausa)

- no vento chegavam os nomes dos barcos e o sono prolongado dos peixes cegos
que deram o nome ao nosso amor e às lívidas cidades costeiras
possuíamos o conhecimento quase completo da terra
aqui
onde nenhum corpo tem sentido ou se define no tempo
casa de solidão
crosta de terra rectângulo sem esperança
apertado sémen
treme-me a voz ao pronunciar teu amargo nome

- em nós envelheceu a fúria de muitos anos por viver
mas uma coisa é certa
fugiremos de novo de casa sempre que preciso for
atravessaremos outros espaços outros desertos
outros tempos insondáveis outras delicadas constelações
e possuiremos novamente o tesouro dos nossos frescos dezassete anos

- à beira do lume desenrolo cuidadosamente as palavras adolescentes
fogosas impetuosas
e recuo até aos velhíssimos gatafunhos da infância
onde a grafia das águas aparece obstruída pelo corpo-mãe
tento um regresso aos confins da memória para compreender o que se vai passar
volto ao meu corpo introduzo-me nele até ao sangue
cansado pelos inesperados desastres da travessia
ah quantos quartos vazios revisitei
quantas cidades envenenadas se coalharam no sangue
que pena ter ficado adulto para sempre

(pausa)

- suponho que é quase noite
e no meu delírio abro-me à invasão das ostras doentes
nos dedos segrego a pérola
lá fora
as mesquinhas formigas tudo recolhem e guardam
longe de nossos corpos e desta noite de verão
uma luz filamentosa estilhaça
pequenos escaravelhos dourados repetem as marcas de correrias cegas pelas dunas
olho-te e ascendo aos sítios cercados pelo silêncio
à boca das palavras tristes que te nomeiam: precioso búzio alga dócil cristalina mão

- arrumamos devagar as pedras e todos os actos daquela memória
além
junto às ervas mansas onde nossa ausência se confunde às cinzas de tua única e tímida voz

- depois
ele feneceu ao anoitecer
porque é a essa hora que murcham as flores
e surgem as dádivas da água na carne esponjosa dos cactos
refulgem no escuro longínquo soluços agravados pela cal das paredes
e como presságio o tempo fora pressentido pela primeira vez nas fendas
no escorrer cantante dos pulsos

- já quase esquecemos o tempo
hoje meu olhar saboreia o morno vinho
envolve teus cabelos tua boca e arrefece dormente onde tu e as aves vêm pernoitar
aqui sentado neste restaurante de praia
eu sei
só o mar das outras terras é que é belo
espero que a noite venha com seus ínfimos sóis e solte borboletas cobertas de mel
parece que só assim dizia Lucrécio
tua imagem permanecerá junto a mim e a doçura de teu nome insinuar-se-á gota a gota junto ao coração

(pausa)

- um cigarro
um cigarro vai certamente acalmar-me

- e eu
conhecerei eu as tempestades?
e a água dos grandes mares internos?
é o lado escondido das ilhas que amo

- amanheço em dor
lentamente escrevo
imobilizado
a luz atravessa-me como um sismo
ouve estes passos a correrem à velocidade do meu coração

- os oráculos aconselham a ingerir uma poção de leite coalhado com sangue de poldro
para afastar o receio e as víboras
cultivaremos a loucura dos insectos pelo embriagante açafrão

- com as raízes do castanheiro desceremos até onde nas míticas águas se refaz o desejo e a paixão

- é meticulosa a seiva que nos gerou
conservamos na boca um travo de flor eclodindo
uma luz de cometa guia-nos de órbita em órbita
caindo

- no entanto nenhum obstáculo será capaz de impedir o regresso à terra
nem mesmo o inflexível rigor da morte exterminará os fascinados rebanhos

(pausa)

- lentamente os dedos aprefeiçoaram esta arte de estarem quietos
sussurrantes sobre os corpos não a deslizarem
não a percorrerem os lugares antigos onde o desejo pulsa
as mãos redescobriram o silêncio
praticam essa arte muito antiga de na imobilidade tudo desejarem

- vou levantar-me e caminhar de novo pelos vidros da noite peganhenta resinosa
é esse o meu destino de homem anónimo
dormirei com a boca cheia de paisagem
não longe da cidade que se recorta novamente na memória
enroscado no feno e no tremocilho
o sexo resfolegando na fresca e olorosa geada do restolho
acordarei com o cio agudo das cigarras
ao mesmo tempo que os insectos nocturnos ascendem à boca triste
com seus olhares alados
e mordem

- ao abrir os olhos terei a visão clara duma outra cidade
longínqua cidade onde permanentes claridades não deixam que a noite se torne perfeita
invento-te no medo desta ausência

- perde-se-me no olhar a linguagem da terra e a cidade impõe-se-me como única ficção
única morte possível
ah meu amigo
lembro-me de como estou só
dormirei nos braços dum pastor adolescente que me ensinará a súbita vertigem daquela noite
a sodomia terna das cabras
o remoto hábito de ciciar palavras fogosas à beira dos corpos
cometas-sem-cauda a rodopiar

Al Berto, "Paisagens e regresso", in Apresentação da Noite, Assírio & Alvim, 2006

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