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Sábado, Abril 12, 2008

Despede-te do céu e desta praia


Despede-te do céu e desta praia.
Recebe as cores do mar e sobretudo
esquece o dia e a noite.

Repara como as ondas se desfazem
e são a tua vida sob o peso
do mundo. Nada esperes
e nada prometas aos deuses.

Felizes as palavras que disseres;
felizes todos os caminhos.

Procura-me
quando tiveres perdido o rosto, a tua própria
alma.

Fernando Pinto do Amaral, in "Litorais", Às Cegas, Relógio d'Água, Lisboa, 1997
Foto: Isabel Solano

Segunda-feira, Abril 07, 2008

A natureza morta numa casa


A mão que embala o mundo traz ao colo
a música de frases tenebrosas
a arder na minha boca. A língua fala
de tudo o que não sei: palavras rasas
entre lábios sem alma, que revelam
a natureza morta numa casa
onde a luz fica acesa em cada sala
até de madrugada. Tudo é belo
quando a vida mal vibra e mal nos pesa,
quando o silêncio abre as suas asas
sob o divino hálito que engole
o aroma das rosas.

Fernando Pinto do Amaral, in "Escotomas", Às Cegas, Relógio d'Água, Lisboa, 1997
Foto: Isabel Solano

Quarta-feira, Março 19, 2008

Última sombra na memória


Apagaram-se as luzes. Na memória
vibra a última sombra, a solidão
de um anjo cego abrindo pouco a pouco
os olhos. Desta noite
nascem todas as noites de quem fala
em silêncio e afoga
as suas dores no sangue incandescente
de uma estrela já morta, a cintilar
sob escuros escombros, entre sonhos
ainda por viver. Em cada alma
escorre um fio de mercúrio, essa lágrima
anunciando o paraíso, algures
no interior da treva.

Fernando Pinto do Amaral, in "Escotomas", Às Cegas, Relógio d'Água, Lisboa, 1997
Foto: Isabel Solano