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Quinta-feira, Janeiro 31, 2008

A concha perfeita das tuas mãos

Mais um pouco destes Dois Corpos da Alice Vieira que tanto me surpreenderam.


sei um jeito de te fazer ficar
murmuravas nas manhãs em que nascíamos
ávidos de nós
e éramos tão novos
e faltávamos às aulas

posso ter esquecido admito muita coisa
caminhos promessas lugares a cor
da saia que vestia no dia em que não voltei
muita coisa admito menos
a concha perfeita das tuas mãos sobre o meu peito
o cheiro das laranjeiras as cartas
em papel tão adolescente e azul
o esplendor de junho à mesa familiar
os espelhos garantindo-nos um lugar único na casa

posso ter esquecido admito muita coisa
menos os nossos corpos simultâneos
às portas do amor

no arco da minha pele que humidamente
se abria ao lume da tua língua

nessas manhãs em que jurámos
não morrer nunca

Alice Vieira, in Dois Corpos Tombando na Água, Caminho, 2007
Foto: Isabel Solano

Domingo, Novembro 18, 2007

Imperfeita madrugada

Da colheita de hoje na Bulhosa do Amoreiras. Trouxe-o bem acompanhado de um Mia Couto que fica para amanhã talvez. Para hoje, Alice Vieira nos Dois Corpos Tombando na Água, Prémio Literário Maria Amália Vaz de Carvalho de 2007. Ainda nem tive tempo de o ler, fá-lo-ei mais logo, mas bastou desfolhar para agradar. Associo Alice Vieira à literatura infanto-juvenil, conhecia menos bem a sua poesia e estes Dois Corpos prometem surpreender e deleitar.


como dizer aos meus olhos que se afastem
do incêndio que lavra a oriente do teu sangue
rasgando a minha fome

e me protejam nesta imperfeita madrugada
em que as línguas dos homens e dos anjos
se confundem

Alice Vieira, in "Pelas mãos e pelos olhos eu juro", Dois Corpos Tombando na Água, Caminho, 2007
Foto: Isabel Solano