Mostrar mensagens com a etiqueta Al Berto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Al Berto. Mostrar todas as mensagens

Terça-feira, Julho 08, 2008

Morada de silêncio


a escrita é a minha primeira morada de silêncio
a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras
extensas praias vazias onde o mar nunca chegou
deserto onde os dedos murmuram o último crime
escrever-te continuamente... areia e mais areia
construindo no sangue altíssimas paredes de nada

esta paixão pelos objectos que guardaste
esta pele-memória exalando não sei que desastre
a língua de limos

espalhávamos sementes de cicuta pelo nevoeiro dos sonhos
as manhãs chegavam como um gemido estelar
e eu perseguia teu rasto de esperma à beira-mar

outros corpos de salsugem atravessam o silêncio
desta morada erguida na precária saliva do crepúsculo

Al Berto, in "Salsugem", O Medo, 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2005.
Foto: Isabel Solano

Domingo, Junho 22, 2008

A preto e branco


os negros surgem à flor do papel

passo a passo
entro pela cal ferida das casas e desvendo
portas entreabertas cortinas de riscado objectos polidos pelo uso
chitas
nódoas seculares risos cinzas resíduos de comida ossos
mantos de pó penumbra mornas onde se encolhem os gatos
arcos de alvenaria gavetas sem fundo trepadeiras recantos de urina
ninhos que a curiosidade das crianças largou ao esquecimento

os brancos recortam-se intensos

a aldeia assemelha-se a uma mandala de líquidos cinzentos
um pouco de amarelo arde no centro da fotografia

por detrás dos cinzentos aguados

ouço guinchos de animais recolhendo às tocas
quando a noite cresce
à medida que o revelador actua
o estrangeiro atravessa o crepúsculo
e pára surpreendido pela luz do flash

depois
basta meter a folha de papel no fixador e esperar

Al Berto, in "Trabalhos do olhar", O Medo, 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2005.
Foto: Isabel Solano

Sexta-feira, Junho 13, 2008

Escrevo-te


escrevo-te a sentir tudo isto
e num instante de maior lucidez poderia ser o rio
as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos nos sais de prata
da fotografia
poderia erguer-me como o castanheiro dos contos sussurrados junto
ao fogo
e deambular trémulo com as aves
ou acompanhar a sulfúrica borboleta revelando-se na saliva dos lábios
poderia imitar aquele pastor
ou confundir-me com o sonho de cidade que a pouco e pouco morde a
sua imobilidade

habito neste país de água por engano
são-me necessárias imagens radiografias de ossos
rostos desfocados
mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
repara
nada mais possuo
a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de
romã
repara
como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar

Al Berto, in "Trabalhos do olhar", O Medo, 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2005.
Foto: Isabel Solano

Terça-feira, Junho 10, 2008

Nomear arrumar desordenar o mundo


escrevo barco e uma quilha fende o vastíssimo mar
e as árvores crescem dos espaços enevoados
entre olhar e olhar movem-se
animais presos à terra com suas plumagens de ferro
e de orvalho de ouro quando a lua se eclipsa
comunicando-lhes o cio e a nómada alegria de viver

penso outono ou inverno
e o lume resinoso dos pinhais escorre sobre o rosto
sobre o corpo em tímidos gestos
eis o tempo
do capricórnio reduzido ao esconderijo tatuado
na asa mineral da ave em pleno voo e digo nuvens
relâmpago erva águas
homem
movimento do susto oceanos sal exaustos corpos
transumantes paixões digo
e surge irrompe escorre ergue-se move-se vive
morre
mas não julguem ser trabalho simples nomear
arrumar e desordenar o mundo

para que não se apague esta trémula escrita
preciso do sonho e do pesadelo
da proximidade vertiginosa dos espelhos e
de pernoitar no fundo de mim com as mãos sujas
pelo árduo trabalho de construir os gestos exactos
da alegria que por descuido deus abandonou ao cansaço
no fim do sétimo dia

Al Berto, in "Alguns poemas da Rua do Forte", O Medo, 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2005.
Foto: Isabel Solano

