segunda-feira, janeiro 21, 2008

A carne redonda


Girassóis percorrem o dia fotosférico,
demorado. Mergulham devagar o peso até ao coração
unido. Pétalas e pálpebras, soletrou-as
conjugalmente
o ouro. Acolheu-os a côncava casa
do sono. Rodaram como bilhas ou amonites ou ancas
pálidas - ao sopro e número
do fogo. Passou a onda abaladora.
E fecham agora os olhos sobre a deslumbrante
chaga das núpcias.
Alto e baixo, pai e filha, ouro e imagem,
transmutaram-se numa só massa exaltada.
- A carne redonda que se fecha
na sua casa madura.

Herberto Helder, in Última Ciência, Assírio & Alvim, 1988
Foto: Isabel Solano

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