quarta-feira, novembro 14, 2007

Enlouqueçam as vacas

Não consigo definir o que a poesia de Herberto Helder desperta em mim. Não é deleite, mas uma mistura de emoções fortes: admiração pela criação desmedida em cada verso, cada associação de palavras; surpresa; desconcerto; incómodo por alguma crueza, às vezes quase violência; desconforto; esmagamento pela gradiosidade da obra. Jamais indifereça, isso é impossível. Por isso tenho a certeza de que é arte - ARTE - o que Herberto Helder produz. A ler e descobrir novas leituras de cada vez que pego e abro ao caso numa qualquer página da imensa Poesia Toda. Nunca sabe ao mesmo.


(...)

Eu penso mudar estes campos deitados, criar
um nome para as coisas.
Onde era estábulo, na doce morfologia,
fazer
com que as estrelas mugissem e as poeiras
ressuscitassem.
Dizer: rebentem os taludes, enlouqueçam as vacas,
que minha inteligência se torne pacífica.
Unir a ferocidade da noite ao inebriado
movimento da terra.
Posso mudar a arquitectura de uma palavra.
Fazer explodir o descido coração das coisas.
Posso meter um nome na intimidade de uma coisa
e recomeçar o talento de existir.
Meto na palavra o coração carregado de uma coisa.
Eu posso modificar-me.
Ser mais alto do que a corrupção.

(...)

Herberto Helder, in "Poemacto", Poesia Toda, Assírio e Alvim, 1981
Foto: Isabel Solano

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