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Quarta-feira, Novembro 07, 2007

Daniel Faria (4)

Das Nascentes, Dos Líquidos, Do Inesgotável, Do Sangue, Das Inúmeras Águas, Do que Sangro, Dos Ciclo das Intempéries... bastariam enquanto poema estes títulos das divisões do livro "Dos Líquidos", de Daniel Faria. Mas os líquidos brotam em muitas dezenas de poemas. Estes líquidos encontram-se reunidos à restante obra publicada e ainda a alguns poemas inéditos de Daniel Faria, no volume Poesia, com prefácio de Vera Vouga. Um tesouro.


Ainda não sei ouvir a lâmina
Os gumes inumeráveis com que fere, cura, limpa, [penetra
Os ouvidos como a espada do anjo o coração primogénito

A lâmina abre passagem e águas no deserto daqueles que [escutam
Ainda não sei ouvir os ventos múltiplos que a sussurram
Nos quatro cantos cardeais das direcções que mudam


Daniel Faria, in "Dos líquidos", Poesia, Quasi, 2003.

Sexta-feira, Novembro 02, 2007

Daniel Faria (3)


AS MANHÃS

Das manhãs

Apenas levarei a tua voz

Despovoada

Sem promessas
sem barcos
sem casas

Não levarei o orvalho das ameias
Não levarei o pulso das ramadas

Da tua voz

Levarei os sítios das mimosas
Apenas os sítios das mimosas

As pedras
As nuvens
O teu canto

Levarei manhãs E madrugadas


Daniel Faria, in "Oxálida", Poesia, Quasi, 2003.

De novo Daniel Faria, em Oxálida, um dos seus primeiros livros de poesia. Oxálida é uma variedade de trevo. Mas são de mimosas estas manhãs em que ouço a voz do silêncio.

Domingo, Outubro 28, 2007

Daniel Faria (2)


Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
A magnólia cresce na terra que pisas - podes pensar
Que te digo alguma coisa não necessária, mas podia ter-te dito,
[acredita,
Que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos. Ou melhor,
Que a magnólia - e essa é a verdade - cresce sempre
Apesar de nós.
Esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
Pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
A flor que se abrir é já um pouco de ti. E a flor que te estendo,
Mesmo que a recuses
Nunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame,
A colherei.

A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão

Daniel Faria, "Do ciclo das intempéries - 1", in Poesia, Quasi, 2003.

Sexta-feira, Outubro 26, 2007

A porta

Daniel Faria, alguém que só viveu 28 anos e ainda assim teve tempo para deixar uma obra que é uma surpresa de espanto. Descobri-o há pouco. Admirável. Leio, releio.


A porta mora à espera
De perfil se ensombra
E descansa

O degrau é paciência
O umbral anúncio
O silêncio é o lugar
Onde baterão as mãos


(Daniel Faria, "Explicação das Casas", uma das partes da "Explicação das Árvores e de Outros Animais", in Poesia, Edições Quasi, 2003)