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Sexta-feira, Setembro 26, 2008

Ó mar salgado!


MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernado Pessoa, in Mensagem, Oficina do Livro, 2006.
Foto: Isabel Solano

Sexta-feira, Maio 16, 2008

Sou um guardador de rebanhos


Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

Alberto Caeiro, in o Guardador de Rebanhos
Foto: Isabel Solano

Terça-feira, Abril 08, 2008

A náusea


AH, ONDE ESTOU

Ah, onde estou onde passo, ou onde não estou nem passo,
A banalidade devorante das caras de toda a gente!
Ah, a angústia insuportável de gente!
O cansaço inconvertível de ver e ouvir!
(Murmúrio outrora de regatos próprios, de arvoredo meu.)
Queria vomitar o que vi, só da náusea de o ter visto,
Estômago da alma alvorotado de eu ser...

Álvaro de Campos, versão on-line
Foto: Isabel Solano

Domingo, Janeiro 20, 2008

Ter não sei quê do voo suave


Ah, quanta vez, na hora suave
Em que me esqueço,
Vejo passar um voo de ave
E me entristeço!

Porque é ligeiro, leve, certo
No ar de amavio?
Porque vai sob o céu aberto
Sem um desvio?

Porque ter asas simboliza
A liberdade
Que a vida nega e a alma precisa?
Sei que me invade

Um horror de me ter que cobre
Como uma cheia
Meu coração, e entorna sobre
Minh'alma alheia

Um desejo, não de ser ave,
Mas de poder
Ter não sei quê do voo suave
Dentro em meu ser.

Fernando Pessoa, in Antologia Poética, RBA, 1994
Foto: Isabel Solano

Quinta-feira, Janeiro 10, 2008

Em dias de luz perfeita e exacta


Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Porque sequer atribuo eu
Beleza às coisas.


Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer cousa que não existe
Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então porque digo eu das cousas: são belas?


Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as coisas,
Perante as coisas que simplesmente existem.


Que difícil ser próprio e não ver senão o visível!

Fernando Pessoa, Antologia Poética, RBA, 1994.
Foto: Isabel Solano

Domingo, Dezembro 30, 2007

Sentir? Sinta quem lê!

Hoje mesmo, à tarde, na Brasileira do Chiado, a respirar o cheiro da cidade. Em muito boa companhia: ao meu lado, Fernando Pessoa, um fingidor.


Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço,
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre no meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

Fernando Pessoa, in Antologia Poética, RBA, 1996
Foto: Isabel Solano

Terça-feira, Dezembro 25, 2007

Pensar é estar doente dos olhos

Alberto Caeiro e um dos meus poemas preferidos d'"O Guardador de Rebanhos"; sei ter o pasmo essencial, pensar é estar doente dos olhos, eu não tenho filosofia: tenho sentidos... - a arte de ver/sentir e a recusa do vício de pensar. Já o disse aqui e repito: Caeiro é o meu guardador também.


II

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...

Alberto Caeiro, in Fernando Pessoa, "O guardador de rebanhos", Antologia Poética, RBA, 1996.
Foto: Isabel Solano



English translation found in this blog: Poets of the world


II

My gaze is clear like a sunflower.
It is my custom to walk the roads
Looking right and left
And sometimes looking behind me,
And what I see at each moment
Is what I never saw before,
And I’m very good at noticing things.
I’m capable of feeling the same wonder
A newborn child would feel
If he noticed that he’d really and truly been born.
I feel at each moment that I’ve just been born
Into a completely new world…

I believe in the world as in a daisy,
Because I see it. But I don’t think about it,
Because to think is to not understand.
The world wasn’t made for us to think about it
(To think is to have eyes that aren’t well)
But to look at it and to be in agreement.

I have no philosophy, I have senses…
If I speak of Nature it’s not because I know what it is
But because I love it, and for that very reason,
Because those who love never know what they love
Or why they love, or what love is.

To love is eternal innocence,
And the only innocence is not to think…

© Translation: 2006, Richard Zenith
From: A Little Larger Than the Entire Universe: Selected Poems
Publisher: Penguin, New York, 2006

Terça-feira, Novembro 20, 2007

Pensar e dizer

Alberto Caeiro é o meu guardador. Sem qualquer sombra de dúvidas. Ainda não lhe tinha dado espaço aqui, a ele que tem todo o meu espaço.
É dos Poemas Inconjuntos este pedaço.


(...)

Assim como falham as palavras quando queremos exprimir [qualquer pensamento,
Assim falham os pensamentos quando queremos pensar qualquer [realidade.
Mas, como a essência do pensamento não é ser dita, mas ser [pensada,
Assim é a essência da realidade o existir, não o ser pensada.
Assim tudo o que existe, simplesmente existe.
O resto é uma espécie de sono que temos,
Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.

O espelho reflecte certo; não erra porque não pensa.
Pensar é essencialmente errar.
Errar é essencialmente estar cego e surdo.

Estas verdades não são perfeitas porque são ditas,
E antes de ditas, pensadas:
Mas no fundo o que está certo é elas negarem-se a si próprias
Na negação oposta de afirmarem qualquer coisa.
A única afirmação é ser.
E ser o oposto é o que não queria de mim...

Foto: Isabel Solano

Sexta-feira, Novembro 09, 2007

Vem sentar-te comigo à beira do rio


ODE

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos).

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimentos demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.

Ricardo Reis, in O Rosto e as Máscaras, Círculo de Leitores, 1979