Mostrar mensagens com a etiqueta Ana Viana. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ana Viana. Mostrar todas as mensagens

Sábado, Junho 21, 2008

Desarrumação


Hoje sei
que nenhum canto se encontra arrumado
e que certos sentimentos são papéis amarrotados fáceis de alisar
outros são pergaminhos inquebráveis que não sei decifrar
atravessados todos eles por sinais contrários que me distraem

Ana Viana, in Mundo Entretecido, Edições Colibri, 1997
Foto: Isabel Solano

Quarta-feira, Junho 11, 2008

Rasteja uma luz negra






















Escuto as palavras que amontoas na intermitência do sentir
as que traduzem o silêncio e os gestos da sobrevivência
e onde rasteja uma luz negra
a mesma que um dia te absorveu a pele e te cristalizou o
sangue

observo esses cristais-palavras a dissolver-se na neve
a manter-se espelho
ou a lapidar-se em eco

e não sei o que fazer com a espuma que me fica
entre os dedos

Ana Viana, in Memórias do Desapego, Indícios de Oiro, 2007
Foto: Isabel Solano

Quarta-feira, Maio 28, 2008

Soprar os fios



Pêlos de gatos cinza eriçados como ratos
amigos mortos
vozes sem corpo
silêncios desdobrados na distância

é preciso soprar
sobre os fios de aranha que restam

e deixá-los ir

Ana Viana, in Memórias do Desapego, Indícios de Oiro, 2007
Foto: Isabel Solano

Sexta-feira, Fevereiro 08, 2008

Apenas brisa


Sopra um vento entre mim e ti
nascido como todos
quando escavávamos dentro de nós
escavando a distância

foi já tempestade fechada em nevoeiro
hoje é apenas brisa
afrouxada na distância

recebo esse sopro suave como uma carícia
de quem ao largo me acena
enquanto parte

sempre entre nós um vento
ar com que te respiro
enquanto o longe nos escava
a distância

Ana Viana, in Memórias do Desapego, Indícios de Oiro, 2007
Foto: Isabel Solano

Sexta-feira, Fevereiro 01, 2008

Tempo de apagar pegadas


O tempo das pegadas
enevoa-se na humidade do vazio
os sabores confundem-se sem substância
e os cheiros
esses últimos redutos da infância
já não atravessam paredes nem distâncias

nem uma marca de luz na vidraça
nenhum olhar

no lugar dos olhos só uma sombra
repousa

imagem
de ser tempo de apagar pegadas
e de caminhar sobre as águas

uma imagem desfocada
cada vez mais nítida
de um não tempo que resiste

até um dia quando deixar eu de resistir-lhe

Ana Viana, in Memórias do Desapego, Indícios de Oiro, 2007
Foto: Isabel Solano