segunda-feira, março 17, 2008

Pequenos universos


MICROPOEMAS

I
essas palavras são sementes
desenterradas
das memórias que se querem
desterradas

II
quando uma pedra sorri no caminho
cantam mais alto as cigarras

III
há um tudo nada de arrogante estar
nesse sol que brilha no teu olhar

IV
mas existem as palavras
quando faltam os sorrisos
nas manhãs claras

V
se o sol se esconder atrás dos montes
antes da hora do poente
não o sigas
deixa-o brincar sozinho às escondidas

VI
gravam-se palavras nas rochas
para eternizar momentos indizíveis

VII
no velho tronco
há nomes gravados
em corações enlaçados
por novas paixões

VIII
escrevia como respirava
quando parava
morria

IX
escrevia para respirar
momentos

X
escrevia para segurar
a caneta entre os dedos

XI
acendo velas
para me lembrar
de as apagar

XII
é olhando o voo das aves
que se vê o volume do céu

XIII
quando as cerejeiras ainda florescem
antevê-se a polpa do fruto
sem pensar no caroço

XIV
furtar a polpa ao fruto
só é crime
sem desejo

XV
a voz das aves só se cansa
se ninguém a ouvir

Rui de Morais, in Para Ler sem Lupa, inédito, 2008.
Foto: Isabel Solano

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