sexta-feira, novembro 02, 2007

Gato de lineu

Um Cesariny de comer e chorar por mais, este "Manual de Prestidigitação". Poemas de 1949 a 1956, de morrer a rir os da parte "Alguns mitos maiores alguns mitos menores propostos à circulação pelo autor". Gargalhei sozinha, nessa tarde, à hora da sesta. Gosto de sestas sem dormir. Quando posso, faço sestas a ler. Há quem faça cestos ou colheres de pau. Resumindo, acordei inspirada da sesta. E prolonguei o divertimento para o estúdio de fotografia improvisado na cozinha. Tudo serviu, mas o talheres foram uma descoberta interessante. E o sol do fim da tarde a entrar pela janela ajudou. Este gato de lineu segue-se no livro a um outro gato, o gato legível.


O GATO DITO DOMÉSTICO OU DE LINEU

Primo em linha recta do Gato Legível, uma nem sempre fundada tradição de abandalho pesa sobre a origem egípcia, eminentemente cruel e aristocrática, dos da sua espécie. O GATO urina com êxito nos objectos de lar, e quando a angina estala enfim os peitos da patroa que julgou poder fretá-lo para pequenas voltas, O GATO esfrega os olhos, abre uma janela, e voa toda a noite, de barriga para cima. Nestas surtidas voantes encontra-se por vezes com os seus camaradas libertários, e então acendem fogos que, uma vez por ano, formam cortejo em direcção à Lua, onde um gato já cego os devolve aos espaços, transformados em cinza e em máquinas de luar.


Mário Cesariny, in "alguns mitos maiores alguns mitos menores propostos à circulação pelo autor", Manual de Prestidigitação, Assírio e Alvim, 1980
Foto: Isabel Solano

Sem comentários: