quinta-feira, abril 10, 2008

Soneto fora de mim


A fonte que foi farta já secou,
morreram as cascatas neste leito.
Corre ainda um fio de água, mas tão estreito,
que esqueço o que a corrente já levou:

tudo o que lhe fez frente abalroou;
as rochas, as raízes do meu peito
no turbilhão das águas estão desfeitos.
Para além da foz, o mar tudo arrastou.

A voragem foi curta, mas funesta;
matou e destruiu enquanto à solta
andou esta irracional e irada besta.

Estranhamente, porém, queria-a de volta
o meu coração ferido que protesta
pela dor da dor ausente, que a alma tolda.

10/04/2008

Rui de Morais, in Para Ler sem Lupa, inédito, 2008.
Foto: Isabel Solano

1 comentário:

mateo disse...

Que força tens naquela onda...