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Sexta-feira, Janeiro 25, 2008

É pena a morfina adverbial






















DIAGNÓSTICO, POSOLOGIA, ADMINISTRAÇÃO

Finalmente curei-me. Os nomes em que assento
a frase são só nomes de figuras sem forma.
É pena os advérbios, mas o meu objectivo
é reduzir de vez aplicação e norma.

Finalmente curei-me. Isso nota-se até
na tentativa (quase) de adjectivos ausente.
É pena os advérbios, mas qualquer terapia
pressupõe um transfer, mesmo que finalmente.

Por cavalos sem rédeas de qualificação,
neste pós-operatório movimento de agora
sonho um espaço e um tempo de fala e amplidão.

E na totalidade de uma cura verbal,
vejo-me em prognóstico a escrever o futuro
sem dependência da morfina adverbial.

Ana Luísa Amaral, in "imagens", Coisas de Partir, Gótica, 2001
Foto: Isabel Solano

Quarta-feira, Janeiro 23, 2008

Valha-nos pois a katharsis, que a tragédia recomeça dentro de momentos

A katharsis faço-a eu, pelas palavras de Ana Luísa Amaral. Uma tragédia bem familiar e eu a gostar demais disto.
A fotografia fui fazê-la de propósito, dei-me conta de que os meus momentos fotográficos são sempre oferecidos a Hybris... merecidamente, depois de todo o pathos quotidiano.



ANANKÉS (OU PARCAS, OU MOIRAS)

As coisas todas que tenho que fazer
ficam de fora: agora
a hora é de prazer: um verso satisfeito
um olhar devagar

...e os colarinhos da tua camisa
a apontar-me o dever

Era preciso
os colarinhos tão simétricos? Era preciso
o beige da camisa, os vincos da presença,
o bolso descosido a pedir
linha?

Era mesmo preciso esta
tragédia?

Ana Luísa Amaral, in "imagens", Coisas de Partir, Gótica, 2001
Foto: Isabel Solano

Terça-feira, Janeiro 22, 2008

De místicos perfumes de Lisboa

Descubro agora Ana Luísa Amaral, começando pelas Coisas de Partir. Descubro ainda que há muito mais nela a descobrir, calculo que talvez perto da dezena de livros de poesia publicados desde 1990. Que boa descoberta, e ainda só no início.
A foto também foi tirada de uma esplanada entre lençóis. E o que eu gosto de ser lisboeta, por esta e por outras!


OUTRAS PAISAGENS

À distância de
antenas
(de televisão, de insectos,
de místicos perfumes
e entradas)

As roupas penduradas
na varanda (lençóis em
sugestão são mais
que dez)

Poeira levantada
no meio desta Lisboa
em frente da esplanada
onde estou

e à distância nem sei
se da infância
- ou erro,
te escrevo e desfaleço

de amor.
E trinta e oito graus
à sombra

Ana Luísa Amaral, in "lua de papel", Coisas de Partir, Gótica, 2001
Foto: Isabel Solano