segunda-feira, novembro 19, 2007

O beijo e a lágrima

Fico contente por ter esta mania de guardar tudo, não saber onde guardo, o que guardo, para que guardo. Procurava uma fotografia para um poema de Mia Couto e acho esta. Teoricamente inutilizada pela gota de mar que saltou para a lente, teria sido lançada no cesto da reciclagem se não fosse esta mania de guardar e também o eterno esquecimento dos óculos por aí à solta não sei bem onde. Não devo ter reparado neste pingo de mar antes. Mas agora vi-o. É uma lágrima. Foi Mia Couto quem me ensinou a vê-la.

Estas Idades Cidades Divindades de Mia Couto são imperdíveis. Vou voltar a elas tantas vezes!


O BEIJO E A LÁGRIMA

Quero um beijo, pediu ela.

Um sismo
abalou o peito dele.
E devotou o calor
de lava dos seus lábios,
entontecida água na cascata.

Entusiamado,
ele se preparou para, de novo,
duplicar o corpo e regressar à vertigem do beijo.

Mas ela o fez parar.

Só queria um beijo.
Um único beijo para chorar.

Há anos que não pranteava.
E a sua alma se convertia
em areia do deserto.

Encantada,
ela no dedo recolheu a lágrima.
E se repetiu o gesto
com que Deus criou o Oceano.

Mia Couto, in Idades Cidades Divindades, Caminho, 2007
Foto: Isabel Solano

2 comentários:

daniel sant'iago disse...

Para quê mais que um?
Beijo.

Obrigado pelo linque.

isolano disse...

Obrigada pela visita.