segunda-feira, novembro 05, 2007

Florbela Espanca

Hoje um outro grupo perguntava "quando chegamos à poesia?". É já a seguir, calma! E por isso me lembrei de Florbela Espanca - adoram Florbela Espanca! - e de fazer esta pequena homenagem a quem sabe sentir poesia. Coisa simples, afinal, para todas as idades e condições. E coisa boa, essa de sentir as palavras cá dentro. Sei que gostam particularmente deste soneto. E ok, Natasha, o Pessoa é para o ano, Autopsicografia incluída, pois então! Íamos lá esquecer uma coisa dessas!

SER POETA

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos os esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!


Florbela Espanca, in "Charneca em Flor", Sonetos, 19ª ed., Livraria Bertrand, 1980

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