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Sábado, Maio 03, 2008

Em vez de rosas, bandeiras


Liberdade
é também vontade.

Benditas roseiras
que em vez de rosas
dão nuvens e bandeiras.

José Gomes Ferreira, in Antologia Poética-5, Porto Editora, Porto, 1974
Foto: Isabel Solano

Segunda-feira, Abril 14, 2008

Os cardos não se transformam em rosas


Vivam, apenas.

Sejam bons como o sol.
Livres como o vento.
Naturais como as fontes.

Imitem as árvores dos caminhos
que dão flores e frutos
sem complicações.

Mas não queiram convencer os cardos
a transformar os espinhos
em rosas e canções.

E principalmente não pensem na Morte.
Não sofram por causa dos cadáveres
que só são belos
quando se desenham na terra em flores.

Vivam, apenas.
A Morte é para os mortos!

José Gomes Ferreira, in Antologia Poética-5, Porto Editora, Porto, 1974
Foto: Isabel Solano

Quarta-feira, Março 12, 2008

Esponsais de primavera


(Nunca mais tornarei a ver esta minha
vizinha de eléctrico.)

Vem hoje um cheiro tão bom lá de fora do mundo!
Um cheiro a esponsais de primavera
com deusas de astros na fronte
e enlaces de folhas de hera
no cabelo voado...

(Ah! se eu encontrasse a ponte
que vai para o outro lado!)

José Gomes Ferreira, in Antologia Poética-5, Porto Editora, Porto, 1974
Foto: Isabel Solano

Sexta-feira, Janeiro 04, 2008

Um violino na lama


Chove...

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir na chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.

José Gomes Ferreira, in Antologia Poética, Porto Editora, 1974
Foto: Isabel Solano

Terça-feira, Dezembro 18, 2007

O que apenas vê o que não ilumina

Continuo a reler José Gomes Ferreira. Viciante. Embriaga de simplicidade, emoção e verdade.


Poeta o que é?
Um homem que leva
o facho da treva
no fundo da mina
-mas apenas vê
o que não ilumina.

José Gomes Ferreira, in "Poesia III", Antologia Poética, Porto Editora, 1974.
Foto: Isabel Solano

Segunda-feira, Dezembro 17, 2007

Mar, lágrima de ninguém

Releio José Gomes Ferreira. E novamente me espanto com a força emotiva das suas palavras.


Cala-te mar!

Não tentes cobrir a minha voz
com o furor da tua boca de espuma
onde nem há rogos de náufragos nos rasgões do vento.

Cala-te, mar!

Não me obrigues a rugir mais alto do que tu
numa indignação de tempestade de silêncio
que lança raios dos homens para as nuvens.

(...)

O que queres é berrar, berrar uma dor qualquer sem sentido
para cobrir a minha voz de protesto de espada
-terrível como um grito insuportável de doer.

O que queres é berrar
-mar inútil! Mar enorme! Mar que dás a volta ao mundo
e és tão pequeno ao pé destas lágrimas
que me caem dos olhos,
frias e ardentes como balas.

Mar.
Lágrima de ninguém.

José Gomes Ferreira, in "Poesia I", Antologia Poética, Porto Editora, 1974.
Foto: Isabel Solano