quarta-feira, março 25, 2009

A raiz a terra a razão


ARTE POÉTICA

Ser a raiz das coisas
dentro na terra mergulhar
não por ser raiz
- prosápia dos tiranos -
mas curiosa
primordial volúpia
de conhecer
o que não se pode e é;
armar entre os trâmites da terra
- seca, fera e estéril -
uma sementeira próspera,
escolher um a um os grãos
que hão-de guiar os olhos,
vigias da alma
mais que olhos,
felizes arquivadas folhas
de servir
aos dedos impacientes
- mesmo deus tem dentro um deus profundo -
com que o poeta traça
o seu destino cego,
quando os dedos penetram,
rasgam, dentro da terra
enterram, e se enterram
talvez sonhando das coisas ser
a raiz,
a última razão.

António Mega Ferreira, in O tempo que nos cabe, Assírio & Alvim, 2005.
Foto: Isabel Solano

4 comentários:

Fada disse...

Raiz curiosa... Gostei! :)

beijito

AC Rangel disse...

Ser a raiz das coisas,ser semente, conhecer.
Ser raiz. Ser a última razão.
Isabel, você está de parabéns
pela escolha desta poesia de
Antonio Mega Ferreira.
Deliciosa surpresa.

Beijo

Pedro S. Martins disse...

excelente fotografia.

Com tantas interpretações possíveis.

mateo disse...

Perdi-me esta tarde de volta da tua galeria do Flickr.
Adourei!
Beijos.