Gosto muito deste Pavão Negro, pena não ter visto a exposição de 1999 com o mesmo tema. Foi a partir daí que vieram a surgir estes poemas. Sobre as palavras. Sobre a escrita, quem sabe se sustentada por esse "leque de opções sugeridas pelas morfologias da cauda do pavão" (do comentário de Paulo Cunha e Silva à esposição e ao texto que nela era distribuído aos visitantes).

AOS POUCOS
Aos poucos
vais brilhando menos, escrita.
No espaço nímio do livro essencial
uma fractura infiltrou-se já
em tuas rendilhadas dobras
em tuas volutas
em tuas manuais volúpias
Uma gritante pressa te ameaça
voz-escrita
luxo-lixo
Nossa fidelidade impossível
vai deixar-te:
outros ângulos surgem no voraz esquema:
o teu futuro está num resumido sítio
provisório
Ana Hatherly, in O Pavão Negro, Assírio & Alvim, 2003
Foto: Isabel Solano