Sábado, Junho 07, 2008

A espessura das papoulas murchas


o silêncio tem a espessura das papoulas murchas
e os objectos parecem aproximar-se do sono
inclinam-se para o lado onde se situam os moinhos as ermidas os bosques diluídos
o nítido ladrar dos cães
que horas serão para lá desta fotografia?

com uma grande angular circundo o mosteiro ao morrer do dia
perto dos jardins cheira a laranjas orvalhadas em tua respiração
tenho uma iluminação de astros rebentando do arco-íris da noite
quando abro o diafragma todo para as línhas oblíquas do rosto em
telha quase rubra

o dia desaguou ao fundo das ruas desertas
apresso o passo debaixo do voo das aves
recolho o olhar
onde um fauno vem beber a nocturna nudez das uvas

Al Berto, in "Trabalhos do olhar", O Medo, 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2005.
Foto: Isabel Solano

Sexta-feira, Junho 06, 2008

Demoraste tanto


mais nada se move em cima do papel
nenhum olho de tinta iridiscente pressagia
o destino deste corpo

os dedos cintilam no húmus da terra
e eu
indiferente à sonolência da língua
ouço o eco do amor há muito soterrado

encosto a cabeça na luz e tudo esqueço
no interior desta âncora alucinada

desço com a lentidão ruiva das feras
ao nervo onde a boca procura o sul
e os lugares dantes povoados
ah meu amigo
demoraste tanto a voltar dessa viagem

o mar subiu ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão

assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração

Al Berto, in O Último Coração do Sonho, Quasi, 2006
Foto: Isabel Solano

Terça-feira, Abril 22, 2008

Abro O Medo


(...)
para sobreviver à noite decidimos perder a memória. cobríamo-nos com musgo seco e amanhecíamos num casulo de frio, perdidos no tempo. mas, antes que a memória fosse apenas uma ligeira sensação de dor, registámos inquietantes vozes, caminhámos invisíveis na repetição enigmática das máscaras, dos rostos, dos gestos desfazendo-se em cinza. escutámos o que há de inaudível em nossos corpos.
era quase manhã no fim deste cansaço. despertava em nós o vago e trémulo desejo de escrever.
(...)

Al Berto, in "À procura do vento num jardim d'Agosto", O Medo, 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2005.

Terça-feira, Fevereiro 05, 2008

Vai, alma, vai!

Amor e morte: as obsessões da poesia. E Al Berto: uma das minhas obsessões.


é no silêncio
que melhor ludibrio a morte

não
já não me prendo a nada
mantenho-me suspenso neste fim de século
reaprendo os dias para a eternidade
porque onde termina o corpo deve começar
outra coisa outro corpo

ouço o rumor do vento
vai
alma vai
até onde quiseres ir

Al Berto, in "Uma existência de papel", O Medo, 2ª ed., Assírio & Alvim, 2000
Foto: Isabel Solano

Quinta-feira, Janeiro 24, 2008

É preciso muito pouca luz para definir um rosto

Eu vou ao encontro de Al Berto porque ele vem sempre ao meu encontro. Amo este poema.
O rosto é da minha amiga BB.






















LEICA

os dedos são o contacto
entre o vidro onde escrevo e o interior do corpo

cada um de nós espreita por uma janela
surpreendemo-nos nesse espaço sem tempo
do que está e não está iluminado

a ponta do feltro risca a pálpebra molhada de tinta
as palavras surgem confusas... click!
a intensidade das luzes e por trás delas o olhar
na penumbra rente ao chão aproximas-te do vidro
focas disparas... o ruído da leica acorda-me
para o silêncio povoado desta sala vazia

é preciso muito pouca luz para definir um rosto
poucas palavras para que o fascínio desse segundo
torne possível dormir dentro da máquina fotográfica

Al Berto, in "Paulo Nozolino / 4 visões", O Medo, 2ª ed., Assírio & Alvim, 2000
Foto: Isabel Solano

Terça-feira, Novembro 27, 2007

À procura do amanhecer

Se me fosse concedido um desejo, gostava de possuir esta faculdade de dizer as coisas como Al Berto. Resta-me o que não é pouco: deixar-me ir nestas palavras mágicas, lê-las em voz alta como o Poeta fazia e comê-las uma a uma ao mesmo tempo.


