Preparava esta tarde as aulas da semana que vem sobre lírica camoniana e fui à procura de materiais. Tento sempre cativar para a poesia através da música, costuma resultar até nos alunos mais resistentes. E aproveito para dar uma palavrinha sobre Zeca Afonso. O CD já está no meio das redondilhas e sonetos, para não esquecer.
Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.
Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.
Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.
Luís de Camões (este sei-o de cor, portanto vem sem referência)
Poesia lusófona e fotografia: Bárbara Pais, Isabel Solano, Luísa Veríssimo, Rui de Morais e todos os Mestres
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Sexta-feira, Janeiro 25, 2008
Sábado, Julho 09, 2005
Tanto de meu estado me acho incerto
Outro velhinho do meu escritório de quadro Miró e tralha tanta onde sempre ou quase sempre encontro tudo e às vezes tudo é tão pouco e tanto como este livro de prefácio e selecção de Eugénio de Andrade. Camões. O grande. Cada verso, cada sílaba, cada fonema no lugar certo e sentido. Tão sentido. Tão perfeito. E se achava incerto o Poeta!Tanto de meu estado me acho incerto,
que em vivo ardor tremendo estou de frio;
sem causa, juntamente choro e rio,
o mundo todo abarco e nada aperto.
É tudo quanto sinto, um desconcerto;
da alma um fogo me sai, da vista um rio;
agora espero, agora desconfio,
agora desvario, agora acerto.
Estando em terra, chego ao Céu voando,
numa hora acho mil anos, e é de jeito
que em mil anos não posso achar uma hora.
Se me pergunta alguém porque assi ando,
respondo que não sei; porém suspeito
que só porque vos vi, minha Senhora.
Luís de Camões, in Versos e Alguma Prosa de Luís de Camões, Edição da Fundação Calouste Gulbenkian organizada e executada por Moraes Editores, 1977
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