sábado, junho 14, 2008

Ensaboando palavras


Sopram-se as palavras
como bolhas de sabão
delicadas;
soltam-se ao brilho da luz,
às mil cores
de reflexos matizados.
É então que,
depois de um breve rodopio,
estalam uma a uma
ante o pestanejar descrente
de quem vê perdida
tanta graça, num instante.

Sopram-se outras ainda,
devagar, com arte redobrada;
segue-as o olhar,
numa vã tentativa
de lhes prolongar a vida.
Mas não.
Estalam todas.
Morrem as palavras
para que vivam as memórias.

Guarda-se a água de sabão;
amanhã será mais dia
de ensaboar palavras.

Fevereiro de 2007

Luísa Veríssimo, in A Ponta Mentos, inédito, 2007

Foto: Isabel Solano

Sem comentários: