sábado, março 15, 2008

Na extrema e lenta doçura da tarde


EM LOUVOR DO FOGO

Um dia chega
de uma extrema doçura:
tudo arde.

Arde a luz
nos vidros da ternura.

As aves,
no branco
labirinto da cal.

As palavras ardem,
e a púrpura das naves.

O vento,

onde tenho casa
à beira do outono.

O limoeiro, as colinas.

Tudo arde

na extrema e lenta
doçura da tarde.

Eugénio de Andrade, in Antologia Poética-5, Porto Editora, Porto, 1974
Foto: Isabel Solano

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