a fera há-de chegar com a loucura dos sentidos
e furar as maresias sulfúricas da ausência
há-de chegar
e lamber o bolor inocente da insónia
alimentando-se com ténues sombras de corpos

pressinto veleiros tristes adormecidos na mão
onde derramámos o sobressaltado esperma
a fera
há-de chegar ciciando teu nome de ouro intacto
mostrar-me-á a pelagem fulgurante da tempestade
e com sua dentição de raízes envolverá
a límpida fala em que nos refugiámos

a fera há-de chegar
e nós iremos pelo caminho de ossos iluminados
à procura do amanhecer na longínqua treva do mar

Al Berto, in "Os Amigos", O Último Coração do Sonho, 2ª ed., Quasi, 2006
Foto: Isabel Solano

Quarta-feira, Novembro 21, 2007

Ao sangue dos répteis

Al Berto lia em voz alta os seus poemas e quem o ouviu não consegue separá-los da sua voz, a voz que "soube cavar uma língua estrangeira na sua própria língua" (Golgona Anghel, na introdução ao Último Coração do Sonho).


(...)

enumero as casas abandonadas ao sangue dos répteis
surpreendo-te quando me surpreendes
pela janela espio a paisagem destruída
e o coração triste dos pássaros treme

(...)

Al Berto, in "Ofício de Amar", org. Jorge Reis-Sá, O Último Coração do Sonho, Quasi, 2006
Foto: Isabel Solano

Sábado, Novembro 03, 2007

Al Berto


- passaram milhões de cometas fora da nossa órbita
antes que a flor de açafrão rompesse a pele das pedras
regressáramos à terra um instante e os cabelos embranqueceram
as mãos
olhem-nas vagarosamente
depressa se habituaram ao minucioso trabalho das estações

— construímos a casa em pedra com porta e janela viradas a sul
rasgámos poços regámos
plantámos árvores que mais tarde derramariam misteriosas raízes de ébano e de açúcar
até onde as águas se ramificam formando imperturbáveis rios subterrâneos
fabricámos os instrumentos rudes de muitos trabalhos
rodeámo-nos de animais e aprendemos a falar-lhes

— no horizonte da casa o rio as dunas o mar
as águas no instante em que não pertencem ao rio
nem pertencem ao mar
em redor avistávamos árduas planícies terras lavradas
crepúsculos imensos deitados sobre as searas
mas apesar de tudo
desenvolvia-se a partir do coração o inocente desejo de fugir

- os dias passavam-se na espera do mais puro sal-gema das ilhas
sonhávamos com a secreta vida das tartarugas
tínhamos assim a certeza de que os dias aconteceriam mais lentos
elaborámos um calendário com pequenos excrementos geométricos de animais
os meses eram assinalados por diferentes espécies de escaravelhos mortos
os anos contavam-se pelas cores dos bichos vivos fechados numa caixa em cartão

(pausa)

- no vento chegavam os nomes dos barcos e o sono prolongado dos peixes cegos
que deram o nome ao nosso amor e às lívidas cidades costeiras
possuíamos o conhecimento quase completo da terra
aqui
onde nenhum corpo tem sentido ou se define no tempo
casa de solidão
crosta de terra rectângulo sem esperança
apertado sémen
treme-me a voz ao pronunciar teu amargo nome

- em nós envelheceu a fúria de muitos anos por viver
mas uma coisa é certa
fugiremos de novo de casa sempre que preciso for
atravessaremos outros espaços outros desertos
outros tempos insondáveis outras delicadas constelações
e possuiremos novamente o tesouro dos nossos frescos dezassete anos

- à beira do lume desenrolo cuidadosamente as palavras adolescentes
fogosas impetuosas
e recuo até aos velhíssimos gatafunhos da infância
onde a grafia das águas aparece obstruída pelo corpo-mãe
tento um regresso aos confins da memória para compreender o que se vai passar
volto ao meu corpo introduzo-me nele até ao sangue
cansado pelos inesperados desastres da travessia
ah quantos quartos vazios revisitei
quantas cidades envenenadas se coalharam no sangue
que pena ter ficado adulto para sempre

