sexta-feira, novembro 02, 2007

José Eduardo Agualusa

Todos os locais e momentos são bons para comprar livros e eu não resisto. "O vendedor de passados" veio no meio das alfaces e dos pacotes de leite. Um dia destes no Pingo Doce, já na caixa, ao lado das chiclettes, um escaparate de livros de bolso, olhem qu'esta, não é tarde nem é cedo, toca a andar. E lá veio comigo e com as hortaliças um Prémio Independent para ficção estrangeira. Um mimo, este Agualusa. Luanda, um homem que vende passados, o narrador é a osga lá de casa. E no meio daquilo aparece Ângela Lúcia, a fotógrafa que não o é, a coleccionadora de luz, "Nem sequer sei se sou fotógrafa. Eu colecciono luz." Traz consigo uma caixa dos slides que faz, é o seu "esplendório".

Acho que hoje estava a precisar de deambular por aí com a minha câmara, está um dia lindo.


(...)
"Uma luz como esta, acredita?, só encontrei aqui."
Disse que era capaz de reconhecer certos lugares do mundo apenas pela luz. Em Lisboa, a luz, no fim da Primavera, debruça-se alucinada sobre o casario, e é branca e húmida, um pouco salgada. No Rio de Janeiro, naquela estação intuitiva à qual os cariocas chamam Outono, e que os europeus afirmam com desdém ser puramente imaginária, a luz torna-se mais branda, como que um fulgor de seda, acompanhada por vezes de uma cinza húmida, que encobre as ruas, e desce depois lentamente, tristemente, sobre as praças e os jardins. Nos campos encharcados do Pantanal de Mato Grosso, de manhã bem cedo, as araras azuis atravessam o céu, sacudindo das asas uma luz lúcida e lenta, que pouco a pouco pousa sobre as águas, cresce e se propaga, e parece cantar. Na floresta de Taman Negara, na Malásia, a luz é uma matéria fluida,
que se cola à pele e tem sabor e cheiro. Em Goa, é ruidosa e áspera. Em Berlim o sol está sempre a rir-se, pelo menos desde o instante em que consegue furar as nuvens, como naqueles autocolantes ecologistas contra a energia nuclear. Mesmo nos céus mais improváveis, Ângela Lúcia descobrira brilhos a merecerem ser salvos do esquecimento; (...)

José Eduardo Agualusa, in O Vendedor de Passados, Dom Quixote, 2007.

Sem comentários: