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Domingo, Junho 15, 2008

Rilkeana


I-C

Quem
concede
os anjos?

As nuvens
imitam
mas é inútil

O coração
não repercute
no alado lado

Que grito
penetra
a noite
de
nenhum
desejo?

Ana Hatherly, in "Variações elegíacas", Rilkeana, Assírio e Alvim, 1999.
Foto: Isabel Solano

Domingo, Março 09, 2008

Às janelas do computador


ELA - AGORA

Não menos que Helena bela
Ela senta-se à janela
Porém não à janela mas às janelas
Do computador
Que abrem portas que são redes
Páginas que são sítios
Avenidas que são ermos
Que agora percorremos
Já sem voz
Cada vez mais sós

Tanta profusão
Atira-nos
Para um lixo que nos deita fora

Ana Hatherly, in "Hors texte", A Neo-Penélope, &etc, Lisboa, 2007
Foto: Isabel Solano

Quinta-feira, Fevereiro 28, 2008

Do mais fundo cinema íntimo


A PALAVRA-ESCRITA

A palavra-escrita
é um labor arcaico:
sulca enigmas
venda e desvenda
o sentido do gesto

É uma imagem detida
recolhida do mais fundo cinema íntimo
onde o verdadeiro
é um ser invisível

O cinema do mundo está aí
onde houver ilusão
onde houver vontade de ver
mesmo que seja só o nada

Ana Hatherly, in O Pavão Negro, Assírio & Alvim, Lisboa, 2003
Foto: Isabel Solano

Quarta-feira, Fevereiro 20, 2008

Gritos de perfume


A SILENCIOSA FORÇA DAS FLORES

A silenciosa força das flores
Emana de suas cores
Que são a sua voz
Os seus anúncios
O seu mosaico de intenções
E digressões
Vitais em seus prenúncios

Sua beleza
Sua inestimável fineza
Está
Em seu corpo a corpo com o desejo
Sua façanha é
Inspirar o beijo
Do errante visitante que as fecunda

Silentes
Apelam
Dando gritos de perfume

Ana Hatherly, in "Poemas Femininos", A Neo-Penélope, &etc, Lisboa, 2007
Foto: Isabel Solano

Sexta-feira, Dezembro 07, 2007

Estou aqui


AS PALAVRAS-OBJECTOS

Estou aqui
no mundo das palavras-objectos
que mudamente me falam
com quem mudamente falo
ao usá-las:
mas que uso fazem elas de mim?

Se bato nelas, elas batem em mim
se estou irritada, ameaçam-me
ameaçam ferir-me
fazer-me tropeçar, cair, soçobrar

Mas se estou calma e confio nelas
então elas confiam em mim:
entregam-se
enchem os meus dias
amparam as minhas noites
ternamente
aconchegam-me em suas estruturas

Mas porquê?
porquê?
para quê?

Ana Hatherly, in O Pavão Negro, Assírio & Alvim, 2003
Foto: Isabel Solano

Terça-feira, Novembro 13, 2007

Num resumido sítio provisório

Gosto muito deste Pavão Negro, pena não ter visto a exposição de 1999 com o mesmo tema. Foi a partir daí que vieram a surgir estes poemas. Sobre as palavras. Sobre a escrita, quem sabe se sustentada por esse "leque de opções sugeridas pelas morfologias da cauda do pavão" (do comentário de Paulo Cunha e Silva à esposição e ao texto que nela era distribuído aos visitantes).


AOS POUCOS

Aos poucos
vais brilhando menos, escrita.

No espaço nímio do livro essencial
uma fractura infiltrou-se já
em tuas rendilhadas dobras
em tuas volutas
em tuas manuais volúpias

Uma gritante pressa te ameaça
voz-escrita
luxo-lixo

Nossa fidelidade impossível
vai deixar-te:
outros ângulos surgem no voraz esquema:
o teu futuro está num resumido sítio
provisório

Ana Hatherly, in O Pavão Negro, Assírio & Alvim, 2003
Foto: Isabel Solano