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Sexta-feira, Maio 16, 2008

Sou um guardador de rebanhos


Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

Alberto Caeiro, in o Guardador de Rebanhos
Foto: Isabel Solano

Quinta-feira, Janeiro 10, 2008

Em dias de luz perfeita e exacta


Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Porque sequer atribuo eu
Beleza às coisas.


Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer cousa que não existe
Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então porque digo eu das cousas: são belas?


Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as coisas,
Perante as coisas que simplesmente existem.


Que difícil ser próprio e não ver senão o visível!

Fernando Pessoa, Antologia Poética, RBA, 1994.
Foto: Isabel Solano

Terça-feira, Dezembro 25, 2007

Pensar é estar doente dos olhos

Alberto Caeiro e um dos meus poemas preferidos d'"O Guardador de Rebanhos"; sei ter o pasmo essencial, pensar é estar doente dos olhos, eu não tenho filosofia: tenho sentidos... - a arte de ver/sentir e a recusa do vício de pensar. Já o disse aqui e repito: Caeiro é o meu guardador também.


II

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...

Alberto Caeiro, in Fernando Pessoa, "O guardador de rebanhos", Antologia Poética, RBA, 1996.
Foto: Isabel Solano



English translation found in this blog: Poets of the world


II

My gaze is clear like a sunflower.
It is my custom to walk the roads
Looking right and left
And sometimes looking behind me,
And what I see at each moment
Is what I never saw before,
And I’m very good at noticing things.
I’m capable of feeling the same wonder
A newborn child would feel
If he noticed that he’d really and truly been born.
I feel at each moment that I’ve just been born
Into a completely new world…

I believe in the world as in a daisy,
Because I see it. But I don’t think about it,
Because to think is to not understand.
The world wasn’t made for us to think about it
(To think is to have eyes that aren’t well)
But to look at it and to be in agreement.

I have no philosophy, I have senses…
If I speak of Nature it’s not because I know what it is
But because I love it, and for that very reason,
Because those who love never know what they love
Or why they love, or what love is.

To love is eternal innocence,
And the only innocence is not to think…

© Translation: 2006, Richard Zenith
From: A Little Larger Than the Entire Universe: Selected Poems
Publisher: Penguin, New York, 2006

Terça-feira, Novembro 20, 2007

Pensar e dizer

Alberto Caeiro é o meu guardador. Sem qualquer sombra de dúvidas. Ainda não lhe tinha dado espaço aqui, a ele que tem todo o meu espaço.
É dos Poemas Inconjuntos este pedaço.


(...)

Assim como falham as palavras quando queremos exprimir [qualquer pensamento,
Assim falham os pensamentos quando queremos pensar qualquer [realidade.
Mas, como a essência do pensamento não é ser dita, mas ser [pensada,
Assim é a essência da realidade o existir, não o ser pensada.
Assim tudo o que existe, simplesmente existe.
O resto é uma espécie de sono que temos,
Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.

O espelho reflecte certo; não erra porque não pensa.
Pensar é essencialmente errar.
Errar é essencialmente estar cego e surdo.

Estas verdades não são perfeitas porque são ditas,
E antes de ditas, pensadas:
Mas no fundo o que está certo é elas negarem-se a si próprias
Na negação oposta de afirmarem qualquer coisa.
A única afirmação é ser.
E ser o oposto é o que não queria de mim...

Foto: Isabel Solano