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Segunda-feira, Março 10, 2008

Amor da palavra


AMOR DA PALAVRA, AMOR DO CORPO

A nudez da palavra que te despe.
Que treme, esquiva.
Com os olhos dela te quero ver,
que te não vejo.
Boca na boca, através de que boca
posso eu abrir-te e ver-te?
É meu receio que escreve e não o gosto
do sol de ver-te?
Todo o espaço dou ao espelho vivo
e do vazio te escuto.
Silêncio de vertigem, pausa, côncavo
de onde nasces, morres, brilhas, branca?
És palavra ou és corpo unido em nada?
É de mim que nasces ou do mundo solta?
Amorosa confusão, te perco e te acho,
à beira de nasceres tua boca toco
e o beijo é já perder-te.

António Ramos Rosa, in "Nos seus olhos de silêncio", A Palavra e o Lugar, Publicações Dom Quixote, 1977
Foto: Isabel Solano

Sexta-feira, Fevereiro 22, 2008

Palavra sem mais


A PALAVRA

A que mais se prolonga
termina e continua
A que abre um espaço e dança
a que quebra e é uma
e só lisa espada

Ó palavra que duras
no teu ar e nas pedras
brilhas só quando passas
respiras continuas
ó palavra sem mais

António Ramos Rosa, in "Voz inicial", A Palavra e o Lugar, Publicações Dom Quixote, 1977
Foto: Isabel Solano

Sábado, Fevereiro 16, 2008

Escrevo no intervalo da sombra


A SOMBRA DE UMA FACE
A FACE DE UMA SOMBRA

Há uma face que não sei,
que não sou.
E o que sou é a face de uma sombra.
Escrever para essa sombra sem face.

Sou uma sombra sem face
na sombra da rua.
Escrevo nesse intervalo,
nessa sombra onde ninguém suspira,
onde ninguém passa,
onde ninguém me vê passar,
onde não passo,
onde vou passar.

Há uma face
página onde a sombra se fez face
frente à sombra.
Escrever contra a face sem face.

Escrever acender na sombra
árvores
mover a sombra até ao céu da rua.

Caminhar na sombra desatar a sombra
uma sombra uma face

Escrever é abrir na sombra uma sombra
e respirar na sombra
um corpo de sombra.

Ninguém nos vê nem nos verá jamais.

Respirar a sombra viva.

António Ramos Rosa, in "A construção do corpo", A Palavra e o Lugar, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1977
Foto: Isabel Solano

Sexta-feira, Janeiro 11, 2008

Tal é o vago movimento da ingénua liberdade


A liberdade é saber que ninguém ouve ou vê
o que em imaginada visão vou escrevendo
e que não é mais que a contingência de um instante
em que a palavra se aventura a não ser nada

Para quê a palavra se não vem de uma nascente
e se não abre um horizonte? Mas a palavra irrompe
do oriente que contém em si e é o vazio magnético
que transmuda o nada em mutação azul

Que posso ser eu mais que o vibrante vagar
em que do mundo só sinto a sua lonjura de veludo
e na página cintilam as brancas constelações?

Tal é o vago movimento da ingénua liberdade
que toca o seu extremo e cria o seu espaço
em que atravessa a sua ausência branca

António Ramos Rosa, in As Palavras, Campo das Letras, 2001
Foto: Isabel Solano

Sábado, Dezembro 29, 2007

A rosa do possível

"As Palavras" de António Ramos Rosa deixam-me sem palavras.


Toda a palavra aspira a ser a rosa do possível
para além da vertigem das raízes obscuras
Se a verdade é mais côncava que convexa
ela terá que ter os sinuosos veios da sombra

Para que essa rosa floresça é preciso subir
a um patamar mais alto do que o fundo obsceno
em que vibra uma rede inextricável
de relações de dúvidas de hipóteses

Para que ela alcance a sua graça aérea
e ganhe a suave cor de um sangue iluminado
é preciso oferecer-lhe a simplicidade do azul
e as claras perspectivas de uma janela aberta

António Ramos Rosa, in As Palavras, Campo das Letras, 2001
Foto: Isabel Solano