(pausa)

- suponho que é quase noite
e no meu delírio abro-me à invasão das ostras doentes
nos dedos segrego a pérola
lá fora
as mesquinhas formigas tudo recolhem e guardam
longe de nossos corpos e desta noite de verão
uma luz filamentosa estilhaça
pequenos escaravelhos dourados repetem as marcas de correrias cegas pelas dunas
olho-te e ascendo aos sítios cercados pelo silêncio
à boca das palavras tristes que te nomeiam: precioso búzio alga dócil cristalina mão

- arrumamos devagar as pedras e todos os actos daquela memória
além
junto às ervas mansas onde nossa ausência se confunde às cinzas de tua única e tímida voz

- depois
ele feneceu ao anoitecer
porque é a essa hora que murcham as flores
e surgem as dádivas da água na carne esponjosa dos cactos
refulgem no escuro longínquo soluços agravados pela cal das paredes
e como presságio o tempo fora pressentido pela primeira vez nas fendas
no escorrer cantante dos pulsos

- já quase esquecemos o tempo
hoje meu olhar saboreia o morno vinho
envolve teus cabelos tua boca e arrefece dormente onde tu e as aves vêm pernoitar
aqui sentado neste restaurante de praia
eu sei
só o mar das outras terras é que é belo
espero que a noite venha com seus ínfimos sóis e solte borboletas cobertas de mel
parece que só assim dizia Lucrécio
tua imagem permanecerá junto a mim e a doçura de teu nome insinuar-se-á gota a gota junto ao coração

(pausa)

- um cigarro
um cigarro vai certamente acalmar-me

- e eu
conhecerei eu as tempestades?
e a água dos grandes mares internos?
é o lado escondido das ilhas que amo

- amanheço em dor
lentamente escrevo
imobilizado
a luz atravessa-me como um sismo
ouve estes passos a correrem à velocidade do meu coração

- os oráculos aconselham a ingerir uma poção de leite coalhado com sangue de poldro
para afastar o receio e as víboras
cultivaremos a loucura dos insectos pelo embriagante açafrão

- com as raízes do castanheiro desceremos até onde nas míticas águas se refaz o desejo e a paixão

- é meticulosa a seiva que nos gerou
conservamos na boca um travo de flor eclodindo
uma luz de cometa guia-nos de órbita em órbita
caindo

- no entanto nenhum obstáculo será capaz de impedir o regresso à terra
nem mesmo o inflexível rigor da morte exterminará os fascinados rebanhos

(pausa)

- lentamente os dedos aprefeiçoaram esta arte de estarem quietos
sussurrantes sobre os corpos não a deslizarem
não a percorrerem os lugares antigos onde o desejo pulsa
as mãos redescobriram o silêncio
praticam essa arte muito antiga de na imobilidade tudo desejarem

- vou levantar-me e caminhar de novo pelos vidros da noite peganhenta resinosa
é esse o meu destino de homem anónimo
dormirei com a boca cheia de paisagem
não longe da cidade que se recorta novamente na memória
enroscado no feno e no tremocilho
o sexo resfolegando na fresca e olorosa geada do restolho
acordarei com o cio agudo das cigarras
ao mesmo tempo que os insectos nocturnos ascendem à boca triste
com seus olhares alados
e mordem

- ao abrir os olhos terei a visão clara duma outra cidade
longínqua cidade onde permanentes claridades não deixam que a noite se torne perfeita
invento-te no medo desta ausência

- perde-se-me no olhar a linguagem da terra e a cidade impõe-se-me como única ficção
única morte possível
ah meu amigo
lembro-me de como estou só
dormirei nos braços dum pastor adolescente que me ensinará a súbita vertigem daquela noite
a sodomia terna das cabras
o remoto hábito de ciciar palavras fogosas à beira dos corpos
cometas-sem-cauda a rodopiar

Al Berto, "Paisagens e regresso", in Apresentação da Noite, Assírio & Alvim, 2006