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Quarta-feira, Setembro 10, 2008

De moradas


BREVE ENCONTRO

Este é o amor das palavras demoradas
Moradas habitadas
Nelas mora
Em memória e demora
O nosso breve encontro com a vida

Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das Coisas, Caminho, 2004
Foto: Isabel Solano

Sexta-feira, Agosto 08, 2008

Os seus gestos ordenados e frios


Eu contarei a beleza das estátuas -
Seus gestos imóveis ordenados e frios -
E falarei do rosto dos navios

Sem que ninguém desvende outros segredos
Que nos meus braços correm como rios
E enchem de sangue a ponta dos meus dedos.

Sophia de Mello Breyner Andresen, No Tempo Dividido, 4ª ed., Caminho, 2005.
Foto: Isabel Solano

Terça-feira, Agosto 05, 2008

Tantas noites em flor de Primavera


Mais do que tudo, odeio
Tantas noites em flor da Primavera,
Transbordantes de apelos e de espera,
Mas donde nunca nada veio.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Poesia, 3ª ed., Caminho, 2007.
Foto: Isabel Solano

Domingo, Junho 01, 2008

No silêncio nu


OÁSIS

Penetraremos no palmar
A água será clara o leite doce
O calor será leve o linho branco e fresco
O silêncio estará nu - o canto
Da flauta será nítido no liso
Da penumbra

Lavaremos nossas mãos de desencontro e poeira

Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das Coisas, Caminho, 2004
Foto: Isabel Solano

Sábado, Maio 24, 2008

Clareza nua


PROJECTO I

O longo muro alentejano e branco
O desejo de limpo e de lisura
Aqui na casa térrea a arquitectura
Tem a clareza nua de um projecto

Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das Coisas, Caminho, 2004
Foto: Isabel Solano

Quinta-feira, Abril 24, 2008

Embriaguês


MUSEU

Aqui - como convém aos mortais -
Tudo é divino
E a pintura embriaga mais
Que o próprio vinho

Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das Coisas, Caminho, 2004
Foto: Isabel Solano

Segunda-feira, Março 24, 2008

Sílaba a sílaba


LIBERDADE

O poema é
A liberdade

Um poema não se programa
Porém a disciplina
- Sílaba a sílaba -
O acompanha

Sílaba por sílaba
O poema emerge
- Como se os deuses o dessem
O fazemos

Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das Coisas, Caminho, 2004
Foto: Isabel Solano

Terça-feira, Janeiro 29, 2008

Nos teus quartos forrados de luar


Quero
Nos teus quartos forrados de luar
Onde nenhum dos meus gestos faz barulho
Voltar.
E sentar-me um instante
Na beira da janela contra os astros
E olhando para dentro contemplar-te,
Tu dormindo antes de jamais teres acordado,
Tu como um rio adormecido e doce
Seguindo a voz do vento e a voz do mar
Subindo as escadas que sobem pelo ar.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Coral, Caminho, 2003
Foto: Isabel Solano

Quarta-feira, Janeiro 09, 2008

Agradeço às flores


AS FLORES

Era preciso agradecer às flores
Terem guardado em si,
Límpida e pura,
Aquela promessa antiga
De uma manhã futura.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in No Tempo Dividido, Caminho, 2003
Foto: Isabel Solano

Quarta-feira, Janeiro 02, 2008

Secreta navegação

Sophia nunca esteve entre as minhas preferências poéticas. Ando agora a lê-la com mais cuidado e a render-me à evidência da beleza elegante dos seus versos.


Como um oásis branco era o meu dia
Nele secretamente eu navegava
Unicamente o vento me seguia.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in No Tempo Dividido, Caminho, 2003
Foto: Isabel Solano

Sexta-feira, Dezembro 28, 2007

Nada em comum com as gaivotas


TARDE

O que eu queria dizer-te nesta tarde
Nada tem de comum com as gaivotas.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in No Tempo Dividido, Caminho, 2003
Foto: Isabel Solano

Terça-feira, Novembro 13, 2007

Quem como eu

A escultura é de José Núncio, Liberdade; passo por ela todos os dias, diversas vezes ao dia, há alguns anos. Há tempos que andava com vontade de parar nela, perder-me e dispersar-me por ali.


QUEM COMO EU

Quem como eu em silêncio tece
Bailados, jardins e harmonias?
Quem como eu se perde e se dispersa
Nas coisas e nos dias?

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética I, 3ª ed., Caminho, 1995
Foto: Isabel